Solidão, pacifismo e sentimento religioso. O mundo de Albert Einstein

Solidão, pacifismo e sentimento religioso. O mundo de Albert Einstein

“O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência.” - Albert Einstein

Albert Einstein tocando violino. E. O. Hoppé, 1921.

Conhecido universalmente por suas descobertas, Albert Einstein é hoje um ícone tanto da cultura popular quanto do meio científico. Ciente de que sua posição singular como físico também lhe garantia influência além Física, Einstein aproveitou para defender algumas de suas preocupações políticas e aspirações humanistas. Em suas cartas e ensaios surge uma pessoa preocupada com o futuro da humanidade e em conflito com problemas que também o afetaram pessoalmente. O militarismo, o nacionalismo fanático e o antissemitismo sempre voltam ao foco de suas críticas.

Publicado originalmente em 1931, seu ensaio “Como vejo o mundo” mostra como, ainda antes da ascensão do regime nazista e de sua desconfortável relação com a corrida nuclear, ele já tinha uma posição política e humanista bem formada. Consciente de suas limitações e sóbrio apesar do que o mundo via nele, Einstein escreve:

“Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nessa terra, mas às vezes o pressinto.”
“Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer.”

Em um trecho onde ele exalta a empatia não só como um sentido para sua vida, mas também como algo a ser perseguido, Einstein demonstra uma preocupação em lutar contra a brutalidade do mundo que o cerca, assim como ainda acontece com tantos de nós:

"Sunday". Edward Hopper, 1926.

“Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente a perseguir na arte e na ciência este ideal eternamente inacessível, a vida perde todo sentido para mim."
"Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário."
"Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância.”

Ao mesmo tempo em que seus esforços por se integrar com as outras pessoas lhe cobravam um esforço tremendo, ele também não pôde deixar de notar que a incompreensão e a dificuldade de integração era mútua. Para ele, essa reticência em relação à forma como lhe viam estende-se também para suas ideias, ainda menos compreendidas em seu tempo do que hoje:

“Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas ideias que descobri. Mas a elas consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto.”

Quinta conferência internacional de Solvay sobre prótons e elétrons. Outubro de 1927.

Pacifista militante, o militarismo é o único assunto que o faz ir além em sua crítica, chegando mesmo a demonstrar desprezo pelas forças armadas. Essa e outras de suas reivindicações mais progressistas o garantiram a alcunha de militante de esquerda segundo o governo norte americano, que veio a tomar sérias precauções para mantê-lo afastado do Projeto Manhattan:

“A pior das instituições gregárias se intitula exército.
[…]
Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe.”

E embora ressentido com o abismo entre ele e os outros, desacreditado em alguns dos pilares da sociedade, ele ainda encontra otimismo para dizer:

“No entanto, creio profundamente na humanidade.
[…]
Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.”

A religião organizada e o teísmo cego não passam incólumes sob seu olhar crítico, porém honesto. Se aproxima das pessoas comuns em seus medos e incertezas ao admitir um sentimento religioso diante do que há de inescrutável na natureza, entretanto, demarca seu distanciamento quando esse sentimento leva a concepções incompatíveis com suas ideias:

“O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência.

Albert Einstein. 1921.

[...]
Os homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações dessas ordem suprema e da beleza inalterável. Confessam-se limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta perfeição tomaram o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, sou profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espírito, para mim ele é um fraco, medroso e estupidamente egoísta.”

Expondo o que pode ser visto como a força motriz de seu ímpeto intelectual, ele expõe finalmente como vê a vida e os mistérios aos quais seus estudos se ligavam tão intimamente:

“Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-la fique sempre desproporcionado, vejo a razão se manifestar na vida.”

Curto e riquíssimo, esse ensaio é importante para nos mostrar como as coisas andam devagar, já que ainda hoje ser pacifista, defender a situação dos menos privilegiados e criticar grupos religiosos são linhas de pensamento tidas como progressistas. No entanto, há de se aprender com Einstein que qualquer possibilidade, sejam elas grandes como as dele ou banais como as do cotidiano, devem ser usadas para fazer passarem aquelas ideias de que mais precisamos.

Einstein não foi o único a apontar a brutalidade de seu tempo, Francisco de Goya também presenciou como a odiosa instituição do exército é um dos maiores impasses da civilização. No âmbito cultural vale a pena ver o posicionamento de James Joyce acerca da origem do homem moderno.