Meditações, livro XII. A natureza humana e como enxergar o mundo.

  1. Todas as bênçãos pelas quais você reza para obter daqui em diante poderiam ser suas hoje se você não as negasse a si mesmo. Basta deixar para trás o passado, entregar o futuro à providência e simplesmente buscar os caminhos da divindade e da justiça. Divindade, por uma apaixonada aceitação de sua sorte já que a Natureza a fez para você e você para ela. Justiça em seu falar por uma franca e direta veracidade e em seus atos por um respeito pela lei e pelos direitos de todos os homens. Permita-se, também, não ser impedido pela malícia, más concepções ou difamação dos outros, nem por nenhuma sensação que essa moldura carnal possa sentir. Sua parte aflingida cuidará de si mesma. A hora de sua partida se aproxima, basta se esquecer de tudo e prestar atenção apenas ao timoneiro de sua alma e à fagulha divina em você – basta trocar o medo de ter que acabar com sua vida um dia pelo medo de terminar sem nem haver começado segundo os verdadeiros princípios da natureza – você ainda pode se tornar um homem, digno do universo que lhe deu à luz, ao invés de um estranho em sua própria terra natal, aturdido pelos acontecimentos diários como por maravilhas imprevistas e sempre dependendo desse ou daquele.

  2. Deus vê as profundezas das mentes dos homens, desimpedido de qualquer impedimento material, cascas ou impurezas. Agindo apenas através de seu pensamento ele só faz contato com o que, neles, é um jorro de si mesmo. Eduque-se para fazer o mesmo e se livrará de muitas distrações, pois quem, enxergando além desse envólucro carnal, vai ser tentado por visões de vestuários, moradias, reputação ou outras partes do figurino e cenários da vida?

  3. Você é composto de três partes: corpo, respiração e mente. Os dois primeiros apenas pertencem a você no sentido de que você é responsável por seu cuidado. Somente o último é verdadeiramente seu. Então, caso você se afaste de seu verdadeiro eu – ou seja, de seu entendimento – tudo que os outros digam ou façam e tudo que você mesmo disse ou fez no passado, junto com toda ansiedade acerca do futuro e tudo que afeta o corpo ou a respiração – sua parceira – está fora de seu controle assim como tudo que rodopia em você no turbilhão das circunstâncias externas para que os poderes de sua mente, mantidos de tal forma indiferentes e imaculados de tudo que o destino pode fazer, possam viver sua própria vida em independência, fazendo o que é justo, consentindo com o que acontece e falando o que é verdade. Se, eu digo, você afastar dessa sua faculdade-mestra tais apegos desesperados, ensinando a si mesmo como se tornar o que Empedócles chama de “um orbe completamente circular, regozijando de sua própria rotundidade” e preocupado apenas com a vida que está levando agora, a vida do presente momento, então até que venha a morte você será capaz de passar o resto de seus dias livre de toda ansiedade e favorecido pela deidade dentro de você.

  4. Às vezes me questiono como embora cada homem ame a si mesmo além de tudo, ele ainda valorize sua opinião sobre si mesmo menos que a dos outros. Indubitavelmente se algum deus ou sábio conselheiro parar ao seu lado e lhe pedir que não nutra nenhum pensamento ou motivo em seu coração sem imediatamente fazê-lo ser conhecido externamente, ele não aguentaria isso nem por um dia. Tão superior é a consideração que temos pelos julgamentos de nossos semelhantes sobre nós do que aqueles que temos por nós mesmos.

  5. Podem os deuses, que forjaram todo o resto tão bem e com tanta benevolência, terem negligenciado essa única coisa de que até os homens mais eminentemente virtuosos, homens em íntima correspondência com o divino e vivendo em intima união com ele através de seus trabalhos e devoção, não possam renascer após suas mortes e são condenados à absoluta extinção? Contudo, seja realmente essa a sua sorte, fique seguro de que se houvesse sido necessário outro plano assim teria sido ordenado, se estivesse de acordo com a Natureza. A Natureza o teria feito acontecer. Logo, não sendo assim (se verdadeiramente não for), pode ter toda confiança de que realmente não deveria ser assim. Obviamente não vês que ao levantar questões tão levianas você está acusando a deidade? Pois deveríamos sequer estar levantando essas questões com os deuses dessa forma se eles não fossem supremos em bondade e justiça? E se são, como poderiam ter permitido que qualquer coisa fosse injusta ou negligenciada insensatamente em suas disposições para o universo?

  6. Pratique, mesmo quando o sucesso parecer inalcançável. A mão esquerda, inapta em outros assuntos por falta de prática, consegue apertar as rédeas mais firmemente que a direita porque, nesse caso, houve prática.

  7. Medite sobre o que você deverá ser em corpo e alma quando a morte te levar; medite sobre a brevidade da vida e os incomensuráveis abismos da eternidade antes e depois de ti e sobre a efemeridade de tudo que é material.

  8. Observe as mais profundas causas das coisas, livres de seus véus. Note as intenções que subjazem às ações, estude as essências da dor, do prazer, da morte e da glória. Veja como toda a inquietação do homem é de sua própria autoria e como os problemas nunca vêm das mãos de outrem, sendo, como são, criaturas formadas de nossas próprias opiniões. Assim como todo o resto.

  9. Ao gerenciar seus princípios, tome como exemplo o pugilista, não o espadachim. Um deixa sua espada de lado e depois tem de buscá-la novamente. O outro nunca está sem sua mão, então só precisa cerrá-la.

  10. Veja do que consistem as coisas. Reduza-as à sua matéria, forma e propósito.

  11. Como são amplos os privilégios concedidos ao homem: não fazer nada além do que Deus aprovar e aceitar tudo que Deus designar!

  12. Nenhuma culpa pela ordem das coisas pode recair sobre os deuses, dado que nada errado pode ser feito por eles, seja voluntariamente ou o contrário. Nem mesmo sobre os homens, cujos erros não dependem de sua própria volição. Abstenha-os de todo pensamento de culpa.

  13. Como é ridículo e estranho ficar chocado com o que acontece na vida!

  14. Há uma condenação inexorável e uma lei inviolável ou há a providência que pode ser misericordiosa ou então há um caos sem sentido e desgovernado. Se for um destino irresistível, por que tentar lutar contra ele? Se for uma providência disposta a mostrar misericórdia, faça seu melhor para merecer seu socorro divino. Se for um caos arbitrário, agradeça que em meio a mares tão tempestuosos você tem dentro de si uma mente no controle. Se as águas se sobrepuserem a você, deixe-as submergir carne, fôlego e tudo o mais, entretanto elas nunca farão naufragar a mente.

  15. A chama da lanterna brilha com força total até que se apaga, no entanto, a verdade, o conhecimento e a justiça morrem em você antes mesmo que sejas extinto?

  16. Quando tiver a impressão de que alguém errou, reflita: “Qual a certeza que tenho de isso ser errado?” Além do mais, mesmo que seja, ele não pode já ter se repreendido por isso, tanto como se suas unhas houvessem visivelmente arranhado seu rosto? Desejar que um velhaco nunca fizesse o mal é como desejar que uma figueira nunca tivesse sumo azedo em seus frutos, crianças nunca chorassem, cavalos nunca relinchassem ou que qualquer outra coisa inevitável da vida viesse a acontecer. Diga então, como poderia ele agir de outra forma com o caráter que tem? Se você acha isso tão vexativo, corrija-o.

  17. Se não for a coisa certa a se fazer, nunca a faça. Se não for a verdade, nunca diga. Mantenha seus impulsos sob controle.

  18. Sempre veja o todo de uma coisa. Encontre o que produz sua impressão em você, então abra isso e disseque em causa, matéria, motivo e a duração do tempo até que isso venha ao fim.

  19. Tente ver, antes que seja tarde demais, que dentro de você há algo superior e mais divino do que os meros instintos que movem suas emoções e o contorcem como uma marionete. Qual desses, então, está nublando meu entendimento nesse momento? Medo, inveja, volúpia ou algum outro?

  20. Primeiramente, evite quaisquer ações que sejam arbitrárias ou sem sentido. E segundo, permita que cada ação foque apenas no bem comum.

