O simulacro na arquitetura moderna e sua ficção, segundo Peter Eisenman

O simulacro na arquitetura moderna e sua ficção, segundo Peter Eisenman

“Pois, afinal, o que fazia da função uma fonte de imagens mais “real” do que os elementos extraídos da Antiguidade? ” – Peter Eisenman

Memorial do Holocausto, projetado por Peter EIsenman.

Talvez mais conhecido pelo Memorial do Holocausto, Peter Eisenman também é um importante teórico do desconstrutivismo. Em seu artigo O fim do clássico publicado em 1984, ele faz uma análise profunda e contundente do modernismo para pensar o que surgiria em seu lugar. Nessa análise, ele identifica três grandes ficções arquitetônicas perpetuadas pelos modernistas e esse texto é sobre a primeira delas, a ficção da representação.

Eisenman parte da arquitetura renascentista que, inspirada em modelos clássicos, os usava como base, de forma que a arquitetura da renascença derivava seu significado presente a partir das construções do passado. Por esse motivo, Eisenman defende que a primeira ficção, ainda que involuntária, vem da renascença, pois suas obras eram simulacros de obras anteriores, ou seja, ficções de uma arquitetura detentora de significado.

“A arquitetura moderna propôs-se corrigir e se libertar da ficção renascentista da representação, postulando que a arquitetura não tinha mais necessidade de representar uma outra arquitetura: ela devia apenas corporificar sua própria função. Deduzindo então que a forma segue a função, a arquitetura moderna introduziu a ideia de que uma edificação devia expressar – isto é, aparentar – sua função, ou uma espécie de ideia da função. ”

Entretanto, a pergunta crucial:

“Pois, afinal, o que fazia da função uma fonte de imagens mais “real” do que os elementos extraídos da Antiguidade? ”

Para Eisenman a tentativa de utilizar a função para transmitir a mensagem de utilidade seria a mesma ficção dos renascentistas de usarem os clássicos para darem o significado de suas obras. A arquitetura modernista seria então, e ainda, um simulacro, mesmo que de novo vocabulário, pois seu significado residia fora de si, sendo a construção apenas a representação do significado.

Unité d'Habitación, projeto de Le Corbusier.

“O funcionalismo acabou se mostrando mais uma solução estilística, desta vez baseada em um positivismo técnico-científico, em uma simulação de eficiência. Visto dessa maneira, o movimento moderno pode ser considerado uma continuação da arquitetura que o precedeu. "
"Pois, ao tentar reduzir a forma arquitetônica à sua essência, a uma realidade pura, os modernos imaginaram que estavam transformando o campo da figuração referencial em “objetividade” não referencial. Na realidade, contudo, suas formas “objetivas” jamais abandonaram a tradição clássica. Não eram mais que formas clássicas despojadas ou formas que faziam referência a um novo conjunto de pressupostos (função, tecnologia). As casas de Le Corbusier, por exemplo, que se assemelham a navios ou biplanos modernos, mostram a mesma atitude referencial com relação à representação de um edifício renascentista ou “clássico”. Os pontos de referência são diferentes, mas as consequências para o objeto são as mesmas. ”

Assim, a escolha modernista de ter na função a sua mensagem e de representá-la em sua estrutura, mantendo assim a arquitetura como representação tal qual no renascimento, faz com que, ao contrário do que esperavam os modernistas, haja um retorno dos mesmos ao lugar de onde nunca puderam sair, a história:

“O compromisso de devolver a abstração modernista à história parece resumir para nossa época o problema da representação. Sua inversão “pós-moderna” foi realizada pela distinção estabelecida por Robert Venturi entre o “pato” e o “galpão decorado”. [...] Desse ponto de vista, as despojadas “abstrações modernistas ainda são objetos referenciais: são “patos” tecnológicos em vez de tipológicos. ”

Subvertendo um dos adágios mais populares da arquitetura, Peter Eisenman não tem o menor pudor de defender que entre a forma e a função não existe uma obrigatoriedade como o modernismo nos levou a acreditar. À luz da crítica descontrutivista é interessante talvez voltar a outras áreas do conhecimento, como o movimento minimalista, e analisar o uso e os objetivos a que atrelaram as formas e os materiais.