Meditações, livro IV. Regras para viver com dignidade.

Meditações, livro IV. Regras para viver com dignidade.

LIVRO IV

1.      Se o poder interior que nos governa for fiel à Natureza, então se ajustará prontamente às possibilidades e oportunidades oferecidas pela circunstância. Sem precisar de nenhum material predeterminado; está disposto a se adequar para perseguir seus objetivos; os entraves a seu progresso simplesmente se convertem em matéria para seu próprio uso. É como uma fogueira dominando uma pilha de lixo, que teria apagado uma chama menos intensa, mas sua labareda indomável rapidamente engole a carga e, consumindo-a, arde mais intensamente.

2.      Não aceite empreitadas fortuitamente ou sem se preocupar com os princípios que governam sua adequada execução.

3.      Os homens procuram o isolamento na selva, no litoral ou nas montanhas – um sonho que você mesmo desejou muito ternamente. Porém tais desejos são totalmente indignos de um filósofo, já que a qualquer momento é possível se retirar para dentro de si. Não existe retiro mais quieto e calmo do que a própria alma; além de tudo, aquele que possui os recursos em si mesmo precisa apenas de contemplação para alcançar sossego mental – sossego que não passa de uma outra palavra para espírito equilibrado. Aproveite sempre esse retiro e renove-se continuamente. Faça as regras de sua vida serem simples, desde que compreendam o fundamental. Recorrer a elas bastará para remover toda vexação e te permitirá voltar, sem tormentos, aos deveres que o esperam.

Afinal, o que te atormenta? Os vícios da humanidade? Lembre-se da doutrina de que todos os seres racionais são criados uns para os outros; que a tolerância é parte da justiça; e que os homens não são malfeitores de propósito. Pense na miríade de inimizades, suspeições e conflitos que agora são varridos com o pó e as cinzas dos homens que as conheceram e não se atormente mais.

Ou é a sorte designada a você no universo que te irrita? Volte, de novo, ao dilema: “Se não uma Providência sábia, então mera confusão de átomos”, e pense na profusão de evidências de que esse mundo funciona como se fosse uma cidade. Os males do corpo te afligem? Reflita que para a mente basta distanciar-se e apreender seus poderes para não ser mais envolvida nos movimentos da respiração, sejam eles suaves ou grosseiros. Em suma, lembre-se de tudo quanto aprendeu acerca da dor e do prazer.

Ou a bolha da reputação te distrai? Tenha em mente o rápido começo do olvido e o abismo da eternidade ante nós e antes de nós; observe como é surdo o eco dos aplausos, como é inconstante e indistinto os julgamentos de pretensos admiradores e quão insignificante é o palco da fama humana. Pois a terra inteira não passa de um ponto, e o espaço de nossa habitação, de um canto desse ponto; e quantos há ali que vão louvá-lo e que tipo de homens são eles?

Lembre-se, então, de se retirar para o pequeno espaço em si. Acima de tudo, não brigue nem se dobre; e olhe a vida como um homem, como um ser humano, como um cidadão e como um mortal. Entre as verdades que te fará bem contemplar com frequência, estão essas duas: Primeiro, as coisas nunca tocam a alma, pois ficam inertes fora dela, logo, a inquietação só pode vir de dentro; segundo, todos os objetos visíveis mudam num instante e não mais existirão. Pense nas incontáveis mudanças das quais você participou. Todo o universo é mudança e a própria vida não vai além do que você pensa dela.

4.      Se o poder de pensar é universal entre a humanidade, assim também é a posse da razão, tornando-nos criaturas racionais. Daí segue que essa razão dialoga, através de seus “Deves” ou “Não deves”, com todos nós. Logo, há uma lei-mundial; que por sua vez significa que somos todos concidadãos, partilhamos da mesma cidadania e que o mundo é uma única cidade. Há alguma outra cidadania que possa ser reclamada por toda a humanidade? E é desse mundo-pólis que as próprias mente, razão e lei derivam. Se não, de onde mais? Dado que minha porção terrena tem sua origem na terra, a aquosa em um diferente elemento, minha respiração em uma fonte e meu calor e partes mais quentes em outra (pois nada vem do nada ou pode retornar ao nada), então também há de haver uma origem para a mente.

5.      A morte, como o nascimento, é um dos segredos da Natureza; os mesmos elementos que foram combinados são dispersados. Não há, sobre isso, nada que seja causa de vergonha. Não é nenhuma anomalia para seres dotados de mente nem, de forma alguma, inconsistente com o plano de sua criação.

