Uma pergunta desastrada e a poderosa resposta de William Faulkner

"Porém assim como ler, qualquer experiência que o escritor tenha vai influenciar o que ele faz. E não apenas o que ele lê, mas a música que ele ouviu, as imagens que viu..." - William Faulkner

Faulkner na Faculdade de Virgínia. Foto por Ralph Thompson.

Aos 60 anos de idade e já com certa noção da força de sua obra e do que viria a ser seu legado, William Faulkner aceitou ser o primeiro “Escritor residente” da University of Virginia. É certo que ele escreveu quando esteve por lá, entretanto também teve muito o que falar. Para suas entrevistas e palestras ele aceitou até mesmo reler algumas de suas obras, algo incomum já que para ele “os livros que um autor não precisa revisitar são os escritos por ele mesmo”.

As duas estadas de 1957 e 1958 geraram muito conteúdo, tanto por parte dos acadêmicos quando por contribuição do escritor. No site dedicado a esse período é possível ouvir Faulkner falando sobre arte, literatura e até mesmo a sua reserva em relação ao cinema.

Em uma dessas palestras Faulkner lê trechos de seu livro “O som e a fúria”, que ele diz considerar o seu favorito. Claro que uma afirmação dessas não passaria em branco e logo um dos participantes perguntou a ele quais os motivos que o faziam preferir esse livro, ao que ele respondeu:

"Participante: Qual o motivo desse livro que você leu ser o seu [romance] favorito?
William Faulkner: Acho que nenhum escritor consegue ficar muito satisfeito com o livro. Por isso ele escreve mais um. Ele está tentando colocar no papel algo que vai ser um pouco melhor do que os outros já fizeram e esse é o meu favorito porque foi o que eu mais me esforcei, não para conseguir o que eu esperava, mas eu me angustiei - e me enfureci com esse mais do que com qualquer outro – para tentar fazer algo com ele que me era impossível. É o mesmo sentimento, talvez, que o pai pode ter em relação ao filho incorrigível ou anormal."

William Faulkner. Foto por Dean Cadle

Ecoando o posicionamento da Anne Marie-Willis acerca das maneiras como o mundo em que vivemos pode nos condicionar, William Faulkner aponta a importância que até mesmo as atividades mais indiretas têm para o artista:

"Participante: Seus livros têm sido comparados com as Fugas de Bach. Você planeja objetivamente que eles terão esse […] efeito ou é uma coisa que acontece naturalmente?
William Faulkner: Bom, não é exatamente algo planejado porque eu provavelmente não sou capaz disso, mas acho que há muito trabalho envolvido em qualquer livro para chamar de um processo natural. Porém assim como ler, qualquer experiência que o escritor tenha vai influenciar o que ele faz. E não apenas o que ele lê, mas a música que ele ouviu, as imagens que viu, e não é que eu tenha ouvido Bach para me livrar de um bloqueio no trabalho, entretanto provavelmente o que ouvi de Bach estava lá no momento em que eu precisei de um contraponto."

Para Jorge Luís Borges o acidente que colocou em risco sua capacidade de fazer literatura também estaria lhe negando o sentido de sua vida caso seus temores se concretizassem. Essa paixão acompanhada de um profundo senso de significado aparece também nas palavras de William Faulkner, em resposta a um participante que se atrapalhou com a pergunta:

"Participante: Você pensa – o que estou tentando... [risos da plateia] […]. Você pensa antes de escrever ou você escreve...[risos da plateia]
William Faulkner: Estou feliz que você tenha parado por aí. Obrigado. [risos da plateia] Acho que eu sei o que você quer dizer quando fala de estímulo. É... você está no mundo. Você vê o homem. Ele é débil e frágil, uma teia de carne e ossos e quase todo água. Ele é arremessado do nada em um universo decrépito conectado por eletricidade. [risos da plateia] Os problemas que ele enfrenta sempre são um pouco maiores do que ele, e ainda assim, incrivelmente, ele compete com eles, não individualmente mas, mas enquanto raça. Ele resiste. Ele viveu além dos dinossauros. Além das bombas atômicas. Viverá além do comunismo. Suponho que seja apenas porque alguma parte nele o impede de saber que é açoitado. Por mais débil que seja ele vive segundo seus códigos de comportamento. Ele mostra compaixão quando não há razão para isso. É mais corajoso do que deveria. Mais honesto. O escritor está tão interessado, ele vê isso como tão incrível e, pode-se dizer, até mesmo bonito. De qualquer maneira, isso é tão emocionante para ele que ele quer colocar isso no papel ou na música ou em uma tela, ele simplesmente quer isolar uma dessas instâncias na qual o homem – débil e tolo - agiu muito além do seu nível de alguma maneira divertida, dramática ou trágica. De maneira valorosa. Esse, suponho, é o incentivo para escrever, além de ser divertido. Eu meio que acredito que essa é a razão das pessoas serem artistas. É a ocupação mais satisfatória que o homem já descobriu, porque você nunca consegue ser tão bom quanto quer, então há sempre um motivo para acordar na manhã seguinte. Você nunca fica entediado. Nunca se satisfaz."

Complemente esse texto lendo o que a Lygia Fagundes Telles diz sobre o papel do escritor com tanta profundidade quanto Borges e Faulkner.