Filosofia

Como o xamanismo pode nos enriquecer e a proximidade entre o artista e o xamã, uma leitura de Terence Mckenna.

Uma reverência por e uma imersão nos poderes da linguagem e da comunicação são o alicerce do caminho xamânico.
— Terence Mckenna
 

Terence Mckenna é à primeira vista uma figura exótica, pisando ora em ciência sólida ora em argumentos difíceis de defender, entretanto, o que sobrevive de sua obra e de si é cada vez mais aquele veio central onde confluem tanto suas experiências pessoais e antropológicas com drogas psicodélicas, povos remotos e um olhar afiado aliado à sua característica humildade intelectual e uma tremenda vontade de saber que deram origem a um pensamento importante, perigoso e por vezes irregular, mas extremamente instigante.

 Terence Mckenna

Terence Mckenna

Sua viagem pela bacia amazônica, bem como seu contato com rituais e drogas locais renderam muitos textos e uma mudança completa na sua forma de ver o mundo. Segundo o próprio Mckenna, uma dessas mudanças está no cerne do seus textos, onde ele vê no xamanismo primitivo uma aproximação tanto da medicina quanto da arte, ainda que detendo características marcadamente suas e, a princípio, abandonadas por nossas sociedades contemporâneas.

“Nós temos a imagem do curandeiro como sendo o profissional de saúde que, através da detenção de conhecimento especial, pode curar. Mas o conhecimento especializado do médico moderno é conhecimento clínico, desconectado do drama de cada pessoa em particular.
O xamanismo é diferente. Normalmente, se drogas forem usadas, o xamã, não o paciente, é que tomará a droga. A motivação também é totalmente diferente. As plantas usadas pelo xamã não pretendem estimular o sistema imunes do corpo ou outras defesas naturais com a doença. Na verdade as plantas xamânicas permitem ao curandeiro viajar a um domínio onde a causalidade do mundo comum é substituída pela lógica da magia natural. Nesse domínio a linguagem, as ideias e o significados têm mais poder que a causa e o efeito.”

O xamanismo com sua lógica própria de uma linguagem geradora de realidades e ideias desconectadas ou reelaboradas daquilo que chamamos realidade aponta um caminho de conexão e entendimento que justamente por se desprender do tecido do dia a dia tem o ar de abertura e extensão da mente, um objetivo de compreensão que lembra muito os ensinamentos do imperador Marco Aurélio em suas Meditações.

“Liberdade, responsabilidade pessoal e uma humildade consciência dos verdadeiros tamanho e inteligência do mundo combinam nesse ponto de vista para torná-lo uma base própria à autêntica vida neo-Arcaica. Uma reverência por e uma imersão nos poderes da linguagem e da comunicação são o alicerce do caminho xamânico.”
 Mural de Jackson Pollock

Mural de Jackson Pollock

A vida neo-arcaica que Mckenna aponta parece avançar as fronteiras do que se tem por arte hoje, uma tentativa de abstração que cria uma forma de aproximação bem como de comunicação, uma ponte entre o xamanismo arcaico e práticas contemporâneas ou, como já dizia Hilda Hilst: Faço perguntas possíveis a mim mesma: se eu falasse com a voz do mundo, como falaria?”

“Por isso o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista. Nossa necessidade de nos sentirmos parte do mundo parece demandar que nos expressemos através da atividade criativa. A essência dessa criatividade está escondida no mistério da linguagem. O êxtase xamânico é um ato de rendição que autentica tanto o ser individual quanto aquilo a que se rende, o mistério do ser.”

“O alimento dos Deuses” segue a linha de outros escritos de Terence Mckenna: provocador, autêntico e livre. O livro exige também um jogo de cintura de seu leitor e um olhar aguçado para ver sob as melhores perspectivas o que há de valioso em seus textos, porém basta saber que há ali mais do que apologia e pseudociência, pois mesmo quando o tempo cai pesado sobre o texto resta a mentalidade, o raciocínio que põe a funcionar toda aquela linha de pensamento.


 O barro só sabe de si quando homem - Felipe V. Almeida

O barro só sabe de si quando homem - Felipe V. Almeida

Meditações, livro IX. Fraternidade, expectativas e a natureza do ser.

Livro IX

  1. A injustiça é um pecado. A Natureza constituiu seres racionais para seu benefício mútuo, cada um ajudando seu semelhante de acordo com seu merecimento e de modo algum fazendo-lhe mal. Contrapor a vontade dela é simplesmente pecar contra a mais velha de todas as deidades. A falsidade também é pecado e contra a mesma deusa pois a Natureza é a natureza da própria existência e a existência conota toda a linhagem dos seres criados. Verdade é somente outro nome para essa Natureza, a criadora original de todas as coisas verdadeiras. Então mentir de propósito é pecado porque enganar é um ato de injustiça, também a mentira involuntária é pecado porque é uma nota discordante na harmonia da Natureza e cria desordem sediciosa em um universo ordenado. De fato, é sedicioso quando um homem se deixa levar, mesmo que involuntariamente, a uma posição contrária à verdade, vendo que ele negligenciou a tal ponto as faculdades que a Natureza lhe deu que não é mais capaz de distinguir entre o falso e o verdadeiro.

     

    Reiterando, é pecado perseguir o prazer como se fosse bom e evitar a dor como um mal. Isso está fadado a gerar reclamações de que a Natureza é injusta ao recompensar o vício e a virtude, dado que é o malvado que frequentemente aproveita dos prazeres e dos meios de obtê-los enquanto as dores e eventos que ocasionam dores sobrevêm aos bons. Além do mais, se um homem teme a dor, por conseguinte teme que aconteça algo que será parte da ordem prevista das coisas e isso é, por si mesmo, pecado. Se ele está ocupado em buscar o prazer, não irá parar diante de atos de injustiça, que são pecados. Não, quando a própria Natureza atua indistintamente – pois se não atuasse assim, ela não teria feito existirem dores e prazeres lado a lado – isso convém aos que seguiriam seus passos, pensariam parecido e exibiriam a mesma indiferença. Logo, aquele que não vê com igual preocupação a dor e o prazer, a morte ou a vida, a fama ou a desonra – todos empregados pela Natureza sem qualquer parcialidade – claramente comete um pecado. E ao dizer que a natureza emprega-os sem qualquer parcialidade, quero dizer que sucessivamente toda geração de seres criados passará igualmente pelas mesmas experiências, pois esse é o resultado do impulso original que no início moveu a Providência – por pegar certos germes de futuras existências e dotá-los com os poderes produtivos de autorealização, mutação e sucessão – para progredir do princípio do universo até o atual sistema ordenado.

