A entrevista como ferramenta para escritores iniciantes

A entrevista como ferramenta para escritores iniciantes

“A entrevista, ao menos para minha experiência muito utilitária, se tornou uma ferramenta importante para encontrar apontamentos e discussões que talvez passassem despercebidos por mim.”

Se você, como eu, tenta escrever literatura, então é bem provável que a falta de pessoas com quem discutir seus esforços seja uma constante. Sei que a internet existe pra isso, mas falo aqui de um contato que seja útil e ofereça conteúdo relevante. Há algum tempo descobri que as entrevistas dadas por outros escritores podem ser um meio termo entre conversa e uma leitura mais aprofundada. Por um lado há ali certa informalidade típica do diálogo, mas também costuma haver muito conteúdo caso você saiba onde buscar essas entrevistas. Tudo isso em um formato mais curto e sem que você precise ler um livro inteiro sobre um tema específico de cada vez.

Jornal Rascunho e livro de entrevistas.

Jornal Rascunho e livro de entrevistas.

Essa utilidade que vejo nas entrevistas é o motivo de eu compartilhar algumas delas aqui, como a da Lygia Fagundes Telles e a do Borges. Há pouco tempo ganhei em uma promoção o livro do Jornal Rascunho com as melhores entrevistas já publicadas por eles. Esse primeiro volume, publicado pela Arquipélago editorial, engloba textos dos primeiros anos do jornal. Li esse livro em tão pouco tempo que agora só me resta ir atrás do segundo volume.

Porém tanto o prefácio assinado pelo Luís Henrique Pellanda, organizador do livro, quanto minha experiência com entrevistas me chamaram a atenção para um fator essencial que às vezes pode passar despercebido: o entrevistador. Não é incomum vermos um entrevistador destruir o potencial da entrevista por falta de tato ou por despreparo. Em uma boa entrevista o conhecimento do entrevistador e a escolha adequada das perguntas devem agir em conjunto para possibilitar as melhores respostas do entrevistado.

Roland Barthes já chamou atenção para os limites que existem entre o autor e sua própria obra e isso também se aplica às entrevistas com escritores. O teor das respostas deve ser visto com certa reserva, por isso considero um contato diferente daquele proporcionado por livros e ensaios, mesmo quando se trata de uma entrevista por e-mail. Nas entrevistas não é raro ver um escritor reticente em comentar o próprio livro ou evitar dar detalhes demais sobre personagens e métodos criativos. Isso porque como muitos deixam claro, nem sempre é uma boa ideia pedir para o autor analisar seus próprios livros e a comunicação da entrevista não deve suprir ou complementar a obra escrita. Além disso devemos ter em mente a instantaneidade da entrevista e a diferença entre algo escrito e a resposta oral, ainda que transcrita.

A entrevista, ao menos para minha experiência muito utilitária, se tornou uma ferramenta importante para encontrar apontamentos e discussões que talvez passassem despercebidos por mim. Obviamente o formato, que raramente é extenso demais, contribui com certas limitações na profundidade da abordagem, porém esse aspecto é compensado fora do âmbito da entrevista. Como ferramenta é uma leitura menos impessoal para se encaixar entre estudos e outras leituras mais pesadas. No entanto, mesmo com essa utilidade que apontei aqui, suspeito que esse seja apenas um uso menor desse tipo de texto.