Meditações, livro VIII. Comportamento, pensamento e sensações.

LIVRO VIII

1.    Você evitará a complacência caso se lembre de que a reivindicação de ter vivido como um filósofo toda a sua vida, ou ao menos desde que virou homem, está agora fora de questão. De fato, é evidente para muitos, assim como para você, que mesmo hoje a filosofia ainda se encontra muito além de ti. Consequentemente sua mente fica em um estado de confusão, e se torna difícil aceitar o título de filósofo. Além do mais, sua posição na vida milita constantemente contra isso. Uma vez que tudo isso é visto à luz da verdade você deve banir qualquer pensamento sobre como é visto pelos outros e ficar contente se puder viver a vida que te resta de acordo com o que deseja a natureza. Aprenda a conhecer a vontade dela e não deixe nada te distrair. Até agora, todas as suas andanças em busca da vida boa foram infrutíferas. Não foi encontrada nem nas casuísticas da lógica, nem na riqueza, na celebridade, nos prazeres mundanos ou em qualquer outro lugar. Onde, então, reside o segredo? Em fazer o que a natureza humana requer. Como? Adotando princípios restritos para regulação dos impulsos e das ações. Tais como? Princípios acerca do que é bom ou mal para nós: por exemplo, de que nada pode ser bom para um homem a não ser que o ajude a ser justo, autodisciplinado, corajoso e independente e nada ruim a não ser que tenha o efeito contrário.

2.    Em qualquer atitude pergunte-se: Quais serão as consequências para mim? Me arrependerei ou não? Em breve devo estar morto e tudo será esquecido, porém nesse meio tempo, se isso for digno de um ser racional e social, que está sob a mesma lei que Deus, por quê desejar algo mais?

3.    Alexandre, César, Pompeu – o que eram eles comparados a Diógenes, Heráclito e Sócrates? Esses últimos olharam para as coisas, suas causas e investigaram do que eram feitas e seus espíritos mestres foram feitos do mesmo molde. Quanto aos outros – como causavam preocupações, infinitos sofrimentos.

4.    Você pode ter seu coração partido, no entanto os homens seguirão vivendo como antes.

5.    A primeira regra é manter um espírito sereno, pois todas as coisas devem se curvar à lei da natureza e em breve se tornarão nada, como Adriano e Augusto. A segunda é olhar as coisas nos olhos e conhecê-las pelo que são, lembrando que é seu dever ser um homem bom. Faça sem vacilar o que a natureza humana demanda, diga o que te parece mais justo – embora com cortesia, modéstia e sinceridade.

6.    A tarefa da Natureza Universal é embaralhar, transpor, intercambiar, remover de um estado e transferir para outro. Há mudança em todo lugar, ainda assim não precisamos temer o inesperado, dado que todas as coisas são regidas por uma antiga vontade e até a forma de as dispor não varia.

7.    Toda natureza encontra sua satisfação na tranquila busca de seu caminho. Para uma natureza dotada de razão, isso significa recusar toda impressão que seja equivocada ou obscura, não dando espaço a impulsos antissociais, limitando todos os seus desejos e recusas a coisas que estão ao alcance de seu poder e cumprimentando toda dispensa da natureza com a mesma boa vontade.  Pois essas dispensas são tão parte dela quanto uma folha é da planta, salvo que a folha é parte de uma natureza que não tem sentimentos nem razão e é capaz de ser frustrada, enquanto a natureza humana é parte de uma natureza que não só não pode ser frustrada como também é dotada tanto de inteligência quanto de justiça, dado que ela atribui igualmente a cada homem sua cota devida de tempo, ser, causa, atividade e experiência. (Não busque essa igualdade em qualquer comparação entre um homem e outro em cada particular, mas sim em uma ampla comparação de ambos em sua totalidade.)

8.    Você não pode ser um letrado. Entretanto o que pode fazer é limitar a arrogância, o que pode fazer é elevar-se acima de prazeres e dores. Você pode ser superior ao engodo da popularidade, manter sua serenidade com os tolos e ingratos, sim, e até mesmo se importar com eles.

