Não será perdoada: a arte em um mundo de consumidores

Não será perdoada: a arte em um mundo de consumidores

Retrato de Rodolfo Jozetti. Cândido Portinari, 1962.

O Guggenheim retirou três obras da exposição Art and China after 1989: Theatre of the World após repetidos protestos de defensores dos direitos dos animais e ameaças de violência contra a instituição. Duas obras continham vídeos de animais e uma outra era uma escultura com insetos e répteis vivos. No Brasil a exposição Queermuseu foi suspensa pelo Santander Cultural após protestos de grupos conservadores, entre as obras haviam peças de Portinari, Lygia Clark e Adriana Varejão. O gigante Guggenheim e o insignificante Santander Cultural compartilharam o peso do clamor enfurecido, porém entre os dois há diferenças essenciais.

Inicialmente o Santander tentou justificar a exposição Queermuseu, porém, dois dias depois de uma declaração defendendo as obras o banco voltou atrás e cancelou a exposição por medo de um boicote e para proteger sua imagem dizendo que:

“...algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. ”

Por outro lado, o Guggenheim, mantido pela Fundação Guggenheim cuja missão declarada é “coletar, preservar e interpretar a arte moderna e contemporânea e explorar ideias de diversas culturas através de curadoria, iniciativas e colaborações culturais dinâmicas”, também resistiu às ondas iniciais de protestos. A primeira declaração emitida pelo museu seguiu mais ou menos em linha com o que o Santander Cultural tentou dizer antes de abandonar sua exposição:

Dogs That Cannot Touch Each Other. Sun Yuan e Peng Yu, 2003.

“Reconhecemos que as obras podem ser perturbadoras. Os curadores da exibição esperam que os visitantes considerem os motivos pelos quais os artistas as produziram e o que elas podem dizer sobre as condições sociais da globalização e a natureza complexa do mundo que compartilhamos. ”

Todavia, se em seguida o Santander entrou em contenção de danos e tentou se distanciar da arte que primeiramente havia patrocinado, o Guggenheim, quando foi obrigado a desistir das obras que pretendia expor não abandonou seus valores e a justificativa dada marca o posicionamento firme em defesa de sua visão inicial, ainda que tenha cedido às ameaças:

“Por se preocupar com a segurança de seus funcionários, visitantes e artistas participantes, a Fundação Museu Solomon R. Guggenheim decidiu não expor as obras de arte.
[...]
Embora essas obras tenham sido exibidas em museus na Ásia, Europa e nos Estados Unidos, o Guggenheim lamenta que repetidas e explícitas ameaças de violência tenham feito necessária essa decisão. Como uma instituição artística empenhada em apresentar uma multiplicidade de vozes, estamos consternados por termos que reter obras de arte. A liberdade de expressão sempre foi e sempre será um valor primordial do Guggenheim.”

Enquanto o Guggenheim cedeu, o Santander Cultural se acovardou, pois abandonou intelectual e ideologicamente os artistas que supostamente promoveu. A principal diferença é que a missão do Guggenheim é voltada para a difusão, a promoção de artistas e o enriquecimento cultural, mesmo com todas as falhas e limitações de uma instituição do tipo num ambiente de mercado.

O Eu e o Tu. Lygia Clark, 1968.

O Eu e o Tu. Lygia Clark, 1968.

Por outro lado, é preciso sempre compreender que por mais que grandes bancos e empresas apoiem causas sociais, mantenham fundos de financiamento cultural e instituições artísticas, o fazem sempre dentro de uma lógica do lucro, criando certa estrutura que sustenta uma narrativa voltada a se beneficiar de incentivos fiscais, fortalecer a marca e manter fluindo o dinheiro para dentro dos bolsos escolhidos, entretanto, ao primeiro sinal de desgaste tudo isso será abandonado para resguardar a lucratividade. Entregar a arte nas mãos desses grupos é dar aos poucos beneficiados uma das principais ferramentas de subversão da própria conjuntura que os permite se apropriar de tanta riqueza e poder.

Empresas mudam o planeta sim, mas essa capacidade de transformação deve ser analisada com ressalvas. Mudanças tecnológicas e nas relações de produção se espalham rapidamente mostrando toda a força que o empresariado tem, entretanto, as grandes mudanças que se impõem a nós acontecem dentro de uma certa estrutura quase invisível, mas implacável e é essa estrutura subjacente que a arte pode subverter, uma mudança real de lógica que será enfrentada com toda força pelos próprios grupos que posam um bom mocismo raso e frágil para agradar seus clientes, sempre para agradar os que lhes bancam.

A cooptação não é apenas da arte, visto que a ciência também traz em si essa busca que tenta se manter intocada e obediente a seus próprios valores, porém ambas seguem, arte e ciência, corrompidas pela estrutura que podem trazer abaixo. É essa corrupção vista numa dependência quase forçada que limita as possibilidades transformadoras dessas áreas.

Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva. Fernando Baril, 1996.

Os limites da arte são repetidamente questionados e o uso de animais deve levantar bandeiras contra e a favor, pois a arte que agrada a todos não é digna do nome. Casos como o do Jornal Charlie Hebdo, filmes como Azul é a cor mais quente e o Último tango em paris e livros como o Ulysses e Lolita trazem em sua polarização um aprendizado e uma possibilidade de crescermos a partir dessas obras, ainda que questionáveis, ainda que precisem ser condenadas. Porém, não esqueçamos, a condenação não é sinônimo de censura.

A resistência do Guggenheim é o que faltou ao Santander. É necessária a resistência, ainda que ceda diante da violência. A arte em seus extremos tem de borrar a fronteira entre o sagrado e o profano e, em nossa sociedade onde o sagrado é o dinheiro e nossa identidade é a do consumo, essas demandas de adequação na forma de um repúdio contra aquilo que incomoda são reflexos de consumidores acostumados a castigar empresas publicamente sabendo que ameaçar o lucro é a única ameaça real contra esses gigantes.

Ataque Automático. Milton Kurtz, 1985.

Esse adestramento como consumidores, entretanto, nos encarcera em uma bolha onde reinamos moles e estupidificados, fechados contra o incômodo e negando qualquer experiência que não gire em torno de nossos umbigos viciados pelo entretenimento fácil e constante. A arte tem de reintroduzir nesse mundo de esterilidade vulgar aquela movimentação incontida e perturbadora que fica relegada à imaginação, a violência da festa e do ritual, aquele impulso onde o mais profano e o mais grotesco se unem ao mais sagrado e ao mais puro. É preciso que a arte seja uma esfinge, indomada, múltipla, é preciso que nos apresente nossas máscaras mais feias e os medos mais recalcados, do contrário, resta apenas consumir e distorcer o mundo à nossa mentalidade e aos nossos moralismos.

Nessa hora em que se arrebanham as massas em torno de bandeiras cabe aos artistas também fecharem cerco contra o inimigo, pois é inimigo aquele que nos cala, é inimigo aquele que nos ameaça, é inimigo aquele que, nosso semelhante, nos condena. Ameaçados pela busca que tantas vezes é um sacrifício de nós mesmos em prol desses que nos apontam os dedos para não enxergarem os fios que controlam seus pudores e sua indignação. O artista em tempos que a arte fere e ofende é também a própria arte, assim como para muitos ignorantes o mensageiro é responsável pela mensagem. Sejamos então um mensageiro em rebelião e os que não quiserem ouvir que furem seus olhos e tapem seus ouvidos pois se a gritaria cala instituições já aprendemos mais de uma vez que nem o sangue cala os que têm a missão de impor ao mundo a sua voz e nesse choque vencerão os aguerridos.