Como navegar o mundo líquido de Zygmunt Bauman

Como navegar o mundo líquido de Zygmunt Bauman

“Se quisermos tornar verdadeiramente familiares coisas que parecem familiares, é preciso antes de mais nada fazê-las estranhas.” – Zygmunt Bauman

Seu feed de notícias tem mais coisas do que você gostaria e poderia ler, diariamente. Seu Whatsapp apita o tempo inteiro, enquanto você procura um relacionamento novo no Tinder. Podemos viajar para onde quisermos e basta baixar algo como o Uber para ter um motorista particular na porta da sua casa que vai te levar ao aeroporto enquanto você faz o check-in do seu voo pelo celular. Tudo isso faz parte da realidade de algumas pessoas agora, mas é uma verdade recente e também pode não durar muito. É essa fluidez da vida moderna e esse derreter das relações sociais, de trabalho e consumo que Zygmunt Bauman estuda e tenta nos levar a algum entendimento.

"O rapto das Sabinas". Réplica por Urs Fisher feita em cera para ser derretida. 2011.

Bauman é um sociólogo polonês que se dedica já há algum tempo a estudos aprofundados da sociedade moderna, desde a política, passando pelo consumismo até a arte. No livro, editado no Brasil pela Zahar, “44 cartas do mundo líquido moderno” ele compila textos que escreveu de 2008 a 2009 para a revista La Repubblica delle Donne. Nessas cartas ele tenta apresentar temas desse mundo líquido, que nos são muito familiares, de uma forma que nos ajude a compreendê-los fora da nossa relação cotidiana. Sua transição para o estudo da pós-modernidade chama atenção em um primeiro momento pela maneira como ele evita o termo pós-modernidade, em seu lugar ele usa a ideia de uma modernidade líquida:

“O mundo que chamo de “líquido” porque, como todos os líquidos, ele jamais se imobiliza nem conserva sua forma por muito tempo. Tudo ou quase tudo em nosso mundo está sempre em mudança: as modas que seguimos e os objetos que despertam nossa atenção (uma atenção, aliás, em constante mudança de foco, que hoje se afasta das coisas e dos acontecimentos que nos atraíam ontem, que amanhã se distanciará das coisas e acontecimentos que nos instigam hoje); as coisas que sonhamos e que tememos, aquelas que desejamos e odiamos, as que nos enchem de esperanças e as que nos enchem de aflição.”

O exemplo que dei no começo é apenas a superfície do mundo visto por Bauman, as alterações ocorrem em todas as áreas e nossas ansiedades costumam surgir até mesmo da possibilidade de mudança:

“Para resumir a história: esse mundo, nosso mundo líquido moderno, sempre nos surpreende; o que hoje parece correto e apropriado amanhã pode muito bem se tornar fútil, fantasioso ou lamentavelmente equivocado. Suspeitamos que isso possa acontecer e pensamos que, tal como o mundo que é nosso lar, nós, seus moradores, planejadores, atores, usuários e vítimas, devemos estar sempre prontos a mudar: todos precisam ser, como diz a palavra da moda, “flexíveis”. Por isso, ansiamos por mais informações sobre o que ocorre e o que poderá ocorrer. Felizmente, dispomos hoje de algo que nossos pais nunca puderam imaginar: a internet e a web mundial, as “autoestradas de informação” que nos conectam de imediato, “em tempo real”, a todo e qualquer canto remoto do planeta, e tudo isso dentro de pequenos celulares ou iPods que carregamos conosco no bolso, dia e noite, para onde quer que nos desloquemos.

A persistência da memória. Salvador Dali.

Felizmente? Bem, talvez nem tanto, pois o pesadelo da informação insuficiente que fez nossos pais sofrerem foi substituído pelo pesadelo ainda mais terrível da enxurrada de informações que ameaça nos afogar, nos impede de nadar ou mergulhar (coisas diferentes de flutuar ou surfar). Como filtrar as notícias que importam no meio de tanto lixo inútil e irrelevante? Como captar as mensagens significativas entre o alarido sem nexo? Na balbúrdia de opiniões e sugestões contraditórias, parece que nos falta uma máquina de debulhar para separar o joio do trigo na montanha de mentiras, ilusões, refugo e lixo.”

Para compreender, ou ao menos ter melhores ferramentas para navegar nesse mundo líquido, Bauman busca ajuda na obra de Walter Benjamin para propor duas formas narrativas. Uma delas é a narrativa de ações bizarras e proezas, aquelas que são fabulosas e pouco têm a ver com o ouvinte, a outra é a narrativa de acontecimentos próximos, aquelas histórias do cotidiano que parecem comuns, familiares. Para Bauman, mesmo as histórias mais comuns e simples são familiares apenas aparentemente:

“Eu disse aparentemente familiares porque também é ilusória a sensação de conhecermos esses acontecimentos muito bem e de confiarmos que nada de novo há a aprender com eles ou sobre eles – consequência de serem esses eventos próximos demais dos nossos olhos para podermos enxergá-los com nitidez. Nada escapa tanto e tão obstinadamente a nossa atenção quanto “as coisas que estão à mão”, o que está “sempre aí” e “não muda nunca”. É como se elas “se escondessem sob a claridade” – sob a luz enganosa e ilusória da familiaridade! Sua “normalidade” é uma espécie de cortina que impede qualquer inspeção."

Tendo em mente essas narrativas é preciso aplicá-las sobre o objeto de estudo:

Zygmunt Bauman. Foto por Carlos Rosillo.

Zygmunt Bauman. Foto por Carlos Rosillo.

"Para tornar essas coisas objeto de interesse e de exame detalhado, é preciso, em primeiro lugar, recortá-las e separá-las do ciclo vicioso da rotina cotidiana que, apesar de confortadora, nos embota os sentidos. É preciso, em primeiro lugar, pô-las à parte e mantê-las a distância, antes que possamos conceber examiná-las de modo correto: quer dizer, sua alegada “normalidade”, um blefe, deve ser desde logo denunciada. Só depois poderemos desnudar e explorar os mistérios abundantes e profundos que elas escondem, aqueles que nos parecem estranhos e intrigantes quando começamos a pensar neles.”

As cartas que Bauman escreveu são meios de enxergar mesmo estando dentro da liquidez:

“Narrativas baseadas em vidas comuns e costumeiras como forma de revelar e expor o que elas têm de extraordinário e que nos passaria despercebido. Se quisermos tornar verdadeiramente familiares coisas que parecem familiares, é preciso antes de mais nada fazê-las estranhas.”

Ao definir o objetivo de suas cartas ele nos diz qual pode ser o objetivo de qualquer empreitada que busque nos ajudar a viver melhor, mesmo que para isso o esforço seja grande para separar o sinal do ruído. “44 cartas do mundo líquido moderno” é um daqueles raros livros onde a clareza não impede que o autor explore temas complexos.

Outra leitura recomendada e que já foi apresentada aqui no site é a do estudo de Anne-Marie Willis que aborda a forma como mudamos o mundo e somos mudados por ele através das coisas que criamos.


Referência: BAUMAN, Zygmunt: 44 cartas do mundo líquido moderno. Edição eletrônica de 2011. Rio de Janeiro: Editora Zahar. ISBN: 978-85-378-0770-5. Tradução: Vera Pereira.