6.      Que homens de certos tipos se comportem como o fazem é inevitável. Desejar o contrário seria querer que uma figueira não produzisse seu sumo. De qualquer forma, lembre-se de que em pouco tempo tanto você quanto eles estarão mortos e seus nomes serão esquecidos rapidamente.

7.      Deixe de lado a opinião: “Fui injustiçado” e junto com ela irá o sentimento. Rejeite a sensação de injúria e a própria injúria desaparecerá.

8.      O que não corrompe o homem em si não pode corromper sua vida, nem fazê-lo qualquer dano seja exterior ou internamente.

9.      As leis da conveniência coletiva tornaram necessário que isso acontecesse.

10.  O que quer que aconteça, acontece corretamente. Acompanhe de perto e verá que é verdade. Na sucessão dos eventos não há apenas uma sequência, mas uma ordem que é justa e correta, como vinda da mão de alguém que dá a cada um o que lhe é devido. Esteja atento, então, como já começou a fazer, e permita que a bondade acompanhe todas as suas ações – bondade, seja dito, no sentido próprio da palavra. Em todas as suas ações atente-se a isso.

11.  Não copie as opiniões do arrogante nem as deixe ditar as suas. Veja as coisas sob sua luz verdadeira.

12.  Esteja sempre pronto para dois casos: primeiro, para fazer exclusivamente o que a razão, nossa soberana e legisladora, sugira para o bem-estar comum; e segundo, a reconsiderar uma decisão se alguém presente lhe corrigir e o convencer sobre um erro de julgamento. No entanto, tal convicção deve proceder da garantia de que a justiça, ou o bem comum ou algum outro interesse será servido. Essa deve ser a única consideração; não a possibilidade de gozo ou popularidade.

13.  És dotado de razão? “Sou”. Por que então não a usa? Se a razão cumprir sua parte o que mais há de querer?

14.  Sendo uma parte, você pertence ao Todo. Você irá se desfazer naquilo que te deu à luz; melhor, você se transmutará, uma vez mais, na criativa Razão do universo.

15.  Muitas cinzas de incenso caem em um mesmo altar: umas antes, outras depois – não faz a menor diferença.

16.  Basta se voltar para os ensinamentos de sua crença e reverenciar a razão para que, dentro de uma semana, aqueles que agora te equiparam a bestas e macacos passem a te considerar um deus.

17.  Não viva como se houvesse mil anos a sua frente. O destino está se aproxima; seja bom enquanto a vida e o poder ainda lhe pertencem.

18.  Aquele que ignora o que seu próximo diz, faz ou pensa, e se preocupa apenas em fazer seus próprios atos justos e piedosos, é, de longe, o ganhador em tempo e tranquilidade. Um homem bom não vive a procurar máculas nos outros e sim a seguir inabalável em seu objetivo.

19.  O homem cujo coração palpita pela fama após a morte não reflete sobre como todos que se lembram dele morrerão em breve, e que no decorrer do tempo também a próxima geração morrerá, até que no fim, depois de brilhar e decair, a última faísca da memória é apagada. Ademais, mesmo supondo que aqueles que lembram de você nunca morressem, nem suas memórias se apagassem, o que seria isso para você? Obviamente, em seu túmulo, nada. E mesmo enquanto vivo, o que há de bom na idolatria além de, talvez, facilitar algum projeto menos importante? Por certo, então, ao focar sua mente apenas no que os homens dirão de ti amanhã, estás inoportunamente rejeitando o que a Natureza lhe deu hoje.

20.  Qualquer coisa que seja bonita deriva sua beleza de si mesma, sem pedir nada além disso. O elogio não faz parte da beleza, pois nada é piorado ou melhorado pelo elogio. Isso se aplica até mesmo às formas mais mundanas de beleza: objetos naturais, por exemplo, ou obras de arte. Do que mais necessita a verdadeira beleza? De nada; assim como a lei, a verdade, a bondade ou a modéstia.  Alguma dessas coisas é engrandecida pelo elogio ou estragada pela censura? Uma esmeralda perde sua beleza por falta de ser admirada? E o ouro, o marfim ou o carmesim? Uma lira ou uma faca, um botão de flor ou um jovem?