9.    Não deixe ninguém, nem mesmo você, te ouvir falando mal da vida na corte novamente.

10.    Arrependimento é remorso pela perda de alguma oportunidade útil. O que é bom é sempre útil e deve ser o Interesse de todo homem bom, entretanto uma oportunidade de algum prazer é uma coisa que nenhum homem bom se arrependeria de ter deixado passar. Dai tem-se que o prazer não é bom nem útil.

11.    Pergunte-se: O que, em si mesma, é essa coisa, por sua própria constituição especial? O que é em sua substância, forma e matéria? Qual sua função no mundo? Por quanto tempo ela subsiste?

12.    Quando estiver difícil continuar acordado, lembre-se de que cumprir com os deveres que você deve à sociedade é obedecer às leis da natureza humana e sua constituição, além do mais, dormir é algo que compartilhamos com a parte bruta e irracional da criação. E que a obediência à sua própria natureza é o caminho mais próprio, adequado e aceitável.

13.    Se possível, torne um hábito descobrir o caráter essencial de cada impressão, seus efeitos em si e sua resposta a uma análise lógica.

14.    Não importa quem você encontrar, sempre comece por se perguntar: Quais são as visões dessa pessoa sobre a bondade ou a maldade das coisas? Então, se suas crenças sobre o prazer, a dor e suas causas ou sobre renome e descrédito, sobre vida e morte são de um certo tipo, não devo me surpreender ou escandalizar se eu descobrir seus atos de acordo com elas. Devo dizer a mim mesmo que ela não tem escolha.

15.    Ninguém se surpreende quando uma figueira dá figos. Similarmente, devemos nos envergonhar de nossa surpresa quando o mundo produz sua safra normal de acontecimentos. Um médico ou um almirante enrubesceriam em se surpreender se um paciente se mostrasse febril ou um vento, contrário.

16.    Mudar sua mente e mudar para se corrigir não é sacrificar sua independência. Tal ato é seu, em busca de seus impulsos, seu julgamento e seu próprio pensamento.

17.    Se a escolha é sua, por quê fazer a coisa? Se é de outro, em quem jogar a culpa? Nos deuses? Nos átomos? Seria insanidade. Todos os pensamentos de culpa são despropositados. Se puder, corrija o pecador; se não, corrija o erro; se isso também for impossível, qual a utilidade das recriminações? Nada vale a pena se é feito sem motivo.

18.    Aquele que morre não abandona o mundo. Permanece aqui e aqui também, por consequência, muda e é dissolvido em suas várias partículas, ou seja, nos elementos que vão formar o universo e você mesmo. Eles mesmos também sofrem mudanças e você não os ouve reclamar.

19.    Tudo – um cavalo, uma vinha – é criado para algum dever. Isso não é nada com que se espantar: até o próprio Deus-Sol te dirá: “Há um trabalho que estou aqui para fazer” e o mesmo dirão todos que moram no céu. Para qual tarefa, então, você foi criado? Para o prazer? Um pensamento desses pode ser tolerado?

20.    A Natureza sempre tem um fim em mente e esse foco inclui o final tanto quanto seu começo ou sua duração. Ela é como a arremessadora da bola. A própria bola é melhorada pelo seu voo ascendente? É algo pior quando vem caindo ou quando fica parada depois de cair? O que uma bolha ganha por ficar intacta ou perde por estourar? O mesmo é verdadeiro também para uma vela.

21.    Vire seu corpo mortal ao avesso e olhe a aparência dele. Veja o que ele se torna com a idade, a doença ou a decomposição. Como são fugazes as vidas tanto dos que louvam quanto dos que são louvados, de quem lembra e de quem é lembrado. Como é pequeno seu espaço nessa zona terrestre – e mesmo lá não estão em paz um com o outro. A terra inteira não passa de um ponto insignificante.

22.    Dê toda sua atenção, seja a um objeto material, uma ação, um princípio ou o significado do que está sendo dito. Esse desapontamento lhe é devido. Você prefere esperar pela bondade amanhã do que praticá-la hoje.

23.    O que faço devo fazer em reverência ao favor à humanidade. No que sobrevier a mim, devo aceitar com reverência aos deuses e àquela fonte universal da qual toda a intricada cadeia da circunstância tem sua origem.