  21. Lembre-se, muito em breve você deve se tornar uma coisa vagando no nada. Em breve tudo que chega a seus olhos, junto com tudo em que está o sopro da vida, não existirá mais. Dado que tudo foi criado para se transformar, morrer e depois perecer, para que outros, por sua vez, possam vir a ser.

  22. Tudo é o que sua opinião decide e essa opinião reside em você. Renuncie a ela quando quiser e imediatamente terá contornado o cabo e tudo será calmaria. Um mar tranquilo, um porto sem ondas.

  23. Quando uma operação, não importa de que tipo, é levada à cabo no momento certo, o cessar não faz mal algum e o próprio agente não é pior apenas por ter descontinuado sua ação. Então se a própria vida – que não passa da totalidade de todas as operações – também cessa quando o tempo chega, não é prejudicada por sua mera cessação, nem é afetado adversamente aquele que assim traz toda a série de suas operações para sua prevista conclusão. No entanto, a hora e momento adequados são fixados pela natureza: senão pela própria natureza do homem – como, por exemplo, através da idade avançada – então, em todo caso, pela própria grande Natureza, que através da contínua renovação de cada uma de suas partes mantém o universo para sempre jovem e vigoroso. O que quer que sirva ao propósito do Todo é mantido sempre bem e florescendo. Segue-se, então, que o fim da vida não é ruim para o homem – sendo uma coisa fora de seu controle e livre de egoísmo, não há nada nela que o degrade – ou melhor, é até mesmo boa, dado que para o universo é oportuna, útil e de acordo com todo o resto. Assim, ao seguir os desígnios de Deus e se unindo a ele em pensamento o homem avança através da mão divina.

  24. Há três conselhos dignos de se ter em mente. O primeiro trata das atitudes: essas nunca devem ser feitas arbitrariamente nem de modos contrários à justiça. Você deve se lembrar de que todos os eventos externos são resultado do acaso ou da providência e você não pode repreender o acaso ou contestar a providência. Em segundo lugar, pense bem no que tudo é, da primeira semente até o nascimento da alma e do nascimento da alma a sua última capitulação, do que cada coisa é composta e no que se dissolverá. Terceiro, imagine que de repente você foi levado às nuvens e está olhando para baixo onde consegue ver todo o panorama das atividades humanas: como a cena iria excitar seu desprezo agora que você poderia discernir a multitude de seres aéreos e cerúleos que se aglomeram ao redor deles. Ainda, reflita que não importa o quanto você subisse dessa maneira, ainda veria as mesmas coisas, em toda sua monotonia e transiência. E ainda assim são dessas coisas que fazemos tanta ostentação!

  25. Abandone seu ponto de vista e você estará fora de perigo. Então quem o está impedindo de tal distanciamento?

  26. Quando você se permite ficar ressentido de algo está a se esquecer de que nada acontece exceto em obediência à Natureza, que não é seu qualquer erro de conduta em questão e mais, que essa é a única forma segundo a qual todas as coisas sempre aconteceram, sempre acontecerão e sempre acontecem. Está olvidando também a proximidade da fraternidade do homem com seu próximo, uma fraternidade não de sangue ou semente humana, mas pela inteligência em comum e que essa inteligência em cada homem é Deus, uma emanação da deidade. Esquece de que nada é propriamente de algum homem já que mesmo um filho, seu corpo, sua própria alma, tudo vem do mesmo Deus, que tudo é questão de opinião e de que o momento que está se passando é tudo o que um homem pode viver ou perder.

  27. Considere as vidas dos homens que não impuseram limites às suas paixões, os homens que alcançaram o auge da glória, do desastre, do ódio ou qualquer outro extremo e então pondere: “Onde eles estão agora?”. Vapores, cinzas e mitos, talvez nem mesmo um mito. Contemple os inúmeros exemplos: Fábio Catulino em seu Estado, Lúcio Lupo em seus jardins, Estertino em Baiae, Tibério em Capri, Velius Rufus. Qualquer exemplo do que o orgulho pode fazer com nossos corações. Quão ignóbeis eram suas ambições! Como era mais adequado a um filósofo buscar a justiça, temperança e fidelidade aos deuses – porém sempre com simplicidade, pois o orgulho que cresce sob o aspecto de humildade é de todos o mais intolerável.

  28. Àqueles que insistem: “Onde você já viu os deuses e como pode ter tanta certeza de sua existência para que os idolatre dessa maneira?”. Respondo: “Um dos motivos: eles são perfeitamente visíveis ao olhar. Por outro: também nunca vi minha alma e ainda assim a venero. Dessa forma é com os deuses, é a experiência que prova seu poder diariamente, por isso estou satisfeito de que existam e os reverencio.”

  29. Por uma vida que seja saudável e segura cultive um olhar profundo sobre as coisas e descubra sua essência, matéria e causa. Se esforce ao máximo em fazer o que é justo e dizer a verdade. Quanto ao resto, conheça o prazer da vida de empilhar um bom feito sobre o outro até que não sobre espaço ou fenda entre eles.

  30. A luz do sol é uma só, mesmo quando quebrada por muralhas, montanhas e muitas outras coisas. A substância é uma só, mesmo quando parcelada entre os inúmeros corpos vivos de diferentes tipos, cada um com suas próprias qualidades especiais. A alma é uma só, mesmo quando dividida em incontáveis naturezas de todo tipo e inúmeras proporções diferentes. Até a alma que é dotada com a qualidade adicional do pensamento, embora aparentemente divisível, também é uma só. Pois todas as outras partes do organismo – sua respiração, por exemplo – são coisas materiais, incapazes de sensação, que não têm afinidade umas com as outras e somente são mantidas unidas pela pressão unificadora da gravitação. Já o pensamento, por sua natureza, tende espontaneamente em direção a seu próprio tipo e se mistura com ele, de forma que o instinto de unidade não é frustrado.

  31. Por que deseja que os dias se estendam? É para experimentar sensações e desejos ou aumento ou cessação do crescimento? É para fazer uso dos poderes do discurso ou do pensamento? Alguma dessas coisas realmente parece digna de cobiça? Então se você pensar nelas como estando abaixo de sua percepção, esforce-se em direção ao objetivo final de todos – que é seguir a razão e Deus. No entanto, valorizar isso, deves ter em mente, é incompatível com qualquer sentimento de ressentimento acerca da morte te roubar dos outros objetivos.

  32. Como é pequena a fração daquele incomensurável infinito de tempo que é proporcionada a cada um de nós, um instante e ela se perde na eternidade. Como é insignificante, também, sua porção da substância do mundo. Insignificante também sua cota da alma universal. Como é diminuto o grão de terra que você pisa. Enquanto pensa nessas coisas, disponha sua mente a pensar que nada é importante além de fazer o que sua natureza direciona e suportar o que a Natureza do mundo lhe mandar.

  33. Como o timoneiro de minha alma está lidando com sua tarefa? Pois nisso reside tudo. Todo o resto, sob meu controle ou além dele, são ossos mortos e vapor.

  34. Nada encoraja mais o desprezo pela morte do que a reflexão de que até os homens que consideram o prazer um bem e a dor um mal foram, não obstante, capazes de desprezá-la.

  35. Quando um homem encontra seu único bem naquilo que a hora determinada lhe traz. Quando ele não se importa se suas ações são muitas ou poucas, para que estejam estritamente de acordo com a razão. Quando não importa para ele se o vislumbre desse mundo será longo ou curto – nem a própria morte pode ser algo aterrorizante para ele.

  36. Ó homem, a cidadania dessa grandiosa cidade-mundial tem sido sua. Se por cinco anos ou cinquenta, o que é isso para você? O que quer que a lei dessa cidade decrete é justo para um e para todos igualmente. Então onde recai sua mágoa? Você não foi banido da cidade por nenhum juiz ou tirano injustos, senão pela própria Natureza que o trouxe aqui, da mesma forma que um ator é demitido por um organizador que o havia contratado. Seu ponto de completude é determinado por aquele que inicialmente sancionou sua criação e hoje sanciona sua dissolução. Nenhuma dessas decisões são suas. Então siga seu caminho, com um rosto sorridente, sob o sorriso daquele que anuncia sua ida.


