Albert Camus relê o mito de Sísifo para encontrar o heroísmo trágico de todos nós

Albert Camus relê o mito de Sísifo para encontrar o heroísmo trágico de todos nós

“Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido?” - Albert Camus

Albert Camus.

Os índices alarmantes de depressão e ansiedade podem ser um sinal do quanto a vida nos parece sem sentido ou, segundo o filósofo Albert Camus, absurda. Se a vida assim nos parece é importante ouvir o que ele tem a dizer, pensamentos do conturbado período da guerra fria.

Personalidade de difícil categorização dentro do período que viveu e por sua filosofia, Albert Camus ainda é uma leitura essencial para entendermos nossos tempos. Em seu ensaio “O mito de Sísifo” publicado em 1941, ele mergulha no mito clássico para trazer alguma luz ao mundo absurdo e caótico que o rodeava.

“Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.”

Tendo Sísifo como “o herói absurdo” por seu “ desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida”, uma vida trágica que também compartilhamos, embora nem sempre da maneira como ele considerava:

Sísifo (1548-49) por Ticiano, Museu do Prado, Madrí, Espanha.

“A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.
Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente.”

Camus não só define seu padrão de heroísmo como também a felicidade possível em um mundo absurdo: a consciência e a atitude impassível diante dessa falta de esperança e significado, argumento que ele ilustra fazendo referência à história de Édipo.

“Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é o frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar que tudo está bem." O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.”

Assim, a felicidade é possível mesmo para Sísifo e essa seria a maior rebeldia diante do castigo divino. Porém, Camus não fala em possibilidade. Para ele, é preciso que Sísifo seja feliz:

“Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.”

Premiado com o Nobel de literatura em 1957, Albert Camus faz parte do seleto grupo de escritores como José Saramago e William Faulkner que além de marcarem seu tempo também continuam relevantes. Leia também o pedido de Saramago em seu discurso de premiação e as entrevistas que Faulkner concedeu como escritor residente na Faculdade de Virgínia.