24.    O que o banho traz a sua mente? Gordura, suor, sujeira, água suja e tudo que é aversivo. Assim é a vida em todas as suas parte e assim é cada material nela.

25.    A morte roubou Lucila de Vero e depois reivindicou Lucila também. A morte tomou Máximo de Secunda e então a própria Secunda; Diotimo de Epitinchano e Epitinchano depois dele; Faustina de Antonino e Antonino por sua vez. É sempre assim. Céler enterrou Adriano e também foi enterrado. Aquelas nobres mentes do passado, aqueles homens de presciência, aqueles homens orgulhosos, onde estão agora? Mentes afiadas como Charax, Demétrio o Platonista, Eudemon e outros como eles. Todos durando não mais que um dia, há muito mortos e ausentes. Alguns esquecidos assim que morreram, alguns viraram lenda, outros sumiram da própria lenda. Por isso repense em como esse seu complexo corpóreo também deve, um dia, ser dispersado ou então o fôlego que o anima deverá se extinguir, ou ser removido e transladado para outro lugar.

26.    O verdadeiro deleite humano é fazer o que foi criado para fazer. Ele foi feito para mostrar boa vontade ao seu semelhante, estar acima das tentações dos sentidos, distinguir a aparência da realidade e buscar o estudo da Natureza universal e suas obras.

27.    Temos três relacionamentos: um para com esse invólucro corporal que nos circunda, um para com a Causa divina que é a fonte de tudo em todas as coisas e um para com nossos semelhantes que nos rodeiam.

28.    A dor deve ser um mal ou para o corpo – e nesse caso deixe o corpo falar por si – ou então para a alma. No entanto a alma sempre pode recusar considerar a dor como um mal e assim manter seus céus claros e sua serenidade intacta. Pois não há decisão, impulso, nem movimento de aprovação ou reproche que não deva proceder de dentro dela mesma e dentro dessa parte da alma nenhum mal pode entrar à força.

29.    Abdicando de toda fantasia, diga a si mesmo: “Cabe a mim garantir que nenhum vício, avareza ou perturbação de qualquer tipo encontre abrigo em minha alma, cabe a mim enxergar as coisas sob sua verdadeira luz e lidar com cada uma delas de acordo com seu merecimento.” Lembre-se dessa autoridade com a qual a natureza te presenteou.

30.    Tanto no senado quanto a indivíduos, use uma linguagem que seja decorosa porém sem ser afetada. Seja lúcido e são ao falar.

31.    Pense na corte de Augusto: mulher, filha, filhos, avós, irmã, Agripa, parentes, agregados, amigos, Areius, Mecenas, médicos, sacerdotes – uma corte completa agora inexistente. Volte-se para outros registros, agora eclipsados. Extinção não de indivíduos mas de linhagens inteiras - os Pompeus, por exemplo – e a inscrição que vemos nos memoriais: “O último desta casa”. Pense em todo o esforço de seus antecessores em deixar uma herança para os próximos e ainda assim, no fim, alguém tem que ser o último e mais uma raça perece.

32.    Cada uma de suas ações isoladas deve contribuir para uma vida integrada e se cada uma delas, no que for possível, fizer sua parte para esse fim, fique satisfeito pois isso é algo que ninguém pode impedir. “Haverão interferências exteriores”, você diz? Mesmo assim, elas não afetarão a justiça, a prudência e a racionalidade de suas intenções. “Não, porém algum de tipo de ação, na prática, pode ser impedida.” Talvez, entretanto se você se submeter à frustação de bom grado e for sensível o bastante para aceitar o que lhe está sendo oferecido, então poderá escolher alguma saída alternativa que será igualmente consistente com a integração da qual estamos falando.

