Susan Sontag explora o primitivo e o moderno da fotografia

Susan Sontag explora o primitivo e o moderno da fotografia

"Fotos são um meio de aprisionar a realidade, entendida como recalcitrante, inacessível; de fazê-la parar." - Susan Sontag

Susan Sontag foi uma daquelas mentes inquietas que desafiam categorias e limites. Nascida em 1933, escreveu sobre arte, cultura, política e direitos humanos com grande maestria. “O mundo-imagem” é um dos ensaios que compõem seu livro “Sobre fotografia”, originalmente publicado em 1977. Escritos durante a década de 70, esses textos mostram uma forma de pensar a imagem que os interliga, mesmo em sua individualidade.

Susan Sontag. Foto por Jill Krementz. 18 de Novembro, 1974.

Em “O mundo-imagem”, Susan Sontag usa sua erudição para nos mostrar o papel da fotografia na sociedade moderna comparando com costumes de culturas pré-industriais e até mesmo com exemplos de arte rupestre. Como veremos mais adiante, a fotografia e a imagem, conforme defendidas por ela, são uma extensão tão real quanto o original, ou seja, aquilo que serviu de fonte para a imagem:

“Tais imagens [fotográficas] são de fato capazes de usurpar a realidade porque, antes de tudo, uma foto não é apenas uma imagem (como uma pintura é uma imagem), uma interpretação do real; é também um vestígio, algo diretamente decalcado do real, como uma pegada ou uma máscara mortuária.”

Basta esse trecho para vermos surgir o choque de supor real também aquilo que costuma ser tido como representação. Porém ela não evita a discussão. Ao citar Platão ela ataca toda uma tradição de pensamento:

O fotojornalista. Foto por Andreas Feininger. 1951.

“Mas esse venerável realismo ingênuo é um tanto irrelevante na era das imagens fotográficas, pois seu contraste grosseiro entre a imagem (“cópia”) e a coisa retratada (o “original”) — que Platão ilustra repetidas vezes com o exemplo da pintura — não se adapta à foto de um modo tão simples. Tampouco o contraste ajuda a compreender a criação das imagens em suas origens, quando se tratava de uma atividade prática, mágica, um meio de ganhar ou de apropriar-se do poder sobre algo. Quanto mais retrocedermos na história, como observou E. H. Gombrich, menos nítida será a distinção entre imagens e coisas reais; nas sociedades primitivas, a coisa e sua imagem eram apenas duas manifestações diferentes, ou seja, fisicamente distintas, da mesma energia do espírito.”
“O que define a originalidade da fotografia é que, no exato momento em que o secularismo triunfou por completo na longa, e crescentemente secular, história da pintura, algo semelhante ao status primitivo das imagens renasce — ainda que em termos inteiramente seculares.Nosso sentimento irreprimível de que o processo fotográfico é algo mágico tem uma base genuína. Ninguém supõe que uma pintura de cavalete seja, em nenhum sentido, cossubstancial a seu objeto; ela somente representa ou alude. Mas uma foto não é apenas semelhante a seu tema, uma homenagem a seu tema. Ela é uma parte e uma extensão daquele tema; e um meio poderoso de adquiri-lo, de ganhar controle sobre ele.”

Dada essa condição de realidade à foto, ela segue argumentando uma verdadeira inversão na forma como encaramos o real, ou melhor, um retorno às formas mais primitivas de lidarmos com a imagem:

“Mas o verdadeiro primitivismo moderno não consiste em ver a imagem como uma coisa real; imagens fotográficas dificilmente são tão reais assim. Em vez disso, a realidade passou cada vez mais a se parecer com aquilo que as câmeras nos mostram. É comum, agora, que as pessoas, ao se referirem a sua experiência de um fato violento em que se viram envolvidas — um desastre de avião, um tiroteio, um atentado terrorista —, insistam em dizer que “parecia um filme”. Isso é dito a fim de explicar como foi real, pois outras qualificações se mostram insuficientes.”

