Virgínia Woolf: Crítica e dúvida acerca do Ulysses de James Joyce

Virgínia Woolf: Crítica e dúvida acerca do Ulysses de James Joyce

“Provavelmente a beleza final da escrita nunca é sentida pelos contemporâneos; mas eles devem, eu acho, ser impressionados; e isso eu não senti.” – Virginia Woolf

 

Virginia Woolf

Conhecida hoje por títulos como Orlando, Ao Farol e Mrs. Dalloway, Virginia Woolf foi uma das escritoras mais importantes do movimento modernista e contemporânea de outros escritores influentes entre os quais destaca-se também o irlandês James Joyce, em especial após sua publicação do Ulysses. Todavia, a publicação desse experimento literário extremo causou respostas diametralmente opostas. A posição de Virginia acerca do Ulysses costuma ser taxada através de uma citação que circula com especial irresponsabilidade pela internet, porém nada é tão simples e uma citação fora de contexto dificilmente resume o pensamento de alguém do nível dela.

Em dois artigos, um encobrindo o período de 1918 a 1920 e outro de 1922 a 1941, o professor de arte da escrita da Faculdade de Dartmouth, James Heffernan, mostra através de registros de diário e publicações, como a opinião de Virgínia Woolf mudou com o tempo.

Virginia recebeu os quatro primeiros capítulos do Ulysses junto com seu marido. Era uma proposta de publicação do Ulysses na Inglaterra através da Hogarth Press, a editora do casal. Entretanto, apesar de o livro ter sido grande demais para as possibilidades técnicas da editora, a própria Virginia ficou muito reticente. Após ter lido esses capítulos em 10 dias ela disse em uma carta para seu amigo pessoal, o crítico de arte Roger Fry:

 “É interessante como experimento, ele deixa a narrativa de fora e tenta dar os pensamentos, mas não sei se ele tem algo muito interessante a dizer e, afinal de contas, o m*jo de um cachorro não é muito diferente do m*jo de um homem. Trezentas páginas disso podem ser entediantes.”

Virginia Woolf

A crueza desse primeiro contato é comum a muitos dos que tentam ler o Ulysses pela primeira vez. E como outros leitores viriam a fazer, Woolf começa a enxergar algo mais entremeado no Ulysses, especialmente quando ela revisita a obra um ano depois e faz anotações sobre os sete primeiros capítulos para compor um ensaio sobre romances modernistas. Nesse ensaio ela defende que a ficção moderna precisa de “Algo que não leve necessariamente a uma trama... Algo talvez não dramático ou humorístico, nem trágico: apenas a natureza do dia” e aponta para sua suspeita de que Joyce pode ser o escritor que está fazendo isso. Embora não pretenda dizer o que ele realmente tenta fazer e questione a instabilidade de seu próprio posicionamento, ela propõe:

“Registremos os átomos conforme recaem sobre a mente e na ordem em que caírem, tracemos o padrão, não importando quão desconectado e incoerente possam parecer, cujas visões e incidentes ajam sobre a consciência. Não devemos tomar por garantido que a vida exista mais no que é comumente considerado grande do que naquilo que é tido como pequeno.”

Apesar dessa suspeita ela não deixa de demonstrar resistência quanto ao que ela considera indecente e entediante no livro de James Joyce. Esse movimento de reconhecimento e estupefação parece sugerir que nem tudo se resume ao que ela declara a amigos e em publicações.

Nos anos que se seguiram o livro de Joyce foi ganhando vulto e a atenção de críticos que viam nele algo de genial apesar de uma intenção julgada como “completamente arcaica” por John Middleton Murry, por exemplo. Entretanto, nesse tempo Virgínia Woolf se dedicava à leitura de “Em busca do tempo perdido" e Joyce era uma distração em seus esforços de escrever “Mrs. Dalloway” e estudar a obra de Marcel Proust. Ela chegou a escrever:

“Que tédio em relação ao Joyce! Justo agora que estava me devotando ao Proust – Agora preciso colocar o Proust de lado – e suspeito que o Joyce é um desses gênios ainda não desenvolvidos que não se pode negligenciar ou silenciar seus grunhidos, mas que devemos ajudar apesar de consideráveis inconveniências para si mesma.”

E o que ela tinha a dizer do livro depois de ter lido as 200 primeiras páginas é um misto de estupefação e estranhamento com o julgamento de críticos como seu amigo pessoal T. S. Elliot que defendiam o Ulysses apesar do que ela ainda via de forma incerta:

James Joyce

“Eu... fiquei impressionada, estimulada, encantada pelos primeiros 2 ou 3 capítulos – até o fim da cena do Cemitério; E então confusa, entediada, irritada e desiludida por um colegial enjoado estourando suas espinhas. E Tom, grande Tom, acha que isso se compara com Guerra e Paz! Me parece mais um livro iletrado, mal desenvolvido: o livro de um trabalhador autodidata e sabemos como eles são angustiantes, egoístas, insistentes, crus, chocantes e até nauseantes. Quando se pode ter carne cozida, para quê comê-la cru? Mas acho que se você for anêmico, como o Tom é, então há glória no sangue. Sendo eu bastante normal, então logo estou pronta para voltar aos clássicos. Posso revisar isso depois. Não comprometo minha sagacidade crítica. Cravo uma vara no chão para marcar a página 200.”