33.    Aceite modestamente, renda-se com elegância.

34.    Você já deve ter visto uma mão ou um pé cortados ou uma cabeça caída separada de seu corpo. Esse é o estado para o qual um homem faz o máximo para se reduzir quando recusa aceitar o que lhe acontece e se isola de seus semelhantes ou quando age apenas em busca de fins egoístas. Então você se torna um proscrito da unidade da Natureza. Embora nascido como parte dela, seu vínculo foi cortado por sua própria mão. Porém aqui está o pensamento bonito: que ainda está ao seu alcance reunir-se. Nenhuma outra parte da criação foi tão favorecida por Deus com a permissão de retornar à unidade de novo após ter rompido e se dividido. Contemple, então, a bondade dele, com a qual dignificou o homem: eles pôs em seu poder não apenas manter-se inicialmente inseparável do todo, mas posteriormente, se separado, retornar, ser reunido e retomar seu lugar como antes.

35.    Quando a Natureza de todas as coisas equipou cada ser racional com seus poderes, uma das faculdades que recebemos de suas mãos foi essa: que assim como ela mesma transmuta cada obstáculo ou oposição, o posiciona de acordo com o destino e o assimila em si mesma, também um ser racional tem poder para transformar cada entrave em material para si e usá-lo para fazer avançar seus próprios empreendimentos.

36.    Nunca se confunda com visões instantâneas que abrangem todo o tempo de vida. Ou seja, não deixe seus pensamentos vagarem pela multitude e variedade de infortúnios que lhe sobrevieram, mas sim, quando encontrar cada um, pergunte-se: “O que há de tão insuportável, tão inaceitável nisso?”. Descobrirá a vergonha em admitir derrota. Novamente, lembre-se que não é o peso do futuro ou do passado que está sobre você, senão sempre apenas o do presente. Até mesmo esse fardo pode ser aliviado se você confiná-lo estritamente a seus limites e for severo o bastante com a inabilidade de sua mente em lidar com tal ninharia.

37.    Pantéia ou Pérgamo ainda estão sentados até hoje na tumba de Vero? Cabrias ou Diotimo na de Adriano? Ridículo! E supondo que estivessem, os mortos seriam sensíveis a isso? Se sensíveis, satisfeitos? Além disso, mesmo que os próprios mortos estivessem satisfeitos, poderiam os enlutados, por sua parte, viverem para sempre? Não estavam eles também condenados a ficarem velhos e morrerem por sua vez? - então o que poderiam fazer os lamentados quando seus lamentadores se fossem? Tudo isso por nada mais que um punhado de fedor e corrupção.

38.    Nas palavras de Crito, o sábio: “Se tens olhos para ver, então veja.”

39.    Na constituição do ser racional não encontro uma virtude que combata a justiça, porém encontro o autocontrole implantado para combater o prazer.

40.    Subtraia de seu eu suas próprias noções do que você imagina doloroso e então você se tornará invulnerável. “Meu eu – o que é isso?” Sua razão. “Porém não sou todo razão.” Que seja. Nesse caso, ao menos deixe sua razão parar de causar dor a si mesma e se outra parte de você estiver em desgraça deixe seus pensamentos sobre si mesma serem preocupação apenas dela.

41.    Para a natureza da força vital que anima nossos corpos qualquer frustação dos sentidos é má, assim como a frustação de qualquer busca. A natureza da planta também tem suas próprias frustrações e males. Da mesma forma, qualquer frustração da mente é um mal para a natureza da mente. Aplique tudo isso à sua situação. Uma dor ou um prazer te afetam? Os sentidos cuidarão disso. Você foi frustrado em algum empreendimento? É verdade que se foi feito sem considerar a possibilidade de falha, tal frustração é realmente um mal para você enquanto ser racional. Contudo, uma vez que você aceite essa necessidade universal, não sofrerá mais nenhum mal ou frustração. Dentro de seu próprio domínio não há quem possa frustrar a mente. Fogo, espada, opressão, calúnia e tudo mais é incapaz de tocá-la. “O globo, uma vez esférico e verdadeiro, permanece esférico.”

42.    Eu, que nunca causei sofrimento a outrem de propósito, não tenho motivo para me fazer sofrer.

43.    À cada um sua própria felicidade. Para mim, solidez da minha faculdade soberana, a razão. Nenhum afastamento da humanidade e suas vicissitudes. A habilidade de estudar e aceitar todas as coisas com um olhar bondoso e lidar com elas de acordo com seus méritos.