 Meditações, livro XI

Meditações, livro XI


Meditações, livro XI. Formas de lidar com a malícia e a própria mentalidade.

marcusaurelius
  1. Essas são as propriedades de uma alma racional: Ela pode se contemplar, se analisar, fazer de si o que quiser, aproveitar seus frutos (Visto que os frutos produzidos pelas árvores, como sua contraparte produzida pelos animais, são aproveitados por outros) e ter seu trabalho sempre completo, não importando o momento em que nossa vida chegará ao limite. Pois, ao contrário das danças, peças e coisas do tipo que se interrompidas subitamente o todo é deixado imperfeito, a alma, não importa em que estágio seja ceifada, sempre terá sua tarefa executada a seu contento sendo capaz de dizer: “Sou completamente dona de mim mesma”. Além do mais, ela pode envolver todo o universo se quiser, tanto sua própria estrutura quanto o vazio circundante e pode alcançar a eternidade, englobando e compreendendo as grandes renovações cíclicas da criação e assim percebendo que as gerações futuras não terão nada de novo a testemunhar, tal como nossos ancestrais não contemplaram nada mais do que nós hoje. Porém se um homem chegar a seu quadragésimo ano e tiver algum entendimento, ele terá visto virtualmente – graças às suas similaridades – todos os acontecimentos possíveis, tanto passados quanto futuros. Enfim, as qualidades da alma racional incluem amor ao próximo, verdade, modéstia e antes de tudo uma reverência a si mesma e já que essa última é uma das qualidades também da lei, segue-se que o princípio da racionalidade é o mesmo que o princípio da justiça.

  2. Você pode rapidamente tornar-se indiferente às seduções da música, da dança ou demonstrações atléticas se dividir a melodia em sua variadas notas e questionar-se sobre cada uma individualmente: “É isso que me é tão irresistível?”. Você hesitará em admitir. Faça o mesmo para cada movimento ou atitude dos dançarinos e também com os atletas. Em suma, salvo no caso das virtudes e suas implicações, sempre lembre-se de ir direto às partes e, ao dissecá-las, alcançar seu desencantamento. Agora transfira esse método para a vida como um todo.

  3. Feliz a alma que, a qualquer momento que o chamado vem para libertá-la do corpo está igualmente pronta para encarar a extinção, dispersão ou sobrevivência. Tal preparação deve ser o resultado de sua própria decisão, uma decisão não incitada por mera contumácia, mas com deliberação e gravidade e, se for para ser convincente, abstendo-se de todo heroísmo.

  4. Fiz algo altruísta? Bem, tenho minha recompensa. Mantenha esse pensamento sempre presente e persevere.

  5. Qual seu ofício? Bondade. No entanto, como você alcançará sucesso nisso a não ser tendo um olhar filosófico sobre a natureza do universo e sobre a constituição particular do homem?

  6. O Drama em sua fase inicial assumiu a forma da Tragédia, através da qual a representação das vicissitudes da vida nos lembram de quão naturalmente coisas do tipo podem acontecer e que, dado que nos levam ao prazer no teatro, não temos o direito de nos sentirmos ofendidos por sua ocorrência no grande teatro da vida. Pois essas peças nos mostram que, embora nossas ações tenham suas consequências inevitáveis, os homens ainda podem suportá-las apesar do angustiado “Ah, Citéron” que irrompe de seus lábios. Além disso, há úteis dizeres a serem encontrados aqui e ali nos escritores trágicos; notadamente:

    “Se o Céu não se interessa por mim e meus dois filhos,
    Deve haver boa razão para tal”

      ou então:

      “Não vexes teu espírito com o rumo das coisas” ou “Como espigas as vidas dos homens são ceifadas” e muitos outros do tipo.

        Depois da Tragédia veio a Comédia Antiga com uma linguagem impiedosa como a de um professor, porém administrando uma completa reprimenda ao orgulho por sua própria sinceridade desmedida (o que até certo ponto foi adotado por Diógenes com o mesmo intuito). Porém depois, veja o foco da Comédia Média e eventualmente o da Nova Comédia, que tão cedo decaiu na mera Mime. Até esses autores mais tardios têm algumas coisas boas a dizer, como bem sabemos. Porém, qual o valor de todo o escopo e intenção de sua produção poética e dramática?

      1. Manifestamente, nenhuma condição de vida poderia ser tão bem adaptada para a prática da filosofia quanto essa que a sorte lhe dispõe hoje!

      2. Um galho decepado a partir de outro galho necessariamente deixa de fazer parte da árvore como um todo. O mesmo acontece com o homem. Quando se separa de algum de seus semelhantes acaba isolado de toda a comunidade. Entretanto, enquanto o galho é cortado por alguma outra mão, o homem, por seus sentimentos de raiva e aversão, trás para si a distância de seu próximo e não vê que ao mesmo tempo está se distanciando de todo o quadro da comunidade. Ainda assim está sob nosso poder, pela graça de Zeus, o autor de toda fraternidade, crescermos e nos tornarmos unidos ao nosso próximo novamente, retomando nosso papel na integração do todo. Porém se tais atos de secessão são repetidos frequentemente, fica cada vez mais difícil para o recusador alcançar a reunião e a restituição. Um galho que tenha sido parte do crescimento da árvore desde o início e nunca deixou de compartilhar sua vida, é diferente de um que tenha sido enxertado novamente após um corte. Como dizem os jardineiros, são da mesma árvore, porém não da mesma mentalidade.

      3. Embora os homens possam te atrapalhar em seguir os caminhos da razão, eles nunca poderão ter sucesso em te impedir de agir corretamente. No entanto, assegure-se também de que eles falhem em destruir seus sentimentos caridosos em relação a eles. Você deve defender as duas posições igualmente: sua firmeza em decisão e ação e ao mesmo tempo a gentileza para com aqueles que tentam te obstruir ou prejudicar. Seria uma fraqueza tão grande dar espaço à sua exasperação com relação a eles quanto seria abandonar seu curso de ação e se render intimidado. Em qualquer um dos eventos o posto do dever é abandonado. Em um caso por falta de coragem e no outro através do afastamento de homens que são seus amigos e irmãos naturais.

      4. Qualquer forma de natureza se mostra superior à arte, dado que toda arte não passa de uma imitação do natural. Sendo assim, aquela suprema Natureza que é mais perfeita e a que tudo engloba não pode falhar em ser preeminente no ofício dos artistas. Ainda, é somente observando algo superior que os artistas podem produzir seus trabalhos inferiores e isso é o que a própria Natureza também faz. Então aqui encontramos as origens da justiça, pois todas as outras virtudes dependem disso. Nunca podemos alcançar verdadeira justiça enquanto apegarmos nossos corações a coisas de menor valor e estivermos contentes em continuarmos crédulos, teimosos e inconstantes.

      5. Pode ser que as coisas pelas quais você se irrita e se angustia em perseguir ou evitar não vêm para você, mas você que vai a elas. Deixe que seus julgamentos sobre elas permaneçam suprimidos. Elas, por sua vez, não farão movimento algum e assim você não se verá perseguindo-as ou evitando-as.

      6. A alma mantém sua forma perfeitamente arredondada quando não está nem se esticando em busca de algo ou se encolhendo dentro de si. Nem se disseminando aos poucos nem colapsando-se, sendo então banhada em uma radiação que revela a ela o mundo e si mesma em suas verdadeiras cores.

      7. Alguém vai me escarnecer? Essa preocupação será dele. A minha será garantir que nada que eu faça ou diga venha a merecer tal escárnio. Será que ele vai me odiar? De novo, preocupação dele. A minha, ser amigo e caridoso com todos, pronto a mostrar para esse homem onde ele está errado e fazê-lo sem recriminação ou paciência ostentadora, mas – se assumirmos que as palavras dele não eram apenas hipocrisia – tão franca e generosamente quanto fazia Fócion antigamente. Esse é o espírito correto para se ter interiormente. Ele nunca deve ser visto pelos deuses dando guarita a algum rancor ou se lamentando de seus sofrimentos. Que mal pode te tocar se seguir as leis adequadas ao seu ser e aceitar momento a momento o que quer que a grande natureza julgue oportuno, como um homem que se dedica através de todo e qualquer meio a aprofundar o bem estar do mundo?

      8. Eles se desprezam e mesmo assim adulam um ao outro. Cada um poderia se sobrepor ao outro, no entanto, encolhem e escondem-se ante ele.

