Estive cara a cara com o Abaporu e mal o vi

 “E o que posso fazer com isso se na sala em que estou há uma fila para tirar selfies com a tela, se há um vidro blindado entre eu e a pintura e as luzes da galeria se refletem ali me impedindo de ver a pintura por completo?”

Desde pequeno aprendi na escola a reconhecer e valorizar as pinturas da brasileira Tarsila do Amaral, mas nunca me aproximaram dela, nunca cheguei perto do enorme pedestal em que suas grandes obras ficam, nem ao menos me disseram que eu podia fazer isso. Falo assim por saber que essa minha experiência de formação é comum à maioria dos estudantes que têm algum contato com aulas de arte na infância (quando têm, é claro).

Praça Mauá e Museu do Amanhã vistos a partir do MAR.

E no dia 2 de Agosto de 2016 me encontrei frente a frente com duas de suas pinturas mais icônicas, Antropofagia e Abaporu. Seria desonesto fingir que minha formação acadêmica e meus interesses artísticos me mantiveram no mesmo patamar de inocência/ignorância da minha infância. Quando fui à exposição “A cor do Brasil” no Museu de Arte do Rio (MAR), não fui como um leigo, muito menos como uma pessoa que lida desinteressadamente com arte. Fui muito interessado em estudar o envolvimento do visitante e a experiência proporcionada pelos museus ao público.

Com o Rio de Janeiro pronto para hospedar o circo Olímpico e a cidade abarrotada de turistas, lá no museu havia a mesma multidão cheia de energia, animação e curiosidade. Ainda assim, poucos estavam ali pela exposição que estreava naquele dia com grandes nomes da arte brasileira, muitos esbarravam nessas obras como se fossem todas as outras do museu, que não merecem menos destaque, é claro, mas essa desatenção ou indiferença era extensão do ambiente. Localizado na Praça Mauá, agora parte do Boulevard Olímpico, o público se dividia entre o MAR e o Museu do Amanhã em filas enormes, talvez sem saberem exatamente o que esperar daquelas instituições além das fotos que tirariam das obras e da arquitetura chamativa de ambos os lugares.

O que é um museu?

Considerando somente o que salta aos olhos é fácil culpar o público por não prestar atenção, pelo desinteresse e pela superficialidade com que se comportam nos museus, entretanto, é preciso investigar como o museu se envolve nessa experiência.

Museu de Arte do Rio.

Museu de Arte do Rio.

Um ponto de partida interessante é observar a imagem e a suposta função que os museus assumem atualmente. A secularização da sociedade ocidental parece estar ligada à ascensão dos museus na medida em que essas instituições passam a ter objetos dignos de reverência e significado profundo na medida em que há um esvaziamento simbólico das religiões, ou seja, parte do valor dos museus vem de uma transferência dessa necessidade humana profunda, seja ela psicológica ou espiritual, que queremos sanada por uma arte secular.

A consequência dessa valorização da arte é o status elevado que os museus têm hoje como detentores e cuidadores de um patrimônio cultural inestimável e também a precificação obscena dos “originais” que ocupam esses espaços e as casas e galerias de alguns ricaços. Algo assim tão importante gera uma situação complicada para os visitantes que querem se aproximar e conhecer a suposta importância da arte em nossas vidas. Complicada porque reverenciamos o museu e tudo que há dentro dele, entesouramos todas aquelas obras e somos ensinados que apenas alguns iluminados podem criar coisas tão incríveis, mas como podemos entender a Tarsila se achamos que ela era assim tão diferente e superior? Como mergulharmos na obra de Di Cavalcanti se achamos que o essencial está ali apenas para os iniciados e especialistas? Nos museus a única ajuda disponível na sala são os textos quase catalográficos que explicam a exposição e as placas ao lado das obras que nos dizem a data, o artista e o material ou quando muito uma pequena nota sobre o contexto histórico.

No museu, diante das cores vibrantes do enorme antropófago à minha frente pouco me importa ano, tela, tinta e proprietário. Vejo uma criatura enorme e disforme em um ambiente simples, quase esquemático, com cores que sei familiares no meu dia a dia, mas também presentes em tudo aquilo tido por oficial e canônico no Brasil. E o que posso fazer com isso se na sala em que estou há uma fila para tirar selfies com a tela, se há um vidro blindado entre eu e a pintura e as luzes da galeria se refletem ali me impedindo de ver a pintura por completo? Espero até que parem de tirar fotos em frente à tela e saiam, mas também não há assento nem nada que o valha, porque aparentemente está fora de cogitação que o visitante precise de mais tempo e conforto para uma interpretação detida da obra.