44.    Aproveite hoje ao máximo. Aqueles que focam nos aplausos do amanhã falham em recordar que as futuras gerações não são nem um pouco diferentes das contemporâneas que tanto testam sua paciência e de maneira alguma menos mortais. De qualquer forma, pode importar a você como as línguas de amanhã poderão abanar ou que opiniões podem entreter sobre você?

45.    Pegue-me e leve para onde você quiser, ainda serei possuidor da minha divindade interior serena e contente enquanto puder sentir e agir conforme sua constituição. É mérito de tal momento que minha alma se aflija por ele e mude-se para pior para tornar-se uma coisa covarde e rastejante, suplicante e débil? Alguma coisa pode ter tais consequências?

46.    Nenhum evento acontece com um homem que não seja próprio para a condição humana. Não acontece para o gado, vinha ou pedra senão o que propriamente pertence à natureza do gado, da vinha e das pedras. Então se todas as coisas lidam somente com o que é costumeiro e adequado a elas, por quê reclamar? A mesma Natureza que é sua, assim como delas, não lhe traz nada que não seja possível suportar.

47.    Se você está estressado por algo externo, a dor não é devido à coisa em si, mas à estima que tem por ela e isso você pode revogar a qualquer momento. Se a causa do problema repousa em seu próprio caráter, comece a reformar seus princípios. Quem pode te impedir? Se é o insucesso em escolher algum método de ação aparentemente bom que está te vexando, então por que não decidir,  ao invés de se afligir? “Porque há um obstáculo insuperável no caminho.” Nesse caso, não se preocupe, a responsabilidade pela inércia não é sua. “Entretanto a vida não vale a pena ser vivida sem que eu faça essa coisa.” Ora, então dê à vida um bem humorado adeus, aceitando a frustração decorosamente e morrendo como qualquer outro homem cujas ações não foram inibidas.

48.    Lembre-se de que seu Ser superior torna-se invencível quando se recolhe para dentro de si mesmo e calmamente recusa agir contra sua vontade, mesmo que tal resistência possa ser completamente irracional. Quanto mais, então, quando essa decisão é baseada na razão e na circunspecção! Assim também uma mente livre das paixões é uma verdadeira cidadela, não há fortaleza melhor onde buscar abrigo e resistir a cada assalto. Falhar em perceber isso é ignorância. Embora perceber, e ainda assim não buscar esse abrigo é, de fato, um infortúnio.

49.    Nunca vá além do sentido de suas impressões originais. Essas te dizem que tal e tal pessoa está falando mal de você. Essa foi sua mensagem. Elas não vão além para te dizer que lhe foi feito qualquer mal. Vejo que meu filho está doente, meus olhos dizem-me isso, no entanto não sugerem que sua vida esteja em perigo. Então sempre mantenha as impressões originais, não adicione seus pareceres e ficará seguro. Ou acrescente apenas o reconhecimento da grande ordem-mundial pela qual todas as coisas vêm a passar.

50.    Seu legume está azedo? Jogue-o fora. Há espinhos em seu caminho? Desvie-se. É o bastante. Não vá a dizer: “Por que tais coisas foram trazidas ao mundo?” O estudioso da natureza irá rir de você, assim como um carpinteiro ou um sapateiro ririam, se você se angustiasse com as aparas de madeira e restos de couro de seus trabalhos em suas lojas. Ainda assim eles, pelo menos, têm onde jogar seu lixo, já a Natureza não possui tal lugar. Esse é o milagre de seu ofício: que apesar de sua autolimitação, ela ainda assim transmuta em si mesma tudo que parece desgastado, velho ou inútil e remodela isso em novas criações, de forma que nunca precisa de novos suprimentos externos ou lugar para descartar seu refugo. Seu próprio espaço, seus próprios materiais e sua própria habilidade são suficientes para ela.