      9. Como soa vazio e insincero quando alguém te diz: “Serei perfeitamente direto com você.” Por quê, pra quê tudo isso? Essa coisa não precisa de prólogo, vai se declarar por si mesma. Deveria estar escrita em sua testa, ecoar nos seu tons de voz, deveria brilhar imediatamente em seu olhos, apenas um relance do amado conta tudo àquele que ama. Sinceridade e bondade devem ter seu próprio cheiro inconfundível para que aquele que encontrá-las esteja imediatamente atento apesar de si mesmo. Uma candura afetada é uma faca escondida. A amizade fingida do lobo é a mais desprezível de todas e a ser evitada acima de tudo. Um homem que seja verdadeiramente bom, sincero e de boas intenções o mostra por seu aspecto e ninguém se confunde ao olhar para ele.

      10. A boa vida pode ser conquistada à perfeição por qualquer alma capaz de mostrar indiferença às coisas que são, por si mesmas, indiferentes. Isso pode ser feito através de um cuidadoso escrutínio primeiro dos elementos que as compõem e depois das coisas em si mesmas, tendo em mente que nenhuma delas é responsável pela opinião que formamos. Elas não se aproximam de nós, permanecem estacionárias. Somos nós que produzimos julgamentos sobre elas e prosseguimos a inscrevê-los, por assim dizer, em nossas mentes, apesar do fato de que está perfeitamente sob nosso poder não inscrever nada ou ao menos apagar prontamente qualquer coisa que possa ter se inscrito inesperadamente. Ainda, deve-se lembrar que não temos muito mais tempo para nos importamos com esses assuntos e que nossa raça em breve se esgotará. Então não se ofenda se as coisas não são do seu gosto. Enquanto estiverem de acordo com a natureza, esteja feliz com elas e não crie dificuldades. Se não estão, então encontre o que sua própria natureza ordena e faça o possível para alcançar isso, pois um homem está sempre certo em buscar seu próprio bem.

      11. Considere onde cada coisa se origina, o que vai em sua composição, no que ela está se transformando, no que será depois da mudança e que não será em nada pior para ela.

      12. Quando ofendido.

        Primeiro Conselho. Lembrar a íntima conexão entre eu e o resto da humanidade. Porque todos fomos criados uns para os outros ou, para dar uma razão diferente, porque eu nasci para ser o líder deles, como o cabrito é feito para liderar o rebanho e o touro o gado. Ou então – para voltar aos princípios – porque o mundo, se não for meros átomos, deve ser governado pela Natureza e nesse caso as ordens inferiores da criação devem existir para as superiores e as superiores existem umas para as outras.

        Segundo Conselho. Pense no caráter, deles no conselho e na cama e assim por diante e em particular, na pressão que seus próprios modos de pensar exercem sobre eles e a consequente segurança com que realizam esses seus atos.

        Terceiro Conselho. Se o que eles estão fazendo for correto você não pode se enraivecer. Se não for, só pode ser sem intenção e involuntariamente. Pois assim como “uma alma nunca renuncia à verdade de propósito”, também ninguém, propositalmente, nega a alguém o tratamento que ele merece. Testemunhe a indignação deles se alguém os acusa de injustiça, ingratidão, maldade ou qualquer outro tipo de delito contra seus semelhantes.

        Quarto Conselho. Você mesmo erra de várias formas e não é diferente deles. É verdade que você pode evitar certo erros, entretanto a inclinação continua ali, mesmo que a covardia ou o cuidado com sua reputação ou algum outro motivo ignóbil tenham te restringido de imitar tais malfeitos.

        Quinto Conselho. Você não pode ter certeza de que eles realmente estejam errados, pois os motivos para as ações humanas nem sempre são o que parecem. Normalmente há muito o que aprender antes de pronunciar qualquer julgamento acerca dos afazeres dos outros.

        Sexto Conselho. Diga para si, quando estiver exasperado e sem qualquer paciência, que essa vida mortal dura apenas um momento e não vai demorar até que cada um de nós descanse em paz.

        Sétimo Conselho. Não são as atitudes desse homens - que são de interesse apenas da razão guia deles – que são a fonte de nossa irritação, senão as cores que nós mesmos impomos a eles. Elimine isso, consentindo em retirar qualquer pensamento sobre sua hediondez e a raiva desaparecerá de uma vez. Como efetivar tal rasura? Refletindo que você, pelo menos, ficou intocado. Pois, dado que nada é mal a não ser a desgraça moral, você mesmo seria culpado de uma horda de malfeitos – roubo e todo tipo de vilania.

        Oitavo Conselho. Nossa raiva e irritação é mais detratora para nós do que as próprias coisas que nos irritam e enraivecem.

        Nono Conselho. A bondade é irresistível enquanto for genuína e sem falsidade ou sorrisos sorrateiros. A mais contumaz impudência se torna impotente, se você se mantiver inabalavelmente gentil para com o ofensor. Dê-lhe um conselho gentil quando a oportunidade se oferecer e no momento em que ele estiver prestes a ventilar sua malícia sobre você traga-o para perto discretamente dizendo: “Não, meu filho; não foi para isso que você foi feito. Eu não serei ferido, é a você mesmo que está ferindo.” Demonstre cortesmente e com termos gerais como é assim e como até abelhas e outros animais gregários não se comportam como ele – no entanto, faça isso sem qualquer sarcasmo ou acusação, com verdadeira afeição e o coração livre de rancor. Não como faria um professor ou para admiração dos presentes, mas, mesmo que outros possam estar presentes, como se vocês estivessem sozinhos em particular.

        Mantenha esses nove conselhos em sua memória, como tantos outros presentes das Musas e enquanto a vida ainda está com você, comece finalmente a ser um homem. Porém ao guardar-se contra a raiva em relação aos outros, não seja menos cuidadoso em evitar bajulações. Um é tão contra o bem estar comum quanto o outro e ambos levam ao engano. Nos momentos de raiva, sempre tenha em mente que perder a cabeça não é sinal de virilidade e sim que há mais virilidade, assim como mais humanidade natural, naqueles que se demonstram gentis e pacíficos. Ele é que dá prova de força, nervo e hombridade, não seu companheiro irritado e descontente. Raiva é um sinal de fraqueza tão claro quanto a tristeza. Em ambos o homem recebe um ferimento e se submete à derrota.

        Em adição, receba isso, se quiser, como um décimo presente, dessa vez vindo do próprio líder das Musas: Esperar que homens maus nunca façam o mal é insensatez, é esperar o impossível. Tolerar suas ofensas contra os outros e não esperar nenhuma contra si é tão irracional quanto arbitrário.

      13. Há quatro aberrações do timoneiro de sua alma contra as quais você deve se defender e suprimir sempre que detectadas. Diga a elas uma por uma: “Esse é um pensamento que não é necessário”, “Esse iria minar a fraternidade”, “Essa não é a voz do meu verdadeiro eu” (pois falar qualquer coisa que não sejam seus verdadeiros sentimentos, lembre-se, é de tudo o mais errado), e, quarto, quando você estiver tentado a se reprovar: “Isso provaria que o divino elemento em mim foi derrotado e forçado a ficar de joelhos pela carne ignóbil e perecível junto com suas concepções grosseiras”.

      14. Embora a propensão natural de qualquer partícula aérea ou ígnea em sua composição seja subir, apesar disso são mantidas obedientes às ordens do Todo dentro do corpo que compõem. Por outro lado, toda as partículas terrenas e fluidas em você, apesar de sua tendência em afundar, são mantidas acima, ocupando uma posição que não é natural a elas. Assim até mesmo essas partículas obedecem às leis do Todo. Quando designadas a uma posição, elas necessariamente ficam lá até que o sinal de dissolução as chame de volta novamente. Não é grave, então, que a única parte de você que não é obediente e manda em sua própria esfera, deva ser a parte pensante? Nada violento é requerido dela, nada além do que esteja de acordo com sua própria natureza. E ainda assim não se submete, dado que rompe na direção contrária – pois o que são todos esses movimentos em direção à injustiça, intemperança, raiva, sofrimento ou medo senão divergências geniosas com a natureza? Quando o timoneiro da alma demonstra ressentimento contra algo que acontece a ela, nesse instante ele abandona seu posto, já que não foi menos feito para o divino e para reverência aos deuses do que para a justiça, e esses, sendo parte da ideia de fraternidade do universo, devem vir ainda antes da justiça.