     

  2. Um homem de sentimentos refinados teria abandonado esse mundo antes mesmo de tomar conhecimento da falsidade, interesse, luxúria e orgulho, embora agora que todos esses foram experimentados até a saciedade o melhor caminho à frente é acabar com a própria vida imediatamente. Ou você realmente está decidido a morar em meio à iniquidade? A experiência não te ensinou a fugir da pestilência? Pois a infecção da mente é uma pestilência muito mais perigosa do que qualquer insalubridade ou desordem na atmosfera ao nosso redor. Enquanto animais, uma ataca nossas vidas, entretanto, como homens a outra ataca nossa humanidade.

     

  3. Não despreze a morte, sorria ao vê-la vindo. Ela está entre as coisas que a Natureza deseja. Como a juventude e a velhice, o crescimento e a maturidade, como o advento dos dentes, barba e cabelos grisalhos, como a concepção, gravidez e nascimento, como qualquer outro processo natural que as estações da vida nos trazem, assim também é com a nossa dissolução. Então, um homem pensante nunca verá a morte com descuido, impaciência ou escárnio. Esperará por ela como sendo mais um dos processos da Natureza. Da mesma forma como você espera que o bebê saia da barriga de sua esposa, também espere pela hora em que a alma deslizará para fora de seu invólucro.

     

    Porém se seu coração prefere conforto mais simples, então não há melhor consolo perante a morte do que pensar na natureza do ambiente que você está deixando para trás e as pessoas que você não terá mais que tolerar. Não que você os devesse considerar ofensivos, melhor, seu dever é se importar com eles e suportá-los, no entanto, nunca esqueça que você está se despedindo de homens com princípios muito diferentes dos seus. Uma coisa, se houver alguma, pode ter mantido você ligado à vida: a chance de confratenizar com mentes parecidas com a sua. Porém quando você contempla o fardo de uma existência em companhias tão discordantes, você grita: “Venha rápido, Morte, antes que eu também me torne esquecido de mim mesmo.”

     

  4. O pecador peca contra si mesmo. O errado erra em si mesmo, se tornando pior por sua própria atitude.

     

  5. Não se peca apenas ativamente, às vezes também acontece omitindo-se.

     

  6. É o bastante se sua opinião atual é baseada em convicção, sua atitude atual é altruísta e sua disposição do momento está contente com qualquer coisa externa que aconteça a você.

     

  7. Apague o falso, freie o impulso, resfrie os desejos e deixe a razão soberana assumir o controle.

     

  8. Um único princípio de vida é dividido entre todas as criaturas irracionais e um único principio mental é distribuído entre as racionais. Assim como essa terra dá forma a todas as coisas terrenas e como todos nós que vemos e respiramos enxergamos através da mesma luz e do mesmo ar.

     

  9. Todas as coisas que compartilham o mesmo elemento tendem a buscar seu semelhante. Coisas terrenas gravitam em direção à terra, coisas aquosas fluem umas para as outras, assim como as coisas aéreas – por isso a necessidade de barreiras para forçarem sua separação. A tendência das chamas é se amontoar em direção ao céu, por causa do fogo elementar, mesmo aqui embaixo, elas estão tão impacientes em busca da companhia de seus semelhantes que qualquer tipo de material, se estiver razoavelmente seco, irá incendiar-se com facilidade, dado que apenas uma ínfima parte de seus ingredientes é resistente ao fogo. Da mesma forma todas as partes da Mente universal são atraídas umas para as outras. Mais fortemente, de fato, já que, estando mais alto na escala da criação, sua impaciência em juntar-se e combinar-se com seus afins é proporcionalmente mais aguda. Esse instinto gregário demonstra-se em seu primeiro estágio entre as criaturas irracionais, quando vemos um enxame de abelhas, uma manada de gados, revoadas pássaros fazendo colônias e casais copulando. Porque neles a alma emergiu e em tais formas de vida relativamente superiores seu desejo de união é encontrado em um nível de intensidade que não se faz presente em paus ou pedras. Em se tratando de seres racionais, há as associações políticas, confrarias, vida familiar, reuniões públicas e em tempos de guerra os tratados e armistícios. Entre as ordens ainda mais superiores, existe um grau de unidade até mesmo entre corpos muito afastados uns dos outros – como, por exemplo, as estrelas. Tal ascensão na hierarquia da criação pode induzir ao sentimento de fraternidade até onde não há proximidade.

     

    Agora veja o que acontece. Fomos nós – nós, seres inteligentes – os únicos que esquecemos esse zelo mútuo pela unidade, apenas entre nós as correntes não parecem convergir. Ainda assim, embora o homem possa fugir quanto quiser, é pego e fixado, a Natureza é muito forte para ele. Observe com cuidado e verá: mais rapidamente encontrará um fragmento de terra isolado do resto do que um homem que não tenha ligação alguma com seus semelhantes.

     

  10. Tudo frutifica: o homem, Deus, todo o universo, cada um em sua estação adequada. Não importa que a frase esteja restrita ao uso comum para se referir a videiras e coisas do tipo. A Razão também dá frutos, tanto para si quanto para o mundo, dado que dela colhem-se muitas coisas boas, elas mesmas carregando a marca da razão.

     

  11. Ensine-os a serem melhores, se puder. Se não, lembre-se que a bondade lhe foi dada para momentos como esse. Os próprios deuses são benevolentes com tais homens e às vezes são tão indulgentes que até mesmo os ajudam em suas empreitadas para garantir saúde, riqueza e reputação. Isso você também pode fazer, quem estará lá para te impedir?

     

  12. Trabalhe intensamente, porém não como se fosse uma vítima e não com o desejo de simpatia ou admiração. Deseje apenas uma coisa: que tanto suas ações quanto suas inações sejam dignas de um cidadão racional.

     

  13. Hoje eu consegui sair de minhas perplexidades, ou melhor, tirei de mim as perplexidades – pois elas não estavam fora e sim por dentro, estavam na minha própria perspectiva.

     

  14. Tudo é banal de se experimentar, curto em duração ou sórdido de conteúdo. Hoje sendo tudo o mesmo que era quando gerações há muito mortas e enterradas encontraram.