O mesmo T. S. Elliot que ela agora colocava em dúvida foi quem lhe colocou em dúvida e desânimo anteriormente. Em uma visita à sua casa ela o achou reticente em elogiar seu trabalho e as tentativas de livrar a literatura das limitações materiais e se entregar melhor ao pensamento e às maquinações psicológicas. Ela escreveu em seu diário que o silêncio dele parecia ser um sinal de que ele achava que James Joyce estava sendo mais hábil em fazer o que ela estava tentando. Para James Heffernan, ela nunca leu o Ulysses por completo. Quando ela diz “I finished Ulysses” ele acredita que ela terminou com o livro, rompeu seu vínculo com ele mais do que realmente o leu por completo. Mesmo depois de ter deixado claro em seu diário que ela não escreveria mais sobre o livro com o objetivo de publicação ela ainda anota em seu diário:

"Terminei o Ulysses e acho que ele falhou. Gênio eu acho que ele tem; porém é de um nível inferior. O livro é difuso. É desagradável. Mal desenvolvido, não apenas no sentido óbvio, mas no sentido literário. Penso que um escritor de primeira categoria respeita a escrita demais para ser complicado; sensacionalista; fazer firulas. Fico pensando o tempo inteiro em algum estudante inexperiente, digamos um Henry Lamb, cheio de talentos e poderes, mas tão consciente de si e egoísta que ele perde a cabeça, se torna extravagante, afetado, barulhento, indisposto, faz pessoas boas sentirem pena e a austeras sentirem-se irritadas; espera-se que ele cresça e mude; porém como Joyce tem 40 anos isso parece improvável. Eu não li o com cuidado; e apenas uma vez; e é muito obscuro; então sem dúvida eu passei por cima de suas virtudes mais do que é justo. Sinto como se uma miríade de pequena balas nos passem de raspão; mas não se recebe nenhuma ferida mortal bem na cara – como é com Tolstoi, por exemplo; porém é completamente absurdo compará-lo com Tolstoi.”

“Grande pensadora”: Virginia Woolf, por Duncan Grant, membro do grupo Bloomsbury.

Apesar disso, no mesmo dia seu marido mostra a ela uma das críticas mais completas sobre o livro. Na edição do Nation de 30 de Agosto de 1922, Gilbert Seldes chamou o livro de “um travesti monstruoso e incrível,” e que “farseia a estrutura da [Odisséia] como uma peça satírica parodiava o ciclo trágico ao qual se conecta” mas ao fazer isso se torna “uma obra prima.” A leitura desse texto a fez voltar atrás e reconsiderar algumas posições que havia defendido:

“Pela primeira vez... [essa resenha] analisa os significados; e certamente torna tudo muito mais impressionante do que eu havia julgado. Entretanto ainda acho que há virtude e alguma verdade duradoura em primeiras impressões; por isso não renego a minha. Preciso ler alguns dos capítulos de novo. Provavelmente a beleza final da escrita nunca é sentida pelos contemporâneos; mas eles devem, eu acho, ser impressionados; e isso eu não fui. Novamente, me apoiava no objetivo; novamente, eu estava excessivamente estimulada pelos elogios de Tom.”

Anos depois, em 15 de Janeiro de 1941, dois dias após a morte de James Joyce, ela escreve em uma carta para Quentin Bell:

“Então Joyce está morto – Joyce era quase uma quinzena mais novo que eu. Lembro da Senhorita Weaver, em luvas de lã, me trazendo o Ulysses datilografado para nossa mesa de chá na Hogarth House. Roger [Fry] que a mandou eu acho. Devotaríamos nossas a vidas a imprimi-lo? A páginas indecentes pareciam tão incongruentes: ela era solteira, sem decote. E as páginas recendiam indecência. O coloquei no armário ornado do gabinete. Um dia Katherine Mansfield veio e eu o peguei. Ela começou a ler, ridicularizando: e de repente disse, Mas há algo nisso aqui: uma cena que deveria entrar para a história da literatura. Ele estava por lá, mas eu nunca o vi. Me lembro de Tom no quarto de Ottoline em Garsington dizendo – já havia sido publicado à época – como alguém poderia voltar a escrever depois de alcançar o imenso prodígio do último capítulo? Foi a primeira vez que o vi arrebatado, entusiasmado. Eu comprei o livro de papel azul e o li aqui, acho que em um verão com espasmos de admiração, de descoberta e também com longos lapsos de imenso tédio... Isso se refere a um mundo pré-histórico.”

Vermos as incertezas e hesitações que Virgínia Woolf reservava para seus diários e amigos próximos pode soar como algo estranho, especialmente pelo mito que surgiu em torno de uma suposta aversão que ela sentia pelo livro. Entretanto, esse aprofundamento nas opiniões e críticas da escritora inglesa mostram nuances e um comprometimento sério que não corresponde com o que costuma-se dizer dos posicionamentos dela, mesmo que isso pareça comprometido pela incerteza em relação ao novo.

Seu esforço em enxergar e defender a literatura que ela julgava essencial para seu tempo e a forma como ela ouve outros estudiosos para formar sua posição mostram uma verdadeira maturidade intelectual. Maturidade essa que não pode ser alinhada em um simples gostar ou desgostar e que menos ainda é representada em citações descuidadas de seus diários pessoais.

O Ulysses é um livro capaz de encabular uma escritora como Virgínia Woolf e entrou para o imaginário literário inclusive com uma edição que marcou história e já apareceu aqui.