      15. Se a vida de um homem não tem consistência ou foco e objetividade, ela mesma não pode ser consistente ou uniforme. Porém, essa afirmação não vai longe o bastante a menos que você possa adicionar algo sobre o que deveria ser esse foco. Não é sobre o amplo espectro de coisas que são geralmente consideradas boas que descobrimos existir a uniformidade de opinião, senão somente sobre coisas de um certo tipo: nomeadamente, aquelas que afetam o bem estar da sociedade. Logo, o foco que devemos nos propor deve ser o benefício de nossos semelhantes e da comunidade. Quem assim dirigir todos os seus esforços estará proporcionando uniformidade a todas as suas ações e conquistará consistência consigo mesmo.

      16. Lembre-se do encontro do rato do interior com o rato da cidade e a perturbação e agitação que isso o fez.

      17. Sócrates chamou crenças do homem da rua de “bobagem” para assustar crianças.

      18. Os Espartanos costumavam sentar seus convidados fora do sol em todos os espetáculos públicos. Quanto a eles mesmos, sentavam como podiam.

      19. Sócrates deu como razão para recusar um convite à corte de Pérdicas: “Não desejo ir para o túmulo com ignomínia”; subentendendo que ele não aceitaria qualquer favor que não pudesse retribuir.

      20. As escrituras dos Efésios contêm uma exortação a praticar a frequente recordação de um exemplo passado de alguma vida virtuosa.

      21. Os Pitagóricos contemplam os céus toda manhã para lembrá-los de quão pontual e fixamente esses corpos executam suas respectivas tarefas e também para dispor suas mentes à ordem, pureza e à nua simplicidade – pois nenhum véu cobre as estrelas.

      22. Pense em Sócrates, encoberto com pele de ovelha depois que Xântipe saiu com seu manto e o que ele disse a seus amigos quando recuaram embaraçados ao vê-lo assim arrumado.

      23. Ao ler e escrever você não pode criar regras antes de aprender a obedecê-las. Quanto mais em relação à vida.

      24. “Servil por natureza, a razão não é para ti.”

      25. “então riu meu coração dentro de mim.”

      26. “Abusarão da Virtude e a caluniarão com injúrias severas.”

      27. “O tolo busca figos no inverno; também o é aquele que procura filhos quando a estação já passou.”

      28. “Enquanto beijar seu filho,” Epiteto uma vez disse, “murmure, amanhã pode estar morto.” “Palavras agourentas”, lhe disseram. “Nem um pouco”, disse ele, “apenas significam um ato da natureza. Seria agourento falar de colher o milho maduro?”

      29. “Uva verde, cacho maduro, uva passa. A cada passo uma mudança, não no que não é, mas no que ainda será.”

      30. “O ladrão de seu livre arbítrio”, escreve Epiteto, “não existe.”

      31. Ele diz, também, que devemos desenvolver algum sistema adequado para uso de nossa aprovação. Acerca dos impulsos, devemos cuidar que sejam mantidos sempre sujeitos a modificação, livres de egoísmo e devidamente proporcionais aos méritos do caso. Os desejos também devem ser restringidos ao essencial e as aversões confinadas a assuntos que estejam sob nosso controle.

      32. “Não há trivialidade em questão aqui,” diz ele, “senão uma clara questão de sanidade ou insanidade.”

      33. “O que é de sua vontade ter?” Sócrates perguntaria. “Almas de homens racionais ou irracionais?” “Racionais.” “Homens racionais saudáveis ou doentes?” “Saudáveis.” “Então por que não vai procurar por eles?” “Por que já os temos.” “Nesse caso, então, por que toda essa sua controvérsia e hesitação?”


       Meditações, livro XII

      Meditações, livro XII

       Meditações - Livro XI

      Meditações - Livro XI


      Meditações, livro X. Expectativas e legado: a vida e a morte de um estoico.

      1. Ó, alma minha, você nunca será boa e sincera? Unida e acessível por completo, mais visível ao observador do que o corpo em carne e osso que te abrange? Você nunca experimentará a doçura de um coração amante e afeiçoado? Será que nunca se sentirá completa e livre de necessidades, nada desejando, não ansiando por nenhuma criatura ou coisa que sirva a seus prazeres, nenhum prolongamento para aproveitar os dias, nenhum lugar, país, clima ou companhia humana agradável? Quando você se contentará com seu estado atual, feliz em tudo, persuadida de que todas as coisas são suas, de que tudo vem dos deuses e de que tudo está e estará bem com você enquanto for prazeroso e ordenado por eles para a segurança e bem estar do Todo perfeito – tão bom, tão justo, tão bonito – que dá vida a todas as coisas, sustentando e envolvendo-as até que, à sua dissolução, as reúne em si para que outras de seu tipo possam ser geradas? Algum dia estará apta a tal sociedade com deuses e homens sem ter nenhuma sílaba de reclamação contra eles e nenhuma sílaba de reprovação vinda deles?

      2. Atente-se para o que sua natureza particular requer de você enquanto alguém completamente sob o governo da grande Natureza. Faça-o e aceite-o, dado que nunca oferecerá riscos à sua natureza física. Porém também dê atenção às necessidades daquela natureza física e assinta a todas elas, a menos que elas ofereçam prejuízos à natureza racional (e por racional implica-se diretamente o social também). Observe estas regras, sem desperdiçar sofrimentos com outras coisas.

      3. O que quer que te aconteça ou a Natureza te preparou para encarar ou não. Se algo desagradável acontece e está sob seus poderes de resistir, não ressinta-se, mas suporte isso como ela te permitiu fazer. Caso exceda esse poderes, ainda assim não dê espaço para ressentimento, já que a vitória sobre ti dará fim à própria existência. Lembre-se de que na verdade a Natureza te deu a habilidade de suportar qualquer coisa que seu julgamento consiga declarar suportável e tolerável ao considerar fazer isso como sendo um dever de seu interesse.

      4. Se um homem comete um deslize, advirta-o gentilmente e mostre a ele o erro. Se você falhar em convencê-lo, culpe-se, ou não culpe ninguém.

      5. O que quer que aconteça a você foi preparado para você desde o início dos tempos. No entrelaçamento da tapeçaria das causas, o fio de nosso ser foi entrelaçado desde sempre com aquele incidente em particular.

      6. Não importa se o mundo é uma confusão de átomos ou um desenvolvimento natural, desde que minha convicção primária seja a de que sou parte de um Todo que está sob o governo da Natureza. E a segunda, de que uma ligação de parentesco exise entre eu e todas as outras partes similares. Se eu tiver essas duas convicções em mente, então em primeiro lugar, sendo uma parte, não me sentirei ofendido por qualquer dispensa dada a mim pelo Todo, porque nada que seja benéfico para o todo pode ser danoso para uma parte e nesse caso não há contido nesse Todo que não seja benéfico a ele mesmo. (O mesmo, de fato, pode ser dito de qualquer organismo natural, porém a natureza do universo tem uma distinção a mais que é a de que não existe causa fora de si que poderia compeli-la a produzir qualquer coisa de danoso a si mesma). Então lembrando que sou parte de tal Todo, devo aceitar alegremente a minha fortuna. Em segundo lugar, dado que existe essa ligação de parentesco entre eu e as outras partes, não devo fazer nada que possa injuriar a comunidade, e manter essas partes sempre em vista, direcionando todo impulso no sentido de seu bem e longe de qualquer coisa que vá de encontro a elas. Assim fazendo, não poderei encontrar outra coisa que não a corrente de minha vida fluindo serenamente, tão serenamente quanto podemos imaginar a de um homem público cujas ações são constantemente úteis para seus concidadãos e que está pronto para dar as boas vindas a qualquer tarefa que sua cidade lhe designar.

