Sobre bibliotecas, Oliver Sacks

Um pequeno ensaio que vai do amor aos livros à autobiografia de um dos grandes escritores e neurologistas, Oliver Sacks. Repleto de um sentimento de saudosismo e também de consciência da própria importância, Sacks faz nesse texto uma defesa apaixonada do livro e da biblioteca como criadouros de mentes afiadas e inquietas.

SOBRE BIBLIOTECAS

Quando eu era criança, meu cômodo favorito da casa era a biblioteca, decorada com carvalho e com suas quatro paredes cobertas de estantes com livros – e ao centro uma mesa resistente para escrever e estudar. Era aqui que meu pai mantinha sua biblioteca especial, ele um estudioso de Hebraico; aqui também ficavam todas as peças de Ibsen – meus pais se conheceram em uma sociedade sobre Ibsen, para estudantes de medicina; em uma prateleira separada, ficavam os poetas jovens da geração de meu pai, muitos deles mortos na Primeira Guerra; nas estantes inferiores para que eu pudesse alcança-los com facilidade, ficavam os livros de aventura e história que pertenciam aos meus três irmãos mais velhos. Foi aqui que eu achei o Livro da Selva; eu me identifiquei profundamente com o Mogli e usava as aventuras dele como ponto de partida para as minhas próprias fantasias.

Minha mãe deixava seus livros favoritos numa estante que ficava na sala de estar – Dickens, Trollope and Thackeray, as peças de Bernard Shaw encadernadas em verde claro, bem como uma coleção completa de Kipling encadernado em vermelho claro. Havia um conjunto de três volumes muito bonito com as obras de Shakespeare, um Milton de lombada decorada e outros livros, a maioria de poesia, que minha mãe tinha ganhado como prêmios na escola.

Os livros de medicina ficavam guardados num armário especial na dispensa dos meus pais (mas a chave ficava na porta, para que fosse fácil destrancar).

A biblioteca em carvalho era o cômodo mais quieto e mais bonito da casa, aos meus olhos, e disputava o título de meu lugar favorito com o meu laboratório. Eu me enrolava numa cadeira e ficava tão absorto no que lia que perdia a noção do tempo. Quando eu me atrasava para o almoço ou o jantar podiam me encontrar na biblioteca, completamente absorvido por algum livro. Eu aprendi a ler cedo, com três ou quatro anos, e os livros, e nossa biblioteca, estão entre as minhas primeiras lembranças.

Mas a biblioteca ideal, para mim, foi a Biblioteca Pública de Willesden, nossa biblioteca pública local. Aqui eu passei muitas das horas mais felizes dos meus anos de amadurecimento – nossa casa ficava a 5 minutos a pé da biblioteca – e foi lá que eu recebi minha verdadeira educação.

Em geral eu não gostava de escola, sentar na sala, receber instrução; a informação parecia entrar por um ouvido e sair pelo outro. Eu não conseguia ser passivo – eu precisava ser ativo, aprender sozinho, aprender o que eu queria e da forma que fosse melhor para mim. Eu não era um bom aluno, mas eu era bom em aprender e na Biblioteca de Willesden – e em todas as bibliotecas que vieram depois – vaguei pelas prateleiras e pilhas de livros, tive a liberdade de escolher o que eu desejasse, de seguir os caminhos que me fascinavam, de me tornar eu mesmo. Na biblioteca eu me senti livre – livre para admirar dezenas de milhares de livros; livre para andar e apreciar a atmosfera especial de um companheirismo silencioso com os outros leitores, todos, assim como eu, em suas próprias jornadas.

Quando fiquei mais velho, minhas leituras tenderam cada vez mais para as ciências, especialmente astronomia e química. A escola St. Paul, onde eu fui aos doze anos, tinha uma excelente biblioteca generalista, a Biblioteca Walker, que era particularmente completa em história e política – mas ela não conseguia prover todos os livros de ciência e, em especial, de química que eu agora tanto desejava. Mas com uma declaração especial de um dos diretores da escola, consegui entrada para a biblioteca do Museu de Ciência e lá eu devorei os vários volumes do Tratado sobre química teórica e inorgânica do Mellor e o ainda maior Manual de química inorgânica do Gmelin.

Quando fui para a faculdade, tive acesso à duas grandes bibliotecas universitárias de Oxford, a Radcliffe Science Library e a Bodleian, uma biblioteca generalista maravilhosa que existe desde 1602. Foi na Bodleian que eu esbarrei nas obras, agora obscuras e esquecidas, de Theodore Hook, um homem muito admirado no início do século dezenove por sua perspicácia e sua genialidade para a improvisação musical e teatral (dizem que ele compôs de improviso mais de 500 óperas). Eu fiquei tão fascinado por Hook que decidi escrever uma espécie de biografia ou “relato de caso histórico” sobre ele. Nenhuma outra biblioteca – além da Biblioteca do Museu Britânico – poderia ter provido os materiais de que eu precisava e a atmosfera tranquila da Bodleian era perfeita para escrever.