     

  15. Os fatos são completamente externos a nós, são o que são, nada mais, não sabem nada sobre si mesmos e não julgam nada de si mesmos. O que, então, faz esse julgamento? Nossa própria guia e soberana, a razão.

     

  16. Um ser racional e social não é afetado em si mesmo por seus sentimentos nem para melhor nem para pior, mas por sua vontade. Assim como seu comportamento exterior, bom ou ruim, é produto da vontade, não dos sentimentos.

     

  17. Para uma pedra arremessada há tanto mal em cair quanto há bem em ascender.

     

  18. Penetre no íntimo da mente deles e verá que tipo de crítica você está temendo e até onde vai a capacidade de criticarem a si mesmos.

     

  19. Tudo está em processo de mudança. Você mesmo está sob incessante transformação e decomposição de algumas de suas partes. Também é assim com todo o universo.

     

  20. Deixe estar o erro dos outros.

     

  21. Na interrupção de uma atividade ou em sua descontinuação, como se fosse a morte de um impulso ou de uma opinião, não há mal algum. Rememore as fases de seu crescimento: infância, pré-adoslescência, adoslescência, juventude, velhice: cada mudança uma espécie de morte. Foi tão amedrontador assim? Ou pense nas vidas que você viveu com seu avô, então com sua mãe e depois com seu pai. Trace as numerosas diferenças, mudanças e descontinuações que haviam naqueles dias e pergunte-se: “Foram tão assustadoras?” Então também não será o cessar, a interrupção, a mudança da própria vida.

     

  22. Sua própria mente, a Mente do universo, a mente do próximo – esteja pronto para explorar todas elas. A sua para que você possa moldá-la para ser justa; a do universo, para que se lembre do que você faz parte; a de seu próximo para que você entenda se é informada pela ignorância ou pela sabedoria e também para reconhecer que é semelhante à sua.

     

  23. Sendo uma unidade você contribui para completar o todo social. Similarmente, toda atitude sua deve ajudar a completar a vida social. Toda ação que não esteja relacionada nem direta nem remotamente a esse fim social acaba por desarticular aquela vida e destruir sua unidade. É um ato císmico assim como quando algum cidadão em uma comunidade vai aos extremos para se dissociar da harmonia geral.

     

  24. Disputas infantis, jogos pueris, “fôlegos insignificantes sustentando defuntos” - oras, até os fantasmas em Homero são mais reais!

     

  25. Primeiro procure a natureza e a qualidade da causa original, separe-a do material que ela formou e estude-a. Então determine a possível duração de seus efeitos.

     

  26. Os sofrimentos que você teve de suportar são inumeráveis porque você não se contentou em deixar a razão, sua guia e mestra, fazer seu trabalho natural. Chega, não faça mais isso!

     

  27. Quando aqueles que o cercam passam a direcionar censuras e malícias contra você ou levantam qualquer outro clamor injurioso, aproxime-se e vá fundo em suas almas para ver que tipo de homens são. Encontrarás pouca razão para buscar que tenham uma boa opinião sobre você. Ainda assim, continua sendo seu dever pensar com benevolência sobre eles, pois a Natureza os fez para serem seus amigos e até mesmo os deuses os ajudaram de toda forma, por sonhos e previsões a alcançarem os fins pelos quais seus corações estão comprometidos.

     

  28. Acima e abaixo, de era a era, os ciclos do universo seguem seu circuíto imutável. Pode ser que a Mente-Mundial deseje cada acontecimento separadamente e em sucessão. Se for assim, aceite as consequências. Ou, pode ser, foi apenas um o ato primordial de vontade a partir do qual tudo é apenas uma sequência, cada evento sendo, então, a semente do próximo. Falando de outra maneira, ou as coisas são unidades isoladas ou formam um todo inseparável. Se esse todo é Deus, então tudo está bem, entretanto se for o acaso, ao menos você não precisa viver da mesma forma arbitrária.

     

  29. A Causa primordial é como um rio transbordante: leva tudo que está pelo caminho. Como são ignóbeis os homenzinhos que brincam com política e persuadem-se de que estão agindo de acordo com o verdadeiro espírito da filosofia. Bebês, incapazes de assoar os próprios narizes! E agora, você que é homem? Oras, faça o que a natureza lhe pede para fazer nesse momento. Avance conforme a oportunidade permitir e não olhe em volta buscando saber se está sendo observado. Já não espere pela comunidade idealizada por Platão, fique satisfeito até mesmo se uma empreitada insignificante der certo e considere o resultado como um bom sucesso. Pois quem pode esperar mudar as convicções humanas? E sem mudança de convicção o que pode haver além de invejosa submissão e assentimento fingido? Agora vá em frente e me fale de Alexandre, Filipe e Demétrio de Falero. Se esses homens verdadeiramente entenderam a vontade da Natureza e se educaram para segui-la é assunto somente deles. Porém se foi apenas um papel que estavam encenando, nenhuma côrte me condenou por ter imitado os exemplos deles. A filosofia é uma profissão modesta, toda simples e clara em seus procedimentos. Nunca tente me seduzir a pretenções solenes.

     

  30. Olhe de cima para os inúmeros bandos de homens com suas cerimônias misteriosas, suas diversas viagens em tormentas e calmarias e o colorido padrão de suas vindas, reuniões e idas. Siga considerando a vida de gerações passadas e então a vida de todos que ainda estão por vir, mesmo hoje, a vida das remotas hordas selvagens. Resumindo, reflita sobre as multidões que existem e ignoram a existência até de seu nome e quanto mais rapidamente o esquecerão. Quantos, talvez, louvando você agora, em breve o estarão vilipendiando. Logo, lembrança, glória e todo o resto são coisas sem valor.

     

  31. Quando obstruído externamente pelas circunstâncias, seja imperturbável. Quando induzido internamente a agir, seja justo e honesto. Em suma, deixe tanto a vontade e o dever resultarem em um comportamento que seja social e cumpra com a lei de seu ser.

     

  32. Muitas das ansiedades que te assediam são supérfluas. Sendo seres de sua própria imaginação você pode se livrar delas e expandir-se para uma região mais ampla, deixando seu pensamento vagar por todo o universo, contemplando os ilimitados estratos da eternidade, observando a rapidez da mudança em cada coisa criada e contrastando o curto período entre nascimentos e dissoluções com a interminável eternidade que precede um e o infinito que segue o outro.