      7. Qualquer parte do Todo – pelas quais quero dizer qualquer coisa naturalmente compreendida no universo – deve decair com o tempo ou, em termos mais precisos, deve sofrer uma mudança de forma. Se por sua natureza essa mudança, além de ser inevitável, fosse um verdadeiro mal para elas, o tranquilo trabalho do Todo nunca poderia avançar, pois suas partes sempre seguem em direção a uma mudança de forma ou outra e são todas constitutivamente passíveis de decair em suas respectivas maneiras. Então a Natureza, deliberadamente quis infligir dano às coisas que fazem parte de si, fazendo-as não apenas passíveis de mal mas inescapavelmente condenadas a ele ou pode ser que tais coisas aconteçam sem seu conhecimento? Nenhuma das duas suposições merece crédito. Mesmo supondo que não levemos em conta a Natureza, ainda é absurdo dizer que essa mutabilidade das partes do Todo é normal se ao mesmo tempo nos sentimos tão chocados ou ressentidos com isso como se fosse algum tipo de ocorrência sobrenatural. Tanto mais que o que todas as partes estão fazendo é meramente se dissolverem de volta nos constituintes de sua composição original. Pois se a dissolução não é simplesmente uma dispersão dos elementos dos quais sou composto, deve ser uma mudança das partículas brutas em forma-terrena e das espirituais em forma-aérea, para que todas possam ser reabsorvidas na Razão universal (Não importando se isso é serem periodicamente consumidas pelo fogo ou serem mantidas perpetuamente se renovando através de eternos ciclos de mudança). Entretanto, veja que essas partículas brutas e espirituais, não devem ser confundidas com as que recebemos ao nascer, dado que toda nossa presente estrutura derivou seu incremento de carnes e ar que consumimos ainda ontem ou anteontem. O que sofrerá essas mudanças não é algo que nossas mães agregaram originalmente, senão algo que viemos recebendo desde então. (Mesmo se admitirmos que o nascimento, de fato, nos entrelaça em grande medida com essas partículas intrínsecas, não penso que isso afete o que eu disse).

      8. Se você reivindica para si mesmo epítetos como bom, modesto, verdadeiro, possuidor de uma mente superior, serena e direita, tome cuidado para não desmenti-los e se você acabar por perdê-los nem perca seu tempo tentando reconquistá-los. Porém, lembre-se de que uma mente serena deve lhe sugerir uma consideração crítica de cada detalhe em sua especificidade e uma atenção vigilante a isso: mente direita é aceitar de bom grado tudo que a natureza lhe reserva; mente serena é elevar o intelecto acima dos afazeres carnais, sejam tranquilos ou extenuantes, e acima do orgulho, morte ou quaisquer outras distrações. Viva à altura dessas designações – porém sem desejar que os outros te rotulem por elas – e você será um homem diferente com uma vida nova. Seguir em seu presente estado, continuando a ser ferido e maculado por uma existência como essa é o comportamento de um tolo de coração fraco, isso cheira ao soldado que foi mutilado pelas bestas na arena e, coberto de sangue e ferimentos, ainda implora para viver até o dia seguinte quando apenas será jogado novamente, machucado e tudo, às mesmas presas e garras. Então suba nessa pequena jangada de atributos e se puder controlá-la, fique lá como se fosse transportado para as Ilhas Afortunadas. Porém caso sinta-se à deriva e incapaz de se manter na rota, crie coragem e vá para algum porto quieto onde você poderá dar conta de si ou até mesmo dar adeus à vida de todo, não de forma afetada, mas de maneira simples, livre e discreta, tendo ao menos esse sucesso em vida para seu crédito, uma partida decorosa. Para manter esses atributos sempre em mente, ajudará muito não esquecer os deuses. Lembrar que tudo o que desejam não é para ser ignorado, mas que tudo que possui razão deve se tornar como eles. E também lembrar que uma figueira é aquela que faz o trabalho de uma figueira, um cão o que faz o de um cão, uma abelha o da abelha – e um homem é aquele que faz o trabalho de um homem.

      9. Diariamente a tolice, o desentendimento, a timidez, a indolência e a servilidade que o cercam vão conspirar para apagar de sua mente aquelas máximas divinas que são apreendidas de modo não filosófico e que se abandona com tão poucos cuidados. O que o dever requer de você é que observe cada pequena coisa e faça cada ação de forma que, enquanto as demandas práticas da situação são completamente claras, os poderes do pensamento estejam, ao mesmo tempo, completamente exercitados. E também manter (reservadamente, embora sem perder de vista) a autoconfiança de quem domina todo detalhe relevante. Você nunca vai alcançar a felicidade de integridade e dignidade reais? De um entendimento que compreenda o mais profundo de cada ser, seu lugar na ordem-mundial, o termo de sua existência natural, a estrutura de sua composição e a quem pertence ou quem tem o poder de conceder ou retirar isso tudo?

      10. Uma aranha se orgulha de pegar uma mosca da mesma forma que certo homem em pegar uma lebre, outro em pescar um arenque e um terceiro em capturar javalis, ursos ou Samartianos. Se você observar os princípios em questão, não passam todos de ladrões?

      11. Crie o hábito de contemplar o processo universal de mudança. Seja assíduo em prestar atenção nisso e eduque-se meticulosamente nesse ramo de estudos. Pois quando o homem entende que a qualquer momento ele pode ter que deixar tudo para trás e abandonar a companhia de seus semelhantes, ele se desprende do corpo e a partir de então dedica-se por inteiro a ser justo em suas ações pessoais e agir de acordo com a Natureza em tudo o mais. Nenhum pensamento é desperdiçado no que os outros podem dizer, pensar ou fazer contra ele. Apenas duas coisas o satisfazendo: justiça em seus afazeres diários e o contentamento com a sorte que o destino lhe reserva. Toda preocupação e distração são deixadas de lado, sua única ambição é seguir os caminhos direitos da lei e, fazendo isso, se tornar um seguidor de Deus.

      12. Qual a necessidade de divagações quando o caminho de seu dever está em vista? Se o caminho for visto sem impedimentos, siga adiante com boa vontade e sem olhar para trás; se não, espere e reúna os melhores conselhos que puder. Se obstáculos surgirem futuramente, avance discretamente até os limites de seus recursos, sempre seguindo para onde a justiça parece apontar. Alcançar a justiça é o auge do sucesso, dado que o erro acontece mais frequentemente nessas situações.

      13. Comece o dia perguntando-se “A conduta justa e correta de outra pessoa pode fazer diferença em mim?” Não pode. Lembre-se de que os homens que estão sempre arrogantemente preparados para louvar ou censurar. Agem da mesma maneira em suas vidas privadas, na cama e no conselho. Relembre as coisas que eles fazem, as coisas que evitam ou que buscam e as bandidagens e depredações que cometem – não necessariamente com mãos e pés, mas com aquilo de mais precioso que possuem, que, caso queira o homem, é a fonte da fé, da modéstia, da verdade, da lei e do bem estar da divindade dentro de si.

      14. Para a Natureza, de onde vêm todas as coisas e para onde tudo retorna, o grito do coração humilde e bem instruído é: “Concedas como quiseres, tomes de volta como desejares” e dito sem heroísmo, pois é pura obediência e boa vontade.

      15. Agora são poucos os anos que te restam. Viva-os, então, como do alto de uma montanha. Se a sorte de um homem é dada nesse ou naquele lugar não tem importância, desde que em todos os lugares ele veja o mundo como uma cidade e ele seu cidadão. Dê aos homens a chance de verem e conhecerem um homem de verdade, vivendo sob a lei da Natureza. Se eles não suportarem a visão, deixe-os acabarem com ele. Melhor assim do que viver como um deles.

      16. Não perca tempo discutindo como deve ser o homem bom. Seja um.

      17. Faça sua mente constantemente habitar em todo o Tempo e em todo o Ser, para assim aprender que cada coisa separada não passa de um grão de areia em comparação ao Ser e é como uma simples volta do parafuso em comparação com o Tempo.

      18. Apreenda a natureza de todas as coisas materiais, observando como cada uma delas está, mesmo agora, sofrendo dissolução e mudança e já está em processo de decaimento ou dispersão ou qualquer outro destino natural que lhe esteja reservado.

      19. Comendo, dormindo, copulando, excretando e coisas do tipo, que horda são! Como são pomposos em sua arrogância, insuportáveis, tirânicos e altivos ao censurar os outros! Um momento atrás, quantos pés não estavam lambendo – e para quais fins! - mais um pouco e eles estarão fazendo tudo de novo.

