Por que expulsar os poetas da cidade? A arte na República de Platão

Por que expulsar os poetas da cidade? A arte na República de Platão

“... seríamos obrigados a dizer, segundo creio, que a respeito dos homens tanto os poetas como os oradores cometem os mais graves erros, quando afirmam terem sido felizes muitos homens injustos, e infelizes muitos justos” - Platão

 

Platão

A "República” de Platão é uma daquelas obras basilares do pensamento ocidental que possui algumas partes imortalizadas no imaginário popular. Nesse livro, escrito por volta de 380 A.C. seu trecho mais conhecido é, sem dúvida, a Alegoria da caverna, porém há ainda uma outra parte dos diálogos socráticos menos conhecida porém bastante popular: A expulsão dos poetas da pólis.

O livro é narrado por Sócrates em primeira pessoa. Platão foi seu aluno, mas não aparece em nenhuma momento da narrativa, a obra é subdivida em 12 livros que mostram diversos diálogos socráticos que giram em torno da República e debatem temas necessários à formação de uma boa cidade.

Quando se trata da expulsão dos poetas, basicamente o que está em discussão é: qual o nível de autonomia deve ser dado à arte e ao discurso dos poetas? A arte deve ser livre de restrições políticas, morais e éticas?

No primeiro livro da República, Sócrates ouve outras pessoas definirem o que é a Justiça, porém a rebate todas as definições propostas e termina por argumentar que é vantajoso ser justo e desvantajoso ser injusto. Apesar disso, não chega a uma definição clara da justiça, como ele mesmo admite para Trasímaco.

Não satisfeitos com os argumentos de Sócrates, no segundo livro os outros companheiros insistem na argumentação de Trasímaco defendendo que há casos onde ser justo pode ser um fardo e ser injusto pode garantir benefícios. Entretanto, para Sócrates isso é algo que eles propõem porque consideram a justiça na cidade como um todo e não individualmente. Além do mais, a cidade que ele pensa depende de uma classe de guardiões que deve zelar pelas leis e pela justiça. Então Sócrates envereda discutindo a importância da educação para esses soldados.

"Sócrates e alunos". Fundação Achenbach para Artes Visuais, São Francisco, 1930.

O debate sobre a educação dos guardiões chega a discutir o conteúdo e a forma pela qual as histórias serão passadas a eles. Como sempre, muito focado nos conceitos de verdade e mentira, justiça e injustiça:

“Porque seríamos obrigados a dizer, segundo creio, que a respeito dos homens tanto os poetas como os oradores cometem os mais graves erros, quando afirmam terem sido felizes muitos homens injustos, e infelizes muitos justos; que a injustiça é proveitosa, quando não descoberta, e que a justiça, por sua vez, implica dano próprio e vantagem alheia. Teríamos de proibir-lhes tudo isso e recomendar-lhes que cantem e digam justamente o contrário, não te parece?”

Sócrates volta ao conceito de justiça, ou melhor, à sua ausência de definição satisfatória até esse momento do debate:

Sócrates. Por E. Wallis.

“Se devemos ou não falar dessa maneira a respeito dos homens, é o que só decidiremos quando descobrirmos o que seja a justiça e como pode ela ser naturalmente útil a quem a possui, pouco importando a conta em que é tida essa pessoa.”

Sócrates diz a Adimanto que os poetas e os mitólogos contam sempre relatos de fatos presentes, passados ou futuros. E essas informações podem ser transmitidas por simples exposição ou através de imitação. Esses são estilos e ele quer decidir qual a forma mais apropriada para o uso na República:

“Considera também, Adimanto, se nossos guardas devem ou não devem ser imitadores. Não faz parte do que foi dito antes que cada um só pode sair-se bem em uma única profissão, não em muitas, e que se experimentar as forças em várias a um só tempo, fracassará totalmente e não se distinguirá em nenhuma?”
“Dificilmente, portanto, conseguirá alguém exercer ao mesmo tempo, com eficiência, funções importantes ou ser um bom imitador de muitas coisas, pois nem mesmo as duas imitações que tão próximas parecem uma da outra podem ser praticadas com êxito por uma só pessoa;”

Desenvolvendo a ideia de que imitar é também deixar-se influenciar, Sócrates continua:

Representação de um teatro grego

“Sou de parecer, continuei, que, quando o indivíduo equilibrado tem de reproduzir no decurso de sua exposição algum dito ou gesto de homem de bem, esforça-se por falar como se fosse essa mesma pessoa e não se envergonha de imitá-la, principalmente quando a imitação disser respeito a algum ato de firmeza e sabedoria que lhe seja atribuído; com menor disposição e mais raramente o imitará quando o vir cambaleante por efeito de doença ou do amor, ou mesmo por embriaguez ou qualquer outra infelicidade. Quando tiver de haver-se com quem não for digno dele, não se resolverá a imitar seriamente uma pessoa inferior, ou só o fará de passagem, numa ou noutra ação meritória. Sim, terá de envergonhar-se, a uma, por não ter o hábito de imitar gente dessa laia; à outra, porque lhe repugna forçar a sua natureza em moldes inferiores; despreza do fundo da alma semelhante procedimento, a não ser como brinquedo.”

Entretanto, a dita expulsão dos poetas não é necessariamente algo hostil. O fato de os poetas não terem um lugar nessa sociedade imaginada por Sócrates não significa que seriam hostilizados ou expulsos à força de lá:

“Nessas condições se viesse à nossa cidade algum indivíduo dotado da habilidade de assumir várias formas e de imitar todas as coisas, e se propusesse a fazer uma demonstração pessoal com seu poema, nós o reverenciaríamos como a um ser sagrado, admirável e divertido, mas lhe diríamos que em nossa cidade não há ninguém como ele, nem é conveniente haver; e, depois de ungir-lhe a cabeça com mirra e de adorná-lo com fitas de lã, o poríamos no rumo de qualquer outra cidade.”

Sócrates termina por deixar claro o que ele espera dos poetas e oradores da República que ele vem postulando aos poucos:

“Para nosso uso, teremos de recorrer a um poeta ou contador de histórias mais austero e menos divertido, que corresponda aos nossos desígnios, só imite o estilo moderado e se restrinja na sua exposição a copiar os modelos que desde o início estabelecemos por lei, quando nos dispusemos a educar nossos soldados.”

Platão. Estátua em mármore, cópia romana de um original grego do século 4.

É difícil dizer onde termina o Sócrates narrador e onde começa o Platão escritor, porém esse livro está acima da questão de autoria, se colocando como uma leitura essencial para qualquer empreitada intelectual. Há muito de valor histórico, porém há outro tanto de atualidade em muitos desses conceitos que, apesar da influência do tempo, ainda permeiam nossas vidas.

Outras leituras que complementam esses temas são as de Roland Barthes discutindo a questão do Autor em seu ensaio “A morte do Autor” e James Joyce estudando os efeitos da arte renascentista sobre o homem moderno, assuntos próximos das considerações de Sócrates.