21.  Se as almas vivem após a morte, como o ar sobre nós encontra espaço para todas desde o começo? Questione também como a terra encontra espaço para todos os corpos enterrados desde tempos imemoriais. Lá, depois de uma breve pausa, a mudança e a decomposição criam espaço para outros corpos. Igualmente, as almas transferidas para o ar existem por algum tempo antes de sofrerem uma mudança e uma difusão, então são transmutadas em fogo e levadas de volta ao princípio criativo do universo; criando, dessa maneira, espaço para receber outras almas. Tal é a resposta de qualquer um dos que acreditam na sobrevivência das almas. Ademais, devemos levar em conta, além do número de corpos humanos enterrados, também os de todas as criaturas que são diariamente devoradas por nós e pelos outros animais. Quantas multidões, perecendo dessa maneira, são, por assim dizer, enterradas nos corpos daqueles a quem serviram de nutriente! Ainda assim, pela assimilação no sangue e pela subsequente transmutação em ar ou fogo todo o espaço necessário se torna disponível.

Como descobrimos a verdade de tudo isso? Distinguindo a matéria e a causa.

22.  Nunca se desequilibre: quando um impulso sobrevier confira se ele tem pretensões justas; quando uma impressão se formar assegure-se, primeiro, de que é correta.

23.  Ó mundo, estou em sintonia com cada nota de tua grandiosa harmonia. Para mim nada é cedo, nada é tardio se é pontual para ti. Ó Natureza, tudo que tuas estações rendem é fruto para mim. De ti, em ti e a ti são todas as coisas. “Querida cidade de Deus! ” Não exclamemos, como fez o poeta em “Querida cidade de Cécrope! ”

24.  “Se desejas conhecer o contentamento, faça com que sejam poucos os seus atos. ” Disse o sábio. Melhor ainda, limite-os estritamente ao essencial e ao que a razão demanda a um ser social, da forma como ela demandar. Isso traz o contentamento de fazer poucas coisas e fazê-las bem. A maior parte do que fazemos ou dissemos é desnecessário e sua omissão nos pouparia tempo e preocupação. Logo, a cada passo, deve-se se perguntar “Esta é uma das coisas supérfluas? ”. Dessa forma, não apenas ações inúteis, mas até mesmo impressões inúteis devem ser suprimidas; para que não levem a uma ação desnecessária.

25.  Teste sua capacidade de levar a vida de um homem bom; a vida de alguém contente e satisfeito com o que lhe foi dado pelo universo, que busca apenas a justiça em seus atos e a bondade em seus modos.

26.  Você viu aquilo? - Agora olhe aqui. Seu dever é ser sereno e simples. Alguém está agindo mal? O mal está nele mesmo. Algo aconteceu a você? Ótimo; então, desde o início dos tempos essa era a sua sorte no conjunto universal; um fio tecido em sua teia particular, como tudo o mais que acontece. A vida é curta; então aproveite a hora que passa, sendo obediente à razão e à justiça. Firme, mas comedido.

27.  Ou um universo que ordenado ou uma balbúrdia desordenada que ainda, de alguma forma, produz um universo. Entretanto, pode haver algo de ordem em você e, ao mesmo tempo, desordem no Todo? E existir o sentimento de unidade entre todas as partes da natureza, apesar de sua divergência e dispersão?

28.  Um coração escuro. Um coração fraco e voluntarioso; o coração de um bruto, uma besta dos campos; infantil, estúpido e falso; o coração de um vigarista, de um tirano.

29.  Se aquele que não sabe o que está no universo é um estranho para o universo, não o é menos que aquele que não sabe o que aí se passa. Tal homem é um exilado, auto expatriado da razão; um homem sem visão, tendo seus olhos do entendimento obscurecidos; um indigente a depender dos outros, sem recursos para sua própria sobrevivência. Ele é uma excrescência no mundo, quando se dissocia e abdica das leis de nossa natureza comum por recusar seu destino (que no fim das contas é um produto da mesma Natureza que o produziu); é um membro amputado da sociedade quando separa sua própria alma da alma única que é comum a todos os seres racionais.

30.  Um filósofo vaga sem camisa. Outro, sem livros. Um terceiro, meio desnudo, diz, “Pão não tenho, porém ainda me apego à razão”. De minha parte, também não possuo frutos do meu aprendizado e mesmo assim me apego a ela.

31.  Entregue seu coração ao ofício que aprendeu e encontre descanso nisso. Passe o resto de seus dias como alguém que se comprometeu, de todo o coração, aos deuses e não é mestre nem escravo de nenhum outro homem.