      20. Para cada homem e cada coisa o que a Natureza faz é para seu próprio bem. Além disso, faz para seu bem no momento preciso em que acontece.

      21. “A Terra está apaixonada pelos aguaceiros que vêm de cima,
        E o próprio Céu divino também”

        Ou seja, o universo ama verdadeiramente a sua tarefa de formar o que quer que esteja por vir e minha resposta para o universo deve ser:

        “Como tu amas, também amo eu.” (Não é a mesma noção que está presente no ditado que diz que tais e tais coisas “amam acontecer”?)

      22. Ou você continua vivendo aqui, sob os costumes a que você já se adaptou o bastante ou muda-se para outro lugar de sua livre escolha ou morra, o que significa que seus serviços estão chegando ao fim. Não há outra escolha, então encare com tranquilidade.

      23. Que seja claro para você que a paz campestre sempre pode ser sua, nesse, naquele ou em qualquer outro lugar e que nada é diferente aqui do que seria seja sobre as montanhas, na costa ou onde quer que deseje. Encontrará o mesmo pensamento em Platão, onde ele fala de viver dentro das muralhas da cidade “como a estar ordenhando seus rebanhos em um redil da montanha.”

      24. O que minha razão-mestra é para mim? Como a estou usando nesse momento? Com qual finalidade? Ela está se mostrando insensata? Ela está se mostrando distante dos laços de fraternidade? Ela se tornou tão envolvida e parecida com a carne que passou a refletir seus desvios e vacilações?

      25. Um servo que se liberta de seu mestre é um fugitivo. Para nós, o mestre é a lei e, consequentemente, qualquer infrator da lei é um fugitivo. Entretanto, sofrimento, raiva ou medo são rejeições de algo que - no passado, no presente ou no futuro – foi decretado pelo poder que dirige o universo – em outras palavras, pela Lei, que designa a cada criatura o que lhe é devido. Logo, dar espaço para o medo, sofrimento ou raiva é tornar-se um fugitivo.

      26. Um homem deposita sua semente na barriga de uma mulher e segue adiante, a partir daí outra causa passa a agir e traz um bebê perfeito – que transformação! O mesmo homem coloca comida goela abaixo e novamente alguma outra causa passa a agir e converte isso em sensação e movimento e, resumindo, em vida, vigor e outros produtos que são muitos e variados. Leve em consideração esses processos, que são forjados de maneiras tão misteriosas e apreenda o poder que está trabalhando ali, da mesma forma que discernimos as forças que atraem os objetos para o chão ou para cima – não com os olhos, óbvio, entretanto não menos claramente.

      27. Costume refletir sobre como a vida hoje é uma repetição do passado e observe que isso também pressagia o que está por vir. Reveja os vários dramas por inteiro e seu contexto, todos tão similares, que você conheceu a partir de sua própria experiência, ou pela história passada: todo o círculo da côrte de Adriano, por exemplo, ou a corte de Antonino ou as cortes de Filipe, Alexandre, Creso. A execução é sempre a mesma, somente os atores mudam.

      28. Quando você observar um homem demonstrando raiva ou ressentimento por qualquer coisa, pense em um porco esperneando e guinchando sob a faca sacrificial. Outro que se aninha solitário em seu sofá, lamentando silenciosamente nossa servidão, não é diferente. Somente aos seres racionais é assegurado o poder de se conformar voluntariamente com as circunstâncias, a própria conformidade sendo uma necessidade severa exigida de toda coisa criada.

      29. Sempre que tiver algo em mãos, pare a cada passo e pergunte-se: “É a ideia de deixar isso para trás que me faz odiar a morte?”

      30. Quando o erro de alguém te ofender, contemple a si mesmo e busque quais defeitos semelhantes são encontrados em você. Você, também, encontra seu bem em riquezas, prazeres, reputação ou coisas do tipo? Pense nisso e em breve sua raiva será esquecida sob a reflexão de que ele apenas está agindo sob pressão. O que mais ele poderia fazer? Alternativamente, se puder, planeje uma forma de livrá-lo dessa pressão.

      31. Permita que a visão do Golfo Sátiro recorde a visão dos mortos Socráticos ou Eutíquio ou Hímen. A visão do Eufrates trazer ã mente Eutíquio ou Silvano, que um olhar a Severo, lembre-te de Crito ou Xenofonte. Quando se ver, lembre-se dos imperadores que o precederam. Assim, com todo homem, imagine sua contraparte e então siga refletindo: “Onde estão todos eles agora?” Lugar algum – ou qualquer lugar. Dessa forma você se acostumará a olhar para tudo que é mortal como vapor e nada e tanto mais que se você quiser se lembrará de que uma vez mudadas as coisas elas estão para sempre fora de alcance. Então por que resistir e se retesar, ao invés de estar contente em viver nossos poucos momentos de forma decorosa? Pense nos materiais e possibilidades para o bem que você está rejeitando. Porque o que são todas as suas tribulações senão exercícios para o treinamento da sua razão uma vez que ela tenha aprendido a ver as verdades da vida sob a luz filosófica apropriada? Seja paciente, então, até que você as tenha tornado familiares e naturais para si mesmo, da mesma forma que um estômago forte pode assimilar qualquer tipo de dieta ou um fogo alto pode transformar tudo que é arremessado a ele em calor e chamas.

      32. Não deixe que ninguém tenha o direito de dizer, sem faltar à verdade, que você não é íntegro ou bondoso. Se alguém pensar esse tipo de coisa, assegure-se de que sejam infundadas. Isso só depende de você, pois o que mais pode te impedir de alcançar a integridade e a bondade? Se você não pode viver assim, não há mais porque viver, já que nesse caso nem mesmo a razão poderia desejar sua continuação.

      33. O que é o melhor possível a ser dito ou feito com os materiais à sua disposição? Seja lá o que for, você tem o poder de dizer ou fazer. Não deixe haver nenhum pretexto de que você não seja um agente livre. Essas lamúrias suas serão infidáveis até o momento em que cumprir as tarefas naturais do homem usando quaisquer materiais que estejam à mão se torne tão importante para você quanto os prazeres são para o voluptuoso. (De fato, todo exercício de nossos devidos instintos naturais deve ser considerado como uma forma de prazer e as oportunidades para isso estão presentes em todo lugar). Um rolo, para ter certeza, nem sempre tem o privilégio de se mover como quer, nem a água, nem o fogo ou qualquer outra coisa que esteja sob o comando de sua própria natureza ou de uma alma sem razão, pois há muitos fatores que intervêm para prevenir isso. No entanto, uma mente e uma razão podem encontrar um caminho através de quaisquer obstáculos, como sua natureza os permite e sua vontade as induz a fazer. Defina para si como a razão encontra um caminho para cada barreira tão tranquilamente quanto o fogo se amontoa e sobe, ou uma pedra cai, ou um rolo desce um morro e se contente em não perguntar mais nada. Em quaisquer casos as interferências ou afetam apenas o corpo – que não passa de uma coisa inanimada – ou são impotentes para nos destruir ou prejudicar a não ser que sejam ajudadas por nossos preconceitos e a rendição da própria razão. Se fosse o contrário, seu efeito sobre o indivíduo seria danoso e embora saibamos que pelo resto da criação a ocorrência de qualquer contratempo envolve alguma piora de sua vítima, já no caso do homem podemos até dizer que ele se torna melhor e mais louvável pelo uso correto que faz da adversidade. Em suma, nunca esqueça que nada pode prejudicar o verdadeiro cidadão se não prejudica a própria cidade e nada pode prejudicar a cidade se não infringe a lei. O que chamamos de contratempos não infringem a lei, logo não causam danos nem à cidade nem ao cidadão.

      34. Uma vez que os verdadeiros princípios tenham sido gravados na mente, mesmo o menor lugar comum bastará para relembrar a futilidade dos arrependimentos e dos medos, tais como, por exemplo: “O que são os filhos do homem, senão folhas que caem ao soprar do vento?”. Seus amados filhos foram apenas folhas desse tipo, folhas, também, são as multidões, aquelas vozes querendo ser convincentes que gritam suas aclamações, lançam seus xingamentos ou escarnecem e mal dizem em segredo. Folhas, novamente, são todos aqueles em cujas mãos sua fama deve cair em breve. Todos “florescem na estação primaveril”, os vendavais os derrubam e sem demora a floresta repõe novo verde em seus lugares. Impermanência é o distintivo de todos e mesmo assim você os busca, ou foge deles, como se fossem durar toda a eternidade. Um momento e seus olhos se fecharão e pelo homem que te carrega para seu túmulo, também, em breve cairão as lágrimas.