     

  33. Mais um pouco e tudo que está diante de seu olhar terá perecido. Aqueles que testemunham sua passagem seguirão, sem demora, o mesmo caminho. E então o que haverá para escolher entre o mais velho avô e o bebê que morreu em seu berço?

     

  34. Observe os princípios que guiam esse homens, os fins pelos quais se sacrificam, as bases nas quais fundamentam o que gostam e o que valorizam. Ou seja, imagine suas almas desnudadas. Ainda assim eles imaginam que seus louvores ou censuras têm peso para ajudar ou ferir. Quanta presunção!

     

  35. Perda não passa de mudança e mudança é o prazer da natureza. Desde quando surgiu o mundo as coisas são ordenadas segundo seu decreto da mesma forma como são hoje e como outras coisas similares serão ordenadas até o fim dos tempos. Como, então, você pode dizer que tudo está e sempre será ruim? Que nenhum poder entre todos os deuses no céu pode ajudar a consertar isso e que o mundo está condenado a uma escravidão de males sem fim?

     

  36. A substância de todos nós está fadada a se decompor, a umidade e a argila, os ossos e o fedor. Nosso precioso mármore não passa de uma calosidade da terra, nosso ouro e prata, seu sedimento. Nosso vestuário de fragmentos de cabelo, nosso vemelho de sangue de peixe e assim é com tudo o mais. O mesmo é verdade sobre nosso próprio sopro de vida – sempre passando, como faz, de um para o outro.

     

  37. Chega dessa forma miserável de viver, esse resmungar interminável, essa careta de macaco. Por quê se agitar então? Nada de novo está acontecendo, então o que está te incomodando? A forma? Olhe-a bem. A matéria? Olhe bem para ela também. Além de forma e matéria não há nada. Até nessa hora tardia se disponha a ser uma pessoa melhor e mais simples sob o olhar dos deuses. Pois para dominar essa tarefa três anos bastam tanto quanto cem.

     

  38. Se ele pecou o prejuízo é dele. Ainda assim, apesar de tudo, talvez ele não tenha pecado.

     

  39. Ou as coisas devem ter sua origem em uma única fonte inteligente e tudo vir a compor, de certa forma, um corpo único – caso no qual nenhuma parte deve reclamar do que acontece pelo bem comum – ou então o mundo não passa de átomos e sua confusa mistura e dispersão. Por quê sentir-se assediado? Diga para a razão que o comanda: “Você está morta e em decomposição? Isso é algum papel que você está encenando? Você afundou ao nível de uma besta selvagem, grasnando e mugindo com o resto?”.

     

  40. Os deuses têm poder ou não. Se eles não têm, para quê rezar? Se têm, ao invés de rezar para que lhe concedam ou poupem tal e tal coisa, por que não rezar para ser libertado de temer, desejar ou lamentar tal coisa? Se de alguma forma eles podem ajudar os homens, então podem te ajudar dessa maneira. Você dirá, talvez “Mas tudo isso é algo que eles colocaram sob meu poder.” Então claramente seria melhor usar seu poder e ser um homem do que ansiar como um escravo e um mendigo por algo que não está sob seu poder. Além disso, quem te disse que os deuses nunca ajudaram até nessas coisas que estão sob nosso poder? Comece a rezar nesse sentido e você verá. Onde um homem reza “Conceda-me que eu possua essa mulher”, faça com que sua reza seja “Conceda-me que eu não fique tentado em possuí-la”. Onde ele reza “Conceda-me que eu me livre de tal e tal pessoa”, você reza, “Tome de mim o desejo de livrar-me deles.” Onde ele implora “Livre-me de perder meu precioso filho”, reze para que seja levado o seu terror à perda de seu filho. Em suma, direcione suas petições nesse sentido e veja o que acontece.

     

  41. “Quando eu estive doente”, diz Epicuro, “eu não costumava conversar sobre meus padecimentos corporais. Eu não discutia qualquer assunto desse tipo com minhas visitas. Continuei tratando dos principios da filosofia natural e o ponto que particularmente me apeguei foi em como a mente, enquanto parte dessa comoção da carne, pode permanecer imperturbável e buscar seu próprio bem. “Nem, continua ele, “dei aos médicos a chance de se vangloriarem de seus triunfos. Minha vida apenas continua seu curso normal, serena e feliz.” Então quando estiver doente ou com qualquer outro problema do tipo, seja como Epicuro. Nunca se afaste da filosofia por nada que venha a acontecer e nunca tome parte no absurdo que é apregoado pelos ignorantes sem instrução (todas as escolas concordam com essa máxima). Concentre-se completamente na tarefa que tem diante de si e no instrumento que possui para sua realização.

     

  42. Quando você se indignar com a impudência de alguém, pergunte-se: “O mundo pode existir sem as pessoas impudendas?” Não pode, então não peça o impossível. Aquele homem é apenas um dos impudentes cuja existência é necessária para o mundo. Mantenha presente esse mesmo pensamento sempre que você cruzar com a velhacaria, a falsidade e qualquer outra forma de obliquidade. Apenas precisa se lembrar de que esses tipos são indispensáveis e imediatamente se sentirá mais bem disposto com relação ao indivíduo. Também ajuda lembrar prontamente da qualidade especial que a Natureza nos deu para contrapor tais erros particulares. Pois ela nos proveu com antídotos: gentileza para a brutalidade, por exemplo, e outros corretivos pra outros males. Em termos gerais, você tem a oportunidade de mostrar a tolice ao culpado – porque todos que fazem o mal estão desfalcados de seu objetivo apropriado e por isso são uns tolos. Além do mais, que prejuízos você sofreu? Nada foi feito por nenhuma dessas vítimas de sua irritação que possa ferir sua própria mente e é apenas na mente que qualquer coisa má ou danosa a ti pode se tornar realidade. Qual o erro ou surpresa, no fim das contas, em um cafajeste agir como tal? Procure saber, então, se a culpa não é sua de não ter previsto que ele pecaria dessa maneira. Você, levando em conta sua razão, tem todos os meios para julgar provável que ele fosse agir dessa maneira. Se esqueceu disso e agora esse pecado te surpreende. Quando você estiver indignado com alguém pela perfídia ou ingratidão deles, direcione seus pensamentos primeiro e principalmente a si mesmo. Pois o erro é claramente seu se você acreditou na boa fé de um homem de tal estirpe ou, quando lhe fez algum favor, se não foi feito reservadamente e acreditando que a ação seria sua própria e completa recompensa. Uma vez que fez um favor a alguém, o que mais te resta? Não é o bastante ter seguido as leis de sua própria natureza, sem esperar ser recompensado por isso? É como o olho querendo uma recompensa por enxergar ou o pé por andar. É justamente para isso que existem e eles têm o que merecem em fazerem o que foram criados para fazer. Igualmente, o homem nasce para feitos de bondade e quando ele os faz ou serve ao bem comum, ele faz o que foi criado para fazer e recebeu sua compensação.