51.    Ação dilatória, conversa incoerente, impressões vagas. Uma alma profundamente limitada, uma alma excessivamente efusiva, uma vida sem espaço para descanso – evite tais coisas. Martírio, mutilação, execração, como podem afetar a habilidade da mente de manter-se pura, sã, equilibrada e justa? Um homem pode ficar ao lado de um límpido regato e descarregar uma verborragia de palavras abusivas contra ele e ainda assim ele continuará provendo água pura. Ele pode até mesmo jogar lama e sujeira, porém rapidamente serão dissolvidos e levados embora, sem sobrar qualquer mancha. Como se tornar soberano de uma fonte tão perene? Ao salvaguardar o direito de ser seu próprio mestre a cada hora do dia, em toda sua caridade, simplicidade e modéstia.

52.    Sem um entendimento da natureza do universo o homem não pode saber onde está. Sem um entendimento do seu objetivo, ele não pode saber quem é, nem o que o próprio universo é. Deixe que quaisquer dessas descobertas sejam estranhas a ele e ele não será capaz nem mesmo de dar uma razão à sua própria existência. Então o que devemos pensar de qualquer um que se importa em buscar ou evitar o aplauso das multidões barulhentas, quando eles não sabem nem onde estão nem o que são?

53.    Você desejaria ser louvado por alguém que a toda hora xinga mentalmente? Você agradaria quem não consegue agradar nem a si mesmo? E como pode um homem estar contente consigo mesmo se ele se arrepende de quase tudo que faz?

54.    Assim como sua respiração faz parte do ar circundante, deixe sua mente fazer parte da Mente circundante. Pois há uma Força mental que, para aquele que consegue atraí-la para si, não é menos ubíqua e permeante de tudo do que a atmosfera para aquele que a consegue respirar.

55.    A perversão geral da humanidade não é capaz de danificar o universo, nem a perversão particular de um semelhante ferir outro. Fere apenas o próprio culpado e ele pode se livrar disso assim que decidir.

56.    A vontade do meu vizinho não é mais importante para a minha do que sua respiração ou sua carne. Não importa quanto somos feitos um para o outro, o ser de cada homem ainda tem seus direitos soberanos. Do contrário, a perversão de meu vizinho se tornaria meu mal e Deus não quis assim, para que a ruína de minha felicidade não estivesse à disposição de outrem.

57.    O sol é visto derramando-se e gastando-se em todas as direções, porém nunca se exaure. Pois esse derramar não passa de uma autoextensão. Raios solares, de fato, derivam seu próprio nome de uma palavra que significa “ser estendido.” Para entender a característica de um raio solar, veja como ele entra em um quarto escuro através de uma fenda estreita. Ele se prolonga adiante em linha reta, até que encontre algum corpo sólido que bloqueie sua passagem para o ar adiante e então ele se mantém parado ali, sem escorregar ou cair. A emissão e a difusão do pensamento deve ser a contraparte disso: não exaurindo-se, apenas se estendendo, sem chocar-se furiosamente contra os obstáculos que encontrar ou caindo em desespero. Mantendo seu terreno e iluminando aquele no qual repousa. Falhar em transmiti-la é apenas autoprivação de luz.

58.    Aquele que teme a morte teme perder todas as sensações ou teme novas sensações. Na realidade, ou você não sentirá nada, logo nenhum mal, ou então, se houver novas sensações, você será uma nova criatura, logo, não terá cessado de ter vida.

59.    Os homens existem uns para os outros. Então melhore-os ou suporte-os.

60.    Uma flecha viaja de uma forma, já a mente de outra. Mesmo quando a mente está atenta a seu caminho e trabalhando em torno de um problema em todos os ângulos, ela ainda está se movendo adiante e para seu objetivo.

61.    Entre no princípio que rege a mente de seu vizinho e faça-o passar pelo seu.


 Meditaçoes - Livro IX

Meditaçoes - Livro IX

 Meditações - Livro VII

Meditações - Livro VII


5 trechos: Com os meus olhos de cão, Hilda Hilst

Múltiplos narradores, diálogos entremeados com divagações filosóficas e um mergulho na mentalidade do personagem principal. "Com meus olhos de cão" é uma das complexas e ricas obras em prosa escritas por Hilda Hilst.