32.  Pense, digamos, nos tempos de Vespasiano; e o que você vê? Homens e mulheres casando, criando filhos, adoecendo, morrendo, lutando, banqueteando, tagarelando, cultivando, adulando, vangloriando-se, invejando, conspirando, xingando, reclamando da vida, amando, entesourando, cobiçando tronos e dignidades. Nada dessa vida sobreviveu. Ou avance até os dias de Trajano; é a mesma coisa; aquela vida também pereceu. Veja também os registros de eras passadas e de outras pessoas; observe como todo e cada um, depois de viverem pouco, morreram e se dissolveram em elementos. Principalmente, se lembre de algum conhecido que perseguiu vaidades ao invés de se contentar com uma devoção adequada aos deveres para os quais foi criado. Nesses casos é essencial nos lembrarmos que a busca por qualquer objeto, para que seja válida, depende do valor do objeto perseguido. Se, então, quiser evitar o desencorajamento, nunca se dedique demais a coisas que não são de primeira importância.

33.  Expressões que eram de uso corrente, hoje estão fora de uso. Nomes que eram tão familiares hoje são praticamente arcaísmos; Camilo, Césio, Volésio, Dentato; ou, pouco depois, Cipião e Catão; Augusto também e até Adriano e Antonino. Tudo desvanece no passado histórico e logo depois se perde no olvido. Isso acontece até com os homens cujas vidas foram gloriosas; os outros, mal param de respirar e, como diria Homero, estão “perdidos tanto de vista como de nome”. O que, afinal de contas, é a fama imortal? Uma coisa oca, vazia. A que, então, devemos aspirar? A isso e somente isso: pensamento justo, atos generosos, à língua que não levante falso testemunho, a um temperamento que tome cada evento como algo predestinado, esperado e a emanar da Única fonte e origem.

34.  Submeta-se a Cloto de boa vontade e a deixe tecer seu fio do material que ela quiser.

35.  Todos somos criaturas de um dia; tanto os que se lembram quanto os que são lembrados.

36.  Veja como tudo está continuamente nascendo da mudança; ensine a si mesmo que a maior felicidade da Natureza é mudar as coisas que são e formar novas a partir delas. Qualquer coisa é, em algum sentido, a semente do que irá dela emergir. Nada é menos digno de um filósofo do que imaginar que semente é apenas aquilo que se planta na terra ou no útero.

37.  Logo você estará morto; porém mesmo agora você não é sério nem está acima da inquietação; nem despreocupado com danos exteriores; nem caridoso a todos os homens ou persuadido de que agir justamente é a única sabedoria.

38.  Observe atentamente o que guia as ações dos sábios e o que evitam ou buscam.

39.  Para você, o mal não vem da mente do próximo; nem de nenhuma das fases e mudanças de seu corpo. Então de onde? Daquela parte de ti que atua como definidora do que é mal. Recuse sua definição e tudo fica bem. Mesmo que o corpo, tão próximo dele, corte-se ou queime, apodreça ou gangrene, mantenha silenciada a voz dessa definidora; não a deixe dizer que nada é bom ou mal caso isso aconteça, indistintamente, a homens bons e maus, porque nada que acontece imparcialmente aos homens, observando eles ou não as regras da Natureza, pode atrapalhá-los ou ajudá-los.

40.  Sempre pense no universo como um organismo vivo que possui uma única substância e alma; observe como todas as coisas estão submetidas à perceptividade desse todo, todas movidas por seu impulso singular e tendo sua importância para a causa de todo evento que acontece. Perceba a concatenação dos eventos, a complexidade da teia.

41.  Epicteto te chama de: “Uma pobre alma encarregada de um cadáver”.

42.  Estar em processo de mudança não é ruim, assim como não há nada de bom em ser produto de uma mudança.

43.  O tempo é um rio, o constante fluir de coisas criadas. Uma coisa mal aparece e some, já outra a passa, somente para ser substituída por sua vez.

44.  Tudo que acontece é tão normal e esperado quanto a rosa primaveril e a fruta no verão; isso é verdade para a doença, a morte, a calúnia, a intriga e todas as outras coisas que deliciam ou incomodam os tolos.

45.  O que segue está sempre conectado ao precedente; não é uma procissão de eventos isolados, apenas obedecendo às leis da sequência, mas uma continuidade racional. Além disso, assim como as coisas que já existem são todas coordenadas harmoniosamente, as coisas que estão vindo a existir exibem o mesmo prodígio de concatenação, ao invés de simplesmente sucederem-se.