 Meditações - Livro VIII

Meditações - Livro VIII


Manifesto número 1

 Esther Jiao

Esther Jiao

As engrenagens rangem e se rangem correm a lubrificar-lhes com sangue. Mais sangue e mais vergonha e menos ranger, que siga o palíndromo.

A síndrome compartilhada também é não vista e passa como coisa dada, está ai para ficar a tal inevitável.

sindrômico palíndromo sincrônico

O palíndromo segue e vai e volta e por ser um tão longo repetir das mesmas coisas já ninguém se lembra do começo e tudo o que vem é tido por coisa nova quando é o mesmo girar da engrenagem banhada pelo mesmo sangue que carrega a síndrome de sempre.

O ranger, quando surge, é quase uma interferência, um fora do palíndromo pois cada rangido é um grito diferente que tenta estragar a sonoridade sufocante soada e ressoada do mesmo revir.

Assincrônico rejeitar do palíndromo e seu ir e vir insuspeitado e sua moenda selvagem, aqueles que fazem ranger a máquina logo banham as engrenagens que desafiam.

Seguem a síndrome e a sinfonia e o palíndromo em sinergia.

Que não sigam.


 A biblioteca do Pantagruelista

A biblioteca do Pantagruelista


Meditações, livro VIII. Comportamento, pensamento e sensações.

LIVRO VIII

1.    Você evitará a complacência caso se lembre de que a reivindicação de ter vivido como um filósofo toda a sua vida, ou ao menos desde que virou homem, está agora fora de questão. De fato, é evidente para muitos, assim como para você, que mesmo hoje a filosofia ainda se encontra muito além de ti. Consequentemente sua mente fica em um estado de confusão, e se torna difícil aceitar o título de filósofo. Além do mais, sua posição na vida milita constantemente contra isso. Uma vez que tudo isso é visto à luz da verdade você deve banir qualquer pensamento sobre como é visto pelos outros e ficar contente se puder viver a vida que te resta de acordo com o que deseja a natureza. Aprenda a conhecer a vontade dela e não deixe nada te distrair. Até agora, todas as suas andanças em busca da vida boa foram infrutíferas. Não foi encontrada nem nas casuísticas da lógica, nem na riqueza, na celebridade, nos prazeres mundanos ou em qualquer outro lugar. Onde, então, reside o segredo? Em fazer o que a natureza humana requer. Como? Adotando princípios restritos para regulação dos impulsos e das ações. Tais como? Princípios acerca do que é bom ou mal para nós: por exemplo, de que nada pode ser bom para um homem a não ser que o ajude a ser justo, autodisciplinado, corajoso e independente e nada ruim a não ser que tenha o efeito contrário.

2.    Em qualquer atitude pergunte-se: Quais serão as consequências para mim? Me arrependerei ou não? Em breve devo estar morto e tudo será esquecido, porém nesse meio tempo, se isso for digno de um ser racional e social, que está sob a mesma lei que Deus, por quê desejar algo mais?

3.    Alexandre, César, Pompeu – o que eram eles comparados a Diógenes, Heráclito e Sócrates? Esses últimos olharam para as coisas, suas causas e investigaram do que eram feitas e seus espíritos mestres foram feitos do mesmo molde. Quanto aos outros – como causavam preocupações, infinitos sofrimentos.

4.    Você pode ter seu coração partido, no entanto os homens seguirão vivendo como antes.

5.    A primeira regra é manter um espírito sereno, pois todas as coisas devem se curvar à lei da natureza e em breve se tornarão nada, como Adriano e Augusto. A segunda é olhar as coisas nos olhos e conhecê-las pelo que são, lembrando que é seu dever ser um homem bom. Faça sem vacilar o que a natureza humana demanda, diga o que te parece mais justo – embora com cortesia, modéstia e sinceridade.

6.    A tarefa da Natureza Universal é embaralhar, transpor, intercambiar, remover de um estado e transferir para outro. Há mudança em todo lugar, ainda assim não precisamos temer o inesperado, dado que todas as coisas são regidas por uma antiga vontade e até a forma de as dispor não varia.

7.    Toda natureza encontra sua satisfação na tranquila busca de seu caminho. Para uma natureza dotada de razão, isso significa recusar toda impressão que seja equivocada ou obscura, não dando espaço a impulsos antissociais, limitando todos os seus desejos e recusas a coisas que estão ao alcance de seu poder e cumprimentando toda dispensa da natureza com a mesma boa vontade.  Pois essas dispensas são tão parte dela quanto uma folha é da planta, salvo que a folha é parte de uma natureza que não tem sentimentos nem razão e é capaz de ser frustrada, enquanto a natureza humana é parte de uma natureza que não só não pode ser frustrada como também é dotada tanto de inteligência quanto de justiça, dado que ela atribui igualmente a cada homem sua cota devida de tempo, ser, causa, atividade e experiência. (Não busque essa igualdade em qualquer comparação entre um homem e outro em cada particular, mas sim em uma ampla comparação de ambos em sua totalidade.)

8.    Você não pode ser um letrado. Entretanto o que pode fazer é limitar a arrogância, o que pode fazer é elevar-se acima de prazeres e dores. Você pode ser superior ao engodo da popularidade, manter sua serenidade com os tolos e ingratos, sim, e até mesmo se importar com eles.

9.    Não deixe ninguém, nem mesmo você, te ouvir falando mal da vida na corte novamente.

10.    Arrependimento é remorso pela perda de alguma oportunidade útil. O que é bom é sempre útil e deve ser o Interesse de todo homem bom, entretanto uma oportunidade de algum prazer é uma coisa que nenhum homem bom se arrependeria de ter deixado passar. Dai tem-se que o prazer não é bom nem útil.

11.    Pergunte-se: O que, em si mesma, é essa coisa, por sua própria constituição especial? O que é em sua substância, forma e matéria? Qual sua função no mundo? Por quanto tempo ela subsiste?