Policiais usam spray de pimenta em manifestante imobilizado. Foto por Robson Fernandes.

“É como se os fotógrafos, em reação a um sentido de realidade cada vez mais esvaziado, procurassem uma transfusão — viajar para novas experiências, revigorar as antigas.
“A premência de novas experiências se traduz na premência de tirar fotos: a experiência em busca de um modelo à prova de crises.”

Sendo real, a mobilidade da imagem pode ser uma válvula de escape para os que não podem viver aquilo, não importando se o motivo é de ser algo circunscrito ao passado ou se a limitação é de outra natureza:

“Assim como tirar fotos parece quase obrigatório para aqueles que viajam, a paixão de colecioná-las tem um apelo especial para os que se acham confinados — por opção, incapacidade ou coerção. As coleções de fotos podem ser usadas para criar um mundo substituto, em harmonia com imagens enaltecedoras, consoladoras ou provocantes.”
“Para os que ficam em casa, os prisioneiros e os que confinam a si mesmos, viver entre fotos de estranhos glamourosos é uma reação sentimental ao isolamento e um desafio insolente que a ele dirigem.”

Igor Stravinsky. Foto por Richard Newman. 1946, Nova York.

“Fotos são um meio de aprisionar a realidade, entendida como recalcitrante, inacessível; de fazê-la parar. Ou ampliam a realidade, tida por encurtada, esvaziada, perecível, remota. Não se pode possuir a realidade, mas pode-se possuir imagens (e ser possuído por elas) — assim como, segundo Proust, o mais ambicioso dos prisioneiros voluntários, não se pode possuir o presente, mas pode-se possuir o passado.”

Enquanto a foto pode nos garantir a chance de manter contato com o que passou e algo de sua substância, há também de se aprender a lidar com a transferência de valor que pode haver das “coisas” para suas imagens, algo que preocupou Platão, apesar de ele não ver esse fenômeno como uma competição entre duas realidades, mas como a destruição da única realidade possível em prol das imagens, que seriam apenas a falsificação do real. Esse argumento é inaceitável para Sontag:

Pimentão no. 30. Foto por Edward Weston. 1930.

“As tentativas feitas por fotógrafos de dar sustentação a um sentido de realidade esvaziado contribuem para o esvaziamento. Nossa opressiva sensação da transitoriedade de tudo é mais aguda, uma vez que as câmeras nos oferecem os meios de “fixar” o momento fugidio.”
“Os poderes da fotografia, de fato, têm desplatonizado nossa compreensão da realidade, tornando cada vez menos plausível refletir nossa experiência à luz da distinção entre imagens e coisas, entre cópias e originais. Condizia com a atitude depreciativa de Platão no tocante às imagens associá-las a sombras — transitórias, minimamente informativas, imateriais, impotentes copresenças das coisas reais que as projetam. Mas a força das imagens fotográficas provém de serem elas realidades materiais por si mesmas, depósitos fartamente informativos deixados no rastro do que quer que as tenha emitido, meios poderosos de tomar o lugar da realidade — ao transformar a realidade numa sombra. As imagens são mais reais do que qualquer um poderia supor.”

“Sobre fotografia” é um livro essencial para pensarmos o papel da foto e até mesmo do vídeo em nossa sociedade. Obviamente a internet e as redes sociais adicionaram outras ansiedades e necessidades às já propostas por Susan Sontag, no entanto, é inevitável passar por seus escritos antes de se alcançar uma ideia melhor embasada sobre a imagem.

Caso queira entender melhor a reticência de Platão em relação às cópias e imitações, leia as Notas de leituras sobre a ideia de expulsar os poetas da cidade ideal. E para ter uma ideia de como é possível que fotografias e vídeos mudem o mundo, as Notas de leitura sobre o artigo de Design Ontológico da Anne-Marie Willis podem ser de grande ajuda.


Referência: SONTAG, Susan - Sobre fotografia. 1a edição. Companhia das Letras, 2004. ISBN 978-85-8086-579-0. Tradução: Rubens Figueiredo