O dia em que Edgar Allan Poe ensinou como escrever “O corvo”

O dia em que Edgar Allan Poe ensinou como escrever “O corvo”

“Digo-me, em primeiro lugar: "Dentre os inúmeros efeitos, ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual escolher?" - Edgar Allan Poe

Quando Jorge Luís Borges diz que sua vida estaria acabada caso seu acidente tivesse lhe deixado sequelas que o afastassem da literatura, há ali um sentimento de devoção e apego à arte que ressoa em muitos dos grandes artistas. Essa visão pode parecer romântica para outros, entre esses está o escritor Edgar Allan Poe. Em 1946 foi publicado na Graham's Magazine seu ensaio “Filosofia da composição” onde ele não só questiona essa “inspiração” como também conta como seu método de produção literária pôde acontecia de forma calculada.

“Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem ter por entendido que compõem por meio de urna espécie de sutil frenesi, de intuição estática; e positivamente estremeceriam ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante”

Ao falar de seu modo de escrever ele é curto e grosso: “o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a precisão e a seqüência rígida de um problema matemático.” Parece frígido e pouco artístico, mas ele usa seu poema mais famoso - O Corvo - para explicar essas posições algo incomuns. Ao longo do ensaio ele elenca os passos que segue em sua composição. Um dos cuidados é em relação à extensão do poema:

“...a extensão de um poema deve ser calculada, para conservar relação matemática com seu mérito; em outras palavras, com a emoção ou elevação; ou ainda em outros termos, com o grau de verdadeiro efeito poético que ele é capaz de produzir. Pois é claro que a brevidade deve estar na razão direta da intensidade do efeito pretendido, e isto com uma condição, a de que certo grau de duração é exigido, absolutamente para a produção de qualquer efeito.”

Ele queria um poema que fosse apreciado por todos, por isso acreditava que a intensidade do poema deveria estar ao alcance do popular mas sem ficar muito abaixo do que é esperado pelos críticos. Essa decisão impactou também a extensão do poema que tinha como meta os cem versos, a versão final tem 108. Entretanto, defende que o meio de produzir a intensidade desejada passa invariavelmente pelo Belo:

“Ora, designo a Beleza como a província do poema, simplesmente porque é evidente regra de arte que os efeitos deveriam jorrar de causas diretas, que os objetivos deveriam ser alcançados pelos meios melhor adaptados para atingi-los. E ninguém houve ainda bastante tolo, para negar que a elevação especial a que aludi, é mais prontamente atingida num poema.”

O Belo está presente no poema através da figura da amada que morreu e daí segue-se o tom de uma extremada melancolia. Poe vê a melancolia como “o mais legitimo de todos os tons poéticos”. E por quê um corvo? Ao decidir pelo termo “nunca mais” como um fio condutor no poema ele precisava criar uma maneira de inserir sua repetição. Poderia ser um papagaio, porém o corvo combinava melhor com o tom de melancolia e atendia seu interesse pela repetição por sabia que tinha de ser um animal capaz de imitar a fala, já que uma pessoa a repetir apenas isto soaria absurdo e difícil de encaixar no poema.

"Poe retornando à Boston".

"Poe retornando à Boston".

Nessa obra poética, assim como em seus trabalhos em prosa há um elemento de estranheza que gera o clima de melancolia, medo e suspense. Embora tudo esteja no limiar entre fantasia e realidade improvável, nesse ensaio ele esclarece que o seu intuito é o de nunca ultrapassar aquilo que é realmente possível. No poema ele imagina o estudante dialogando com um corvo que só sabe repetir “nunca mais”, todavia essa disposição do estudante em ouvir as respostas que ele já prevê e fazer perguntas que se encaixem vêm, de acordo com Poe, da “sede por se torturar” e “em parte por superstição”. Ainda assim, ele entende que essa abordagem calculada e distanciada pode comprometer a qualidade artística da obra:

“Mas nos assuntos assim manejados, por mais agudamente que o sejam, por mais vivas riquezas de incidentes que possuam, há sempre certa dureza ou nudez que repele o olhar artístico. Duas coisas são invariavelmente requeridas: primeiramente, certa soma de complexidade, ou, mais propriamente, de adaptação; e, em segundo lugar, certa soma de sugestividade, certa subcorrente embora indefinida de sentido. Esta última, afinal, é que dá a uma obra de arte tanto daquela riqueza (para tirar da conversação cotidiana um termo eficaz) que gostamos demais de confundir com o ideal.”

Para criar essa sugestividade ele usa a primeira expressão metafórica “o peito” propondo uma imagem do corvo como emblemática, mas que não se realiza enquanto não alcançamos o fim do poema onde o corvo se torna a representação clara da“Recordação dolorida e infindável”.

O Corvo ilustrado por Gustav Doré.

"Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
o Corvo disse: "Nunca mais!"
E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio, sobre o alvo busto de Minerva, inerte sempre em meus umbrais. No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma e, presa à sombra,

Não há de erguer-se, ai! nunca mais!"

De todas as recomendações que ele pressupõe inerentes ao seu modo de escrever, talvez a mais importante é também a que ele coloca em primeiro lugar ao escrever seu ensaio:

“Eu prefiro começar com a consideração de um efeito. Mantendo sempre a originalidade em vista, pois é falso a si mesmo quem se arrisca a dispensar uma fonte de interesse tão evidente e tão facilmente alcançável, digo-me, em primeiro lugar: "Dentre os inúmeros efeitos, ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual escolher?"

Antiquado? Desencantado? Talvez, porém é inegável a importância dele para a literatura policial e de terror. Com essa abertura muito honesta do seu processo criativo, Edgar Allan Poe também põe à mostra o esforço diário e quase braçal por trás daqueles trabalhos criativos que apreciamos. E, afinal de contas, há algum problema em escrever assim se o resultado é um poema como “O corvo”? Tantos anos se passaram e ainda há quem erre em tudo o que ele tenta ensinar em “Filosofia da composição”.

Outra dica importante pode ser ler entrevistas como uma forma menos complicada de estudo e captação de informações. Se quiser esquecer um pouco essa visão calculada do Poe recomendo ler um pouco do que a Lygia Fagundes Telles considera como a missão da escrita.


Referência: POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios. (Trad. Oscar Mendes e Milton Amado). São Paulo: Globo, 1999. 3. ed. revista.