Entretanto, a biblioteca que eu mais amava em Oxford era a nossa própria biblioteca no Queen’s College. A magnífica construção da biblioteca foi projetada por Christopher Wren e por baixo dela, em um labirinto subterrâneo de tubulações de aquecimento e prateleiras, ficavam as instalações subterrâneas da biblioteca. Ter em minhas próprias mãos livros antigos e originais foi uma experiência nova para mim – adorei em particular o Historiae Animalium (1551) de Gesner ricamente ilustrado com um rinoceronte por Durer e a obra em quatro volumes de Agassiz sobre fósseis de peixes. Foi lá também que eu vi todas as obras de Darwin em suas edições originais e foi nas pilhas de livros que encontrei e me apaixonei com a obra completa de Sir Thomas Browne – sua Religio Medici, a Hydrotaphia e The Garden of Cyrus (The Quincunciall Lozenge). Alguns desses eram muito absurdos, mas como era magnífica a linguagem! E se a grandiloquência clássica de Browne às vezes se mostrava excessiva, sempre dava para ler a escrita mais direta de Swift – cuja obra completa estava lá em suas edições originais, é claro. Apesar de ter crescido com as obras do século dezenove que meus pais preferiam, foram as catacumbas da Queen’s Library que me apresentaram à literatura dos séculos dezesseis e dezessete – Johnson, Hume, Pope e Dryden. Todos esses livros ficavam disponíveis abertamente, não eram trancados em cofres especiais para livros raros, ficavam livres nas estantes como o fizeram (eu imaginava) desde sua publicação original. Foi nos arquivos do Queen’s College que eu realmente desenvolvi uma noção de história e da minha própria linguagem.

A primeira vez que vim para Nova York foi em 1965, naquela época eu tinha um apartamento minúsculo e horrível no qual quase não tinha lugar para ler ou escrever. Eu só consegui, deixando um cotovelo pendurado de um jeito estranho, escrever um pouco do Enxaqueca em cima da geladeira. Eu ansiava por mais espaço. Felizmente, na biblioteca do Albert Einstein College, onde eu trabalhava, havia espaço em abundância. Eu sentava por algum tempo para ler e escrever em uma mesa grande e então andava entre as estantes e pilhas de livros. Eu nunca sabia no que meus olhos iam recair, mas de vez em quando eu descobria tesouros inesperados, achados de sorte que eu levava para a mesa.

Apesar de a biblioteca ser silenciosa, conversas cochichadas podiam começar entre as estantes – talvez os dois estivessem procurando pelo mesmo livro antigo, os mesmos volumes encadernados de Brain de 1890 – e conversas podiam levar a amizades. Todos estávamos lendo nossos próprios livros, absortos em nossos próprios mundos e ainda assim havia um senso de comunidade, até de intimidade. A fisicalidade dos livros – junto com seus lugares e vizinhos nas estantes – era para parte dessa camaradagem: manusear os livros, compartilhá-los, passá-los entre nós, até mesmo ver os nomes de leitores anteriores e as datas em que pegaram os livros.

Mas uma mudança estava acontecendo nos anos 90. Eu ainda visitava a biblioteca com frequência, sentado na mesa com uma montanha de livros na minha frente, mas os estudantes ignoravam as estantes cada vez mais, acessando o que precisavam em seus computadores. Poucos continuam indo até as estantes. Os livros, até onde lhes tocava, eram desnecessários. E dado que a maioria dos usuários não usava mais os livros, a faculdade decidiu finalmente se desfazer deles.

Eu não fazia ideia que isso estava acontecendo – não só na biblioteca AECOM mas nas faculdades e bibliotecas públicas de todo o país. Eu fiquei horrorizado quando visitei a biblioteca dois meses atrás e encontrei as prateleiras, que antes ficavam abarrotadas, parcamente ocupadas. Ao longo dos últimos anos parece que a maioria dos livros foram descartados, incrivelmente com pouquíssimas objeções. Eu senti como se tivessem cometido um assassinato, um crime – a destruição de séculos de conhecimento. Vendo minha aflição, um bibliotecário me garantiu que qualquer coisa “de valor” tinha sido digitalizada. Mas eu não uso computador e estou profundamente entristecido com a perda dos livros, até mesmo os periódicos encadernados porque há algo de insubstituível em um livro físico: seu aspecto, o cheio, o peso. Pensei em como antigamente a biblioteca prestigiava livros “velhos”, havia um cômodo especial para livros antigos e raros; pensei em 1967 quando, remexendo nas pilhas, encontrei um livro de 1873, Megrim de Edward Liveing, que me inspirou a escrever meu primeiro livro.


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