12.    Quando estiver difícil continuar acordado, lembre-se de que cumprir com os deveres que você deve à sociedade é obedecer às leis da natureza humana e sua constituição, além do mais, dormir é algo que compartilhamos com a parte bruta e irracional da criação. E que a obediência à sua própria natureza é o caminho mais próprio, adequado e aceitável.

13.    Se possível, torne um hábito descobrir o caráter essencial de cada impressão, seus efeitos em si e sua resposta a uma análise lógica.

14.    Não importa quem você encontrar, sempre comece por se perguntar: Quais são as visões dessa pessoa sobre a bondade ou a maldade das coisas? Então, se suas crenças sobre o prazer, a dor e suas causas ou sobre renome e descrédito, sobre vida e morte são de um certo tipo, não devo me surpreender ou escandalizar se eu descobrir seus atos de acordo com elas. Devo dizer a mim mesmo que ela não tem escolha.

15.    Ninguém se surpreende quando uma figueira dá figos. Similarmente, devemos nos envergonhar de nossa surpresa quando o mundo produz sua safra normal de acontecimentos. Um médico ou um almirante enrubesceriam em se surpreender se um paciente se mostrasse febril ou um vento, contrário.

16.    Mudar sua mente e mudar para se corrigir não é sacrificar sua independência. Tal ato é seu, em busca de seus impulsos, seu julgamento e seu próprio pensamento.

17.    Se a escolha é sua, por quê fazer a coisa? Se é de outro, em quem jogar a culpa? Nos deuses? Nos átomos? Seria insanidade. Todos os pensamentos de culpa são despropositados. Se puder, corrija o pecador; se não, corrija o erro; se isso também for impossível, qual a utilidade das recriminações? Nada vale a pena se é feito sem motivo.

18.    Aquele que morre não abandona o mundo. Permanece aqui e aqui também, por consequência, muda e é dissolvido em suas várias partículas, ou seja, nos elementos que vão formar o universo e você mesmo. Eles mesmos também sofrem mudanças e você não os ouve reclamar.

19.    Tudo – um cavalo, uma vinha – é criado para algum dever. Isso não é nada com que se espantar: até o próprio Deus-Sol te dirá: “Há um trabalho que estou aqui para fazer” e o mesmo dirão todos que moram no céu. Para qual tarefa, então, você foi criado? Para o prazer? Um pensamento desses pode ser tolerado?

20.    A Natureza sempre tem um fim em mente e esse foco inclui o final tanto quanto seu começo ou sua duração. Ela é como a arremessadora da bola. A própria bola é melhorada pelo seu voo ascendente? É algo pior quando vem caindo ou quando fica parada depois de cair? O que uma bolha ganha por ficar intacta ou perde por estourar? O mesmo é verdadeiro também para uma vela.

21.    Vire seu corpo mortal ao avesso e olhe a aparência dele. Veja o que ele se torna com a idade, a doença ou a decomposição. Como são fugazes as vidas tanto dos que louvam quanto dos que são louvados, de quem lembra e de quem é lembrado. Como é pequeno seu espaço nessa zona terrestre – e mesmo lá não estão em paz um com o outro. A terra inteira não passa de um ponto insignificante.

22.    Dê toda sua atenção, seja a um objeto material, uma ação, um princípio ou o significado do que está sendo dito. Esse desapontamento lhe é devido. Você prefere esperar pela bondade amanhã do que praticá-la hoje.

23.    O que faço devo fazer em reverência ao favor à humanidade. No que sobrevier a mim, devo aceitar com reverência aos deuses e àquela fonte universal da qual toda a intricada cadeia da circunstância tem sua origem.

24.    O que o banho traz a sua mente? Gordura, suor, sujeira, água suja e tudo que é aversivo. Assim é a vida em todas as suas parte e assim é cada material nela.

25.    A morte roubou Lucila de Vero e depois reivindicou Lucila também. A morte tomou Máximo de Secunda e então a própria Secunda; Diotimo de Epitinchano e Epitinchano depois dele; Faustina de Antonino e Antonino por sua vez. É sempre assim. Céler enterrou Adriano e também foi enterrado. Aquelas nobres mentes do passado, aqueles homens de presciência, aqueles homens orgulhosos, onde estão agora? Mentes afiadas como Charax, Demétrio o Platonista, Eudemon e outros como eles. Todos durando não mais que um dia, há muito mortos e ausentes. Alguns esquecidos assim que morreram, alguns viraram lenda, outros sumiram da própria lenda. Por isso repense em como esse seu complexo corpóreo também deve, um dia, ser dispersado ou então o fôlego que o anima deverá se extinguir, ou ser removido e transladado para outro lugar.

26.    O verdadeiro deleite humano é fazer o que foi criado para fazer. Ele foi feito para mostrar boa vontade ao seu semelhante, estar acima das tentações dos sentidos, distinguir a aparência da realidade e buscar o estudo da Natureza universal e suas obras.

27.    Temos três relacionamentos: um para com esse invólucro corporal que nos circunda, um para com a Causa divina que é a fonte de tudo em todas as coisas e um para com nossos semelhantes que nos rodeiam.

28.    A dor deve ser um mal ou para o corpo – e nesse caso deixe o corpo falar por si – ou então para a alma. No entanto a alma sempre pode recusar considerar a dor como um mal e assim manter seus céus claros e sua serenidade intacta. Pois não há decisão, impulso, nem movimento de aprovação ou reproche que não deva proceder de dentro dela mesma e dentro dessa parte da alma nenhum mal pode entrar à força.

29.    Abdicando de toda fantasia, diga a si mesmo: “Cabe a mim garantir que nenhum vício, avareza ou perturbação de qualquer tipo encontre abrigo em minha alma, cabe a mim enxergar as coisas sob sua verdadeira luz e lidar com cada uma delas de acordo com seu merecimento.” Lembre-se dessa autoridade com a qual a natureza te presenteou.

30.    Tanto no senado quanto a indivíduos, use uma linguagem que seja decorosa porém sem ser afetada. Seja lúcido e são ao falar.

31.    Pense na corte de Augusto: mulher, filha, filhos, avós, irmã, Agripa, parentes, agregados, amigos, Areius, Mecenas, médicos, sacerdotes – uma corte completa agora inexistente. Volte-se para outros registros, agora eclipsados. Extinção não de indivíduos mas de linhagens inteiras - os Pompeus, por exemplo – e a inscrição que vemos nos memoriais: “O último desta casa”. Pense em todo o esforço de seus antecessores em deixar uma herança para os próximos e ainda assim, no fim, alguém tem que ser o último e mais uma raça perece.