      35. O dever de um olho saudável é enxergar tudo que é visível e não pedir que tudo seja apenas verde, pois isso apenas caracteriza uma visão com problemas. Da mesma maneira a audição e o olfato, se saudáveis, devem estar alertas para todo tipo de sons e odores e um estômago saudável para todos os tipos de carnes, como um moinho que mói qualquer grão de acordo com sua estrutura. Da mesma forma uma mente saudável deve estar preparada para qualquer coisa que aconteça. Uma mente que clama “Ó, que meus filhos sejam poupados” ou “Que o mundo cante louvores para todos os meus atos”, é como o olho que deseja apenas o verde ou um dente desejando apenas coisas moles.

      36. Nenhum homem é tão afortunado que ao lado de seu leito de morte, não tenha alguns que se felicitem com a perda por vir. Ele era virtuoso, digamos, e sábio; mesmo assim, no fim não haverá um que não murmure sob seu nariz, “Finalmente podemos respirar livremente sem nosso mestre! Claro, ele nunca foi duro com nenhum de nós, mas eu sempre senti que ele tinha um desprezo silencioso contra nós”. Tal é o destino do virtuoso. Já para o resto de nós, quantas outras razões não são boas o bastante para fazer alguns de nossos amigos felizes em se livrarem de nós! Pense nisso quando vier a morrer. Será mais fácil partir ao refletir: “Estou deixando um mundo no qual os próprios companheiros por quem tanto trabalhei, rezei e pensei, me querem longe e esperam ganhar algum alivio depois, então como pode algum homem lutar para estender seus dias aqui?”. Porém não vá, por isso, partir tendo sua bondade diminuída para com eles. Mantenha sua bondade, boa vontade e caridade de costume e não sinta a partida como um puxão, deixe que seja como aquelas mortes indolores nas quais a alma desliza facilmente do corpo. Inicialmente a Natureza o juntou a esses homens e o fez um deles. Agora, ela afrouxa o laço. Estou livre de meus próprios parentes, porém sem resistir ou forçar. É apenas mais um dos caminhos da Natureza.

      37. Em qualquer ação, não importa por quem seja feita, torne um hábito se perguntar: “Qual o objetivo dele ao fazer isso?” Porém comece por si mesmo, questione-se dessa forma antes de qualquer coisa.

      38. Lembre, é a força secreta escondida dentro de nós que manipula nossas cordas. Lá reside a voz da persuasão, a própria vida, lá, podemos dizer, está o próprio homem. Nunca a confunda em sua imaginação com seu invólucro carnal ou com os órgãos que aderem a ele, que embora estejam conectados ao corpo, são tão instrumentos dele como é o machado para o lenhador. Sem o agente que incita ou limita suas emoções, as partes não têm utilidade maior do que a fiadeira para o tecelão, a pena para o escritor ou o chicote para o carroceiro.


       Meditações - Livro XI

      Meditações - Livro XI

       Meditações - Livro IX

      Meditações - Livro IX


      Cartas de Caio F. Abreu a Hilda Hilst: angústia, fama e um encontro com Clarice Lispector

      Digo a todos os repórteres que não me sinto um escritor: que sou só um ser humano procurando um jeito de viver.
      — Caio Fernando Abreu
       Caio Fernando Abreu

      Caio Fernando Abreu

      Parece muito sonhar com conversas e vivências compartilhadas entres nossos autores, artistas, inspirações, aquele tipo de interação que sabemos, encontra caminho até suas obras, mas que também se perde no tempo. Felizmente, cartas, entrevistas, filmagens apaziguam um pouco dessa saudade pelo que não vivemos. Nessa linha encontrei a pequena publicação “Três vezes Hilda” da Companhia das Letras que gira em torno da memória de Hilda Hilst e sua amizade com o escritor Caio Fernando Abreu.

      As cartas que Caio F. Abreu manda a Hilda Hilst têm sempre um pedido de retorno, uma ponta de insatisfação com o que ele considera o silêncio de Hilda, entretanto, há também momentos de quase terapia onde Caio se abre com a amiga e elabora suas próprias experiências num impulso que parece tanto um pedido de compreensão quanto uma tentativa de lidar consigo mesmo.

      “Hildinha, se você soubesse como ando escuro, como ando perdido, como me distanciei de mim e das coisas em que acreditava: tenho participado de festas louquíssimas, na base da maconha, da nudez, jogo da verdade, bacanais, surubas. Por favor, queria tanto que me compreendesses. Ando muito sozinho, nessas festas se reúnem artistas plásticos, atores, atrizes, escritores - todos jovens, perdidos, desesperados - é uma coisa terrível. Chega a ser comovente a maneira errada como eles tentam se convencer que os bacanais são a forma mais absoluta de comunicação: finjo o tempo todo, rio, sou alegre, dispersivo, com aquele brilho superficial e ridículo. E em cada fim de noite me sinto um lixo. Há tempos estou vivendo uma estória-de-amor-impossível que rebenta a saúde: sei que não dá pé de jeito nenhum e não consigo me libertar, esquecer - estou completamente fixado nessa pessoa, vivo todas as horas do dia em função de encontrá-la, à noite. É insuportável.”
       Hilda Hilst

      Hilda Hilst

      Certas passagens das cartas de Caio Fernando Abreu não destoariam se estivessem em um diário, um sinal da intimidade que o autor tinha com Hilda Hilst e também da certeza de que suas preocupações e dificuldades também ressoavam com a amiga.

      “Vivi a experiência de uma tarde de autógrafos: me senti tolhido, constrangido, inibido. A imprensa anda me badalando muito. Mas descobri finalmente como tudo isso quer dizer pouco: o bom no escrever é o momento da criação, da vibração, da comunicação com incognoscível que nos dita as coisas a serem escritas - o resto é lixo. A inveja é um fato: certas pessoas têm me agredido muito, na faculdade, na rua, geralmente intelectuais no mau sentido, frustrados e medíocres. Tenho horror desses rebucetes, rodinhas e frescuras literárias: procuro ficar na minha, sempre. Digo a todos os repórteres que não me sinto um escritor: que sou só um ser humano procurando um jeito de viver.”

      Em 29 de Dezembro de 1970, Caio Fernando Abreu relata a Hilda Hilst seu encontro com Clarice Lispector em uma sessão de autógrafos da escritora e como Clarice o marcou profundamente. Através da descrição que Caio faz de Clarice vislumbramos como o autor lia a obra de Hilda Hilst e até algo da possível influência que tiveram sobre ele.

       Clarice Lispector

      Clarice Lispector

      “Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipacíssima mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto.”

      Para Caio, Clarice Lispector é como os livros de Hilda Hilst: linda, profunda, estranha, perigosa. De uma carta basta um detalhe como esse para irmos de uma comunicação qualquer para uma declaração, um documento.

      Caio Fernando Abreu que, perseguido pelo DOPS, havia se refugiado na Casa Sol de Hilda Hilst em 1968, enviou em março de 73 uma carta de despedida à amiga, partindo do Brasil sem saber se retornaria.

      “As agressões e repressões nas ruas são cada vez mais violentas, coisas que a gente lê um dia no jornal e no dia seguinte sente na própria pele. A gente vai ficando acuado, medroso, paranoico: eu não quero ficar assim, eu não vou ficar assim. Por isso mesmo estou indo embora. Não tenho grandes ilusões, também não acredito muito que por lá seja o paraíso - mas sei que a barra é bem mais tranquilo e, enfim, vamos ver. Acho que o mundo está aí para ser visto e curtido, antes que acabe. Vou consciência tranquila, sabendo que dentro de todo o bode fiz o que era possível fazer por aqui. E não sei quando volto. Nem se volto.”

      Podia ter sido escrita hoje, mas essa carta é de 1973. Caio Fernando Abreu retornaria ao Brasil.

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