O MAR não é o problema, não se trata aqui de crucificar um museu individualmente quando na realidade esse é um padrão. As exposições correm o risco de ser apenas isso, vitrines de arte, onde o visitante mais inteligente é aquele que tira fotos das plaquinhas, para depois, com tempo e no conforto de casa pesquisar mais e buscar uma versão digital da obra para poder analisar, interpretar e realmente trazê-la para sua vida e sua rotina mental.

Pra falar de arte

Antes de prosseguir preciso deixar claro que reconheço as muitas funções de um museu além dessa que estou discutindo. Entendo que o museu é também uma instituição que fomenta a pesquisa, o restauro e diversas outras atividades culturais e acadêmicas que são essenciais e justificariam por si só a existência de entidades dedicadas. Porém se me debruço aqui somente ao contato do visitante com o acervo não é por desatenção ou para atacar um ponto fraco, o motivo de focar nisso é porque estou mais interessado em discutir a experiência do leigo com a arte do que discutir o museu em sua unidade. Embora eu compreenda que não é possível pensar o museu sem levar em conta esses outros aspectos, por ora os deixo para uma outra oportunidade.

Essa “experiência” de que falo não está necessariamente ancorada em qualquer limitação dos conceitos acadêmicos mais conhecidos como catarse, sublime ou sentimentos afins. Considero essa relação abertamente sabendo que há uma multiplicidade de maneiras de nos relacionarmos com a arte, então penso em como viabilizar a aproximação, independente da forma que assuma esse contato. Acredito que existe essa aproximação quando a arte se torna algo relevante na vida de alguém, embora não necessariamente útil no sentido usual.

Exemplo disso é que em momentos de tristeza ouvimos músicas tristes que se a princípio parecem aprofundar o problema, na realidade estão nos ajudando, através de um momento de introspecção, a elaborar aquele sentimento porque nos guiam e servem de pano de fundo meditativo. Entendemos a música porque em shows nos permitem dançar, cantar, beber e usar drogas, não existe pompa e reverência diante da música, ouvimos em casa e no ônibus lotado. É verdade que isso nos impede de apreciar a música por completo em algumas situações, por outro lado é preciso admitir que sua presença constante e a familiaridade que criamos é mais benéfica do que uma abordagem excessivamente séria e contida.

Complexidades, obstáculos e luz no fim do túnel?

Capela Rothko.

O museu, assim como uma catedral, talvez devesse priorizar a experiência pessoal e a relação com as obras antes de tentar se tornar um ponto turístico por ser um galpão repleto de obras de arte. Um exemplo de como isso pode ser feito é a capela Rothko, localizada em Houston, que foi construída em conjunto com o pintor para ser um espaço contemplativo e abriga 14 de suas pinturas negras. Na capela as pinturas de Mark Rothko servem como instrumentos para criar um espaço físico capaz de guiar a reflexão e a introspecção do visitante. E o investimento para algo mais elaborado não é necessariamente um problema, ou não deveria ser, quando se considera que somente o seguro da tela Abaporu, segundo Jones Bergamin, diretor-presidente da Bolsa de Arte do Rio, deve girar em torno de 800 mil reais.

Resta ainda saber se os museus têm realmente a possibilidade de fazer essa mudança já que tudo isso é resultado de uma conjuntura complexa que passa por fatores econômicos, culturais e até políticos. Com um mercado internacional de arte que continua batendo recordes em leilões, um governo que usa a cultura como espetáculo e a falta de educação artística abrangente, não é surpresa que o museu sofra ao ser colocado em meio ao fogo cruzado, de um lado as expectativas enormes que depositamos nessa instituição e do outro o ambiente limitador no qual precisa funcionar.

Enquanto essas grandes questões ficam em aberto, é preciso ocupar esses espaços que oferecem alguma riqueza, ainda que também tragam obstáculos. Ver a arte não como consumo, mas como cultura, arte viva da qual precisamos e podemos nos apropriar para mantê-la relevante e justamente impedir que se torne uma peça de museu, apenas disponível para selfies. Em todo seu desajeito o Abaporu ainda passa uma intensidade tremenda, de raízes, dum engradecer para a terra e uma serenidade profunda mesmo para uma figura de tanta força. Se tem algo que Tarsila do Amaral nos ensinou é que somos capazes sozinhos e que há uma grandeza incomensurável até nas coisas mais simples. Independente do que esperem de nós, podemos recriar sempre se tivermos a coragem para tal.