32.    Cada uma de suas ações isoladas deve contribuir para uma vida integrada e se cada uma delas, no que for possível, fizer sua parte para esse fim, fique satisfeito pois isso é algo que ninguém pode impedir. “Haverão interferências exteriores”, você diz? Mesmo assim, elas não afetarão a justiça, a prudência e a racionalidade de suas intenções. “Não, porém algum de tipo de ação, na prática, pode ser impedida.” Talvez, entretanto se você se submeter à frustação de bom grado e for sensível o bastante para aceitar o que lhe está sendo oferecido, então poderá escolher alguma saída alternativa que será igualmente consistente com a integração da qual estamos falando.

33.    Aceite modestamente, renda-se com elegância.

34.    Você já deve ter visto uma mão ou um pé cortados ou uma cabeça caída separada de seu corpo. Esse é o estado para o qual um homem faz o máximo para se reduzir quando recusa aceitar o que lhe acontece e se isola de seus semelhantes ou quando age apenas em busca de fins egoístas. Então você se torna um proscrito da unidade da Natureza. Embora nascido como parte dela, seu vínculo foi cortado por sua própria mão. Porém aqui está o pensamento bonito: que ainda está ao seu alcance reunir-se. Nenhuma outra parte da criação foi tão favorecida por Deus com a permissão de retornar à unidade de novo após ter rompido e se dividido. Contemple, então, a bondade dele, com a qual dignificou o homem: eles pôs em seu poder não apenas manter-se inicialmente inseparável do todo, mas posteriormente, se separado, retornar, ser reunido e retomar seu lugar como antes.

35.    Quando a Natureza de todas as coisas equipou cada ser racional com seus poderes, uma das faculdades que recebemos de suas mãos foi essa: que assim como ela mesma transmuta cada obstáculo ou oposição, o posiciona de acordo com o destino e o assimila em si mesma, também um ser racional tem poder para transformar cada entrave em material para si e usá-lo para fazer avançar seus próprios empreendimentos.

36.    Nunca se confunda com visões instantâneas que abrangem todo o tempo de vida. Ou seja, não deixe seus pensamentos vagarem pela multitude e variedade de infortúnios que lhe sobrevieram, mas sim, quando encontrar cada um, pergunte-se: “O que há de tão insuportável, tão inaceitável nisso?”. Descobrirá a vergonha em admitir derrota. Novamente, lembre-se que não é o peso do futuro ou do passado que está sobre você, senão sempre apenas o do presente. Até mesmo esse fardo pode ser aliviado se você confiná-lo estritamente a seus limites e for severo o bastante com a inabilidade de sua mente em lidar com tal ninharia.

37.    Pantéia ou Pérgamo ainda estão sentados até hoje na tumba de Vero? Cabrias ou Diotimo na de Adriano? Ridículo! E supondo que estivessem, os mortos seriam sensíveis a isso? Se sensíveis, satisfeitos? Além disso, mesmo que os próprios mortos estivessem satisfeitos, poderiam os enlutados, por sua parte, viverem para sempre? Não estavam eles também condenados a ficarem velhos e morrerem por sua vez? - então o que poderiam fazer os lamentados quando seus lamentadores se fossem? Tudo isso por nada mais que um punhado de fedor e corrupção.

38.    Nas palavras de Crito, o sábio: “Se tens olhos para ver, então veja.”

39.    Na constituição do ser racional não encontro uma virtude que combata a justiça, porém encontro o autocontrole implantado para combater o prazer.

40.    Subtraia de seu eu suas próprias noções do que você imagina doloroso e então você se tornará invulnerável. “Meu eu – o que é isso?” Sua razão. “Porém não sou todo razão.” Que seja. Nesse caso, ao menos deixe sua razão parar de causar dor a si mesma e se outra parte de você estiver em desgraça deixe seus pensamentos sobre si mesma serem preocupação apenas dela.

41.    Para a natureza da força vital que anima nossos corpos qualquer frustação dos sentidos é má, assim como a frustação de qualquer busca. A natureza da planta também tem suas próprias frustrações e males. Da mesma forma, qualquer frustração da mente é um mal para a natureza da mente. Aplique tudo isso à sua situação. Uma dor ou um prazer te afetam? Os sentidos cuidarão disso. Você foi frustrado em algum empreendimento? É verdade que se foi feito sem considerar a possibilidade de falha, tal frustração é realmente um mal para você enquanto ser racional. Contudo, uma vez que você aceite essa necessidade universal, não sofrerá mais nenhum mal ou frustração. Dentro de seu próprio domínio não há quem possa frustrar a mente. Fogo, espada, opressão, calúnia e tudo mais é incapaz de tocá-la. “O globo, uma vez esférico e verdadeiro, permanece esférico.”

42.    Eu, que nunca causei sofrimento a outrem de propósito, não tenho motivo para me fazer sofrer.

43.    À cada um sua própria felicidade. Para mim, solidez da minha faculdade soberana, a razão. Nenhum afastamento da humanidade e suas vicissitudes. A habilidade de estudar e aceitar todas as coisas com um olhar bondoso e lidar com elas de acordo com seus méritos.

44.    Aproveite hoje ao máximo. Aqueles que focam nos aplausos do amanhã falham em recordar que as futuras gerações não são nem um pouco diferentes das contemporâneas que tanto testam sua paciência e de maneira alguma menos mortais. De qualquer forma, pode importar a você como as línguas de amanhã poderão abanar ou que opiniões podem entreter sobre você?

45.    Pegue-me e leve para onde você quiser, ainda serei possuidor da minha divindade interior serena e contente enquanto puder sentir e agir conforme sua constituição. É mérito de tal momento que minha alma se aflija por ele e mude-se para pior para tornar-se uma coisa covarde e rastejante, suplicante e débil? Alguma coisa pode ter tais consequências?

46.    Nenhum evento acontece com um homem que não seja próprio para a condição humana. Não acontece para o gado, vinha ou pedra senão o que propriamente pertence à natureza do gado, da vinha e das pedras. Então se todas as coisas lidam somente com o que é costumeiro e adequado a elas, por quê reclamar? A mesma Natureza que é sua, assim como delas, não lhe traz nada que não seja possível suportar.