46.  Lembre-se sempre do que disse Heráclito: “Morte da terra, nascimento da água; morte da água, nascimento do ar; do ar, fogo; e recomeça. ” Lembra também do seu “viajante esquecido do destino de seu trajeto”, seu dito “homens sempre em desacordo com seus companheiros mais próximos” (a razão controladora do universo), e seu “embora eles encontrem-no todo dia ainda o consideram estranho”. E “não devemos agir ou falar como homens adormecidos (pois, realmente, homens dormindo se imaginam agindo e falando), nem como crianças sob as palavras de seus pais”; ou seja, seguindo cegamente máximas tradicionais.

47.  Se um deus lhe dissesse, “Amanhã, ou no máximo no dia seguinte, você estará morto”; você não iria, a não ser que fosse o mais abjeto dos homens, se preocupar se seria no dia mais distante ou amanhã – pois qual a diferença? Da mesma maneira, não procure saber se acontecerá anos e anos depois ou amanhã.

48.  Sempre lembre-se de todos os médicos, agora mortos, que costumavam franzir o cenho ante o sofrimento de seus pacientes; de todos os astrólogos que, tão solenemente, predisseram a desgraça de seus clientes; de todos os filósofos que tanto discorreram sobre a morte ou a imortalidade; dos grandes comandantes que tombaram milhares; dos déspotas que brandiram poderes de vida e morte com terrível arrogância, como se eles mesmos fossem deuses imortais; de todas as cidades que pereceram completamente, Hélice, Pompéia, Herculano e um sem número de outras mais. Depois disso, lembre-se, um por um, de seus parentes; como um enterrou o outro, somente para ele mesmo cair e ser enterrado por um terceiro, tudo em tão pouco tempo. Veja como é transitiva e trivial toda vida mortal; ontem uma gota de sêmen, amanhã um punhado cinzas. Então gaste seus curtos momentos na terra como a Natureza deseja e depois vá de boa vontade a seu descanso, como uma azeitona que cai em sua estação, abençoando a terra que a ergueu e grata pela árvore que a deu vida.

49.  Seja como o promontório contra o qual quebram as ondas uma e outra vez: ele fica firme, até que o aguaceiro a seu redor capitule e volte à calmaria. “Como sou azarado por isso ter acontecido comigo! ” De forma alguma; é melhor que diga “Como sou sortudo por isso ter acabado sem amarguras; inabalado pelo presente e sem medo do futuro”. Poderia ter acontecido a qualquer um, todavia nem todos sairiam ilesos. Então por que colocar alguém em problemas ao invés de outro? Pode um homem chamar qualquer coisa de problema, se não é uma contravenção de sua natureza? E pode ser uma contravenção de sua natureza se não é contra a vontade dessa natureza? Você deve aprender a reconhecer essa vontade. Essa coisa que lhe sobreveio o impede de ser justo, magnânimo, moderado, judicioso, discreto, verdadeiro, respeitador, independente e tudo o mais pelo que a natureza de um homem vem a ser completa? Então aqui está uma regra para lembrar futuramente, quando algo tentar fazê-lo sentir-se mal: não “Isso é um problema”, mas “É boa fortuna lidar com isso valorosamente. ”

50.  Filosofia à parte, uma ajuda efetiva a desprezar a morte é pensar naqueles que orgulhosamente se agarram às suas vidas. Qual vantagem têm eles sobre os que morreram jovens? Em cada caso, em algum lugar em algum momento, a terra agora cobre a todos; Cadiciano, Fábio, Juliano, Lépido, e o resto, que acompanharam tantos até suas sepulturas somente para, finalmente, serem vistos nas suas. No fim, foi curto o adiamento que aproveitaram; arrastado em tais condições, com tais subordinados e com corpos tão enfraquecidos. Então não dê valor a isso; olhe o abismo anterior a isso e o infinito por vir. Assim, o que há de melhor em Nestor com todos os seus anos do que em um bebê de três dias?

51.  Sempre escolha o caminho mais curto: o da natureza, tendo a perfeição como objetivo de cada palavra e cada ato. Tal foco lhe fará livre da ansiedade, do conflito e de todo comprometimento e artifício.


 Meditações - Livro V

Meditações - Livro V

 Meditações, livro III.

Meditações, livro III.