47.    Se você está estressado por algo externo, a dor não é devido à coisa em si, mas à estima que tem por ela e isso você pode revogar a qualquer momento. Se a causa do problema repousa em seu próprio caráter, comece a reformar seus princípios. Quem pode te impedir? Se é o insucesso em escolher algum método de ação aparentemente bom que está te vexando, então por que não decidir,  ao invés de se afligir? “Porque há um obstáculo insuperável no caminho.” Nesse caso, não se preocupe, a responsabilidade pela inércia não é sua. “Entretanto a vida não vale a pena ser vivida sem que eu faça essa coisa.” Ora, então dê à vida um bem humorado adeus, aceitando a frustração decorosamente e morrendo como qualquer outro homem cujas ações não foram inibidas.

48.    Lembre-se de que seu Ser superior torna-se invencível quando se recolhe para dentro de si mesmo e calmamente recusa agir contra sua vontade, mesmo que tal resistência possa ser completamente irracional. Quanto mais, então, quando essa decisão é baseada na razão e na circunspecção! Assim também uma mente livre das paixões é uma verdadeira cidadela, não há fortaleza melhor onde buscar abrigo e resistir a cada assalto. Falhar em perceber isso é ignorância. Embora perceber, e ainda assim não buscar esse abrigo é, de fato, um infortúnio.

49.    Nunca vá além do sentido de suas impressões originais. Essas te dizem que tal e tal pessoa está falando mal de você. Essa foi sua mensagem. Elas não vão além para te dizer que lhe foi feito qualquer mal. Vejo que meu filho está doente, meus olhos dizem-me isso, no entanto não sugerem que sua vida esteja em perigo. Então sempre mantenha as impressões originais, não adicione seus pareceres e ficará seguro. Ou acrescente apenas o reconhecimento da grande ordem-mundial pela qual todas as coisas vêm a passar.

50.    Seu legume está azedo? Jogue-o fora. Há espinhos em seu caminho? Desvie-se. É o bastante. Não vá a dizer: “Por que tais coisas foram trazidas ao mundo?” O estudioso da natureza irá rir de você, assim como um carpinteiro ou um sapateiro ririam, se você se angustiasse com as aparas de madeira e restos de couro de seus trabalhos em suas lojas. Ainda assim eles, pelo menos, têm onde jogar seu lixo, já a Natureza não possui tal lugar. Esse é o milagre de seu ofício: que apesar de sua autolimitação, ela ainda assim transmuta em si mesma tudo que parece desgastado, velho ou inútil e remodela isso em novas criações, de forma que nunca precisa de novos suprimentos externos ou lugar para descartar seu refugo. Seu próprio espaço, seus próprios materiais e sua própria habilidade são suficientes para ela.

51.    Ação dilatória, conversa incoerente, impressões vagas. Uma alma profundamente limitada, uma alma excessivamente efusiva, uma vida sem espaço para descanso – evite tais coisas. Martírio, mutilação, execração, como podem afetar a habilidade da mente de manter-se pura, sã, equilibrada e justa? Um homem pode ficar ao lado de um límpido regato e descarregar uma verborragia de palavras abusivas contra ele e ainda assim ele continuará provendo água pura. Ele pode até mesmo jogar lama e sujeira, porém rapidamente serão dissolvidos e levados embora, sem sobrar qualquer mancha. Como se tornar soberano de uma fonte tão perene? Ao salvaguardar o direito de ser seu próprio mestre a cada hora do dia, em toda sua caridade, simplicidade e modéstia.

52.    Sem um entendimento da natureza do universo o homem não pode saber onde está. Sem um entendimento do seu objetivo, ele não pode saber quem é, nem o que o próprio universo é. Deixe que quaisquer dessas descobertas sejam estranhas a ele e ele não será capaz nem mesmo de dar uma razão à sua própria existência. Então o que devemos pensar de qualquer um que se importa em buscar ou evitar o aplauso das multidões barulhentas, quando eles não sabem nem onde estão nem o que são?

53.    Você desejaria ser louvado por alguém que a toda hora xinga mentalmente? Você agradaria quem não consegue agradar nem a si mesmo? E como pode um homem estar contente consigo mesmo se ele se arrepende de quase tudo que faz?

54.    Assim como sua respiração faz parte do ar circundante, deixe sua mente fazer parte da Mente circundante. Pois há uma Força mental que, para aquele que consegue atraí-la para si, não é menos ubíqua e permeante de tudo do que a atmosfera para aquele que a consegue respirar.

55.    A perversão geral da humanidade não é capaz de danificar o universo, nem a perversão particular de um semelhante ferir outro. Fere apenas o próprio culpado e ele pode se livrar disso assim que decidir.

56.    A vontade do meu vizinho não é mais importante para a minha do que sua respiração ou sua carne. Não importa quanto somos feitos um para o outro, o ser de cada homem ainda tem seus direitos soberanos. Do contrário, a perversão de meu vizinho se tornaria meu mal e Deus não quis assim, para que a ruína de minha felicidade não estivesse à disposição de outrem.

57.    O sol é visto derramando-se e gastando-se em todas as direções, porém nunca se exaure. Pois esse derramar não passa de uma autoextensão. Raios solares, de fato, derivam seu próprio nome de uma palavra que significa “ser estendido.” Para entender a característica de um raio solar, veja como ele entra em um quarto escuro através de uma fenda estreita. Ele se prolonga adiante em linha reta, até que encontre algum corpo sólido que bloqueie sua passagem para o ar adiante e então ele se mantém parado ali, sem escorregar ou cair. A emissão e a difusão do pensamento deve ser a contraparte disso: não exaurindo-se, apenas se estendendo, sem chocar-se furiosamente contra os obstáculos que encontrar ou caindo em desespero. Mantendo seu terreno e iluminando aquele no qual repousa. Falhar em transmiti-la é apenas autoprivação de luz.

58.    Aquele que teme a morte teme perder todas as sensações ou teme novas sensações. Na realidade, ou você não sentirá nada, logo nenhum mal, ou então, se houver novas sensações, você será uma nova criatura, logo, não terá cessado de ter vida.

59.    Os homens existem uns para os outros. Então melhore-os ou suporte-os.

60.    Uma flecha viaja de uma forma, já a mente de outra. Mesmo quando a mente está atenta a seu caminho e trabalhando em torno de um problema em todos os ângulos, ela ainda está se movendo adiante e para seu objetivo.

61.    Entre no princípio que rege a mente de seu vizinho e faça-o passar pelo seu.


 Meditaçoes - Livro IX

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 Meditações - Livro VII

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