1

Esquecer os “consideremos” “por conseguinte” “suponhamos” “daEi se deduz” e tentar a incoerência de muitas palavras, de início soletrar algumas sigilosamente junto ao coração, por exemplo Vida, Entendimento, e se a pergunta vier, despejar o tambor de latão em cima daquele que pergunta, morreu é? morreu de letras. Como assim Ora, perguntou algo a alguém matemático e o cara que não falava há anos só número, sabe, verbalizou hemorragicamente. Quê? Isso mesmo, golfadas de palavras. O outro não aguentou. O cadáver mais letrado que já vi, uma beleza, cara, escurinho de letras.
— Página 24

2

Vida tão colorida, mãe, dá medo essas cores da vida, eu disse de manhãzinha olho o rosa-roxo do capim. Ela me olhou como quem entendeu. Estranho essas mulheres delicadas que se casam com homens crus, o sangue sempre à mostra, grosseria e rudeza, elas gostam é? Mas por que se tornam mais tarde tão secas, mudas, muda minha mãe como eu mesmo mudo, piedade e estupor e de tanto e porisso mesmo mudo? Ele: tem gente que pensa que o garoto é mudo. A mãe: gente boba. Ele: uns taponas na boca e ele vai abri-la, vai ver. Mudo? A mãe punha-se de pé, olhava o pai de frente. Ele tossia, disfarçava. Depois ia andando: filhos, que maçada.
— Página 28

3

Perto de algum muro encostar a carcaça e aí vem alguém: tá com fome, moço? Digo que sim e vem o pedaço de pão (sem manteiga) e o prato de comida. Ou não vem? Ou vem aquela frase: parece moço ainda, não pode trabalhar? Estertoro, digo que não, idiota, não vou trabalhar nunca mais, porque senti aquilo e compreendi naquele instante aquilo, ouviu? Chamam a polícia. Será? Só porque me encosto no muro de alguém e estertoro? O da cruz, por muito menos escorraçaram-no. Só pra limpar o suor. Ganhar fôlego. Senti o não sentível, compreendi o não equacionável.
— Página 36

4

Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre a mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isto é aquilo que vê. Esta é a matéria que vê. Toco os dois olhos em cima da mesa. Lisos, tépidos ainda (arrancaram há pouco), gelatinosos. Mas não vejo o ver. Assim é o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito.
— Página 47

5

Um coração minúsculo tentanto
Escapar de si mesmo
Dilatando-se
À procura de puro entendimento
— Página 56

Referẽncia: Com meus olhos de cão / HIlda HIlst - 2a edição - São Paulo: Globo, 2006.

Meditações, livro VII. Serenidade e uso da razão, modo de viver.

LIVRO VII

 

1.      O que é o mal? Uma coisa que você já viu inúmeras vezes. Assim como qualquer outro tipo de ocorrência, lembre-se de que, você também já presenciou isso muitas vezes antes. Pois em todo lugar, acima ou abaixo, você encontrará as mesmas coisas. Elas enchem as páginas de toda a história antiga, moderna e contemporânea, e hoje enchem nossas cidades e casas. Não há novidade, tudo é tão velho quanto transitório.

2.      Princípios só perdem sua vitalidade quando as primeiras impressões das quais derivam entram em extinção e é você quem deve manter essas chamas continuamente acesas. Eu sou capaz de formar a impressão certa de uma coisa e, dada essa habilidade, não há necessidade de me inquietar. (Quanto às coisas que estão além do meu entendimento, não dizem respeito à minha consciência). Uma vez que aprender isso ficará firme. Uma vida nova está ao seu alcance. Basta ver as coisas, uma vez mais, sob a luz de sua primeira e mais antiga visão para que a vida recomece.

3.      Um concurso vazio, uma peça de teatro, um rebanho de ovelhas ou gado, uma rixa de lanceiros, um osso lançado aos vira-latas, uma migalha de pão jogada ao lago, formigas carregadas e trabalhando, ratos assustados e correndo, marionetes sacudindo em suas cordas. Isso é a vida. Em meio a isso tudo você deve assumir sua posição, com bom temperamento e sem desdém, porém sempre consciente de que o valor de um homem não é maior que o de suas ambições.

4.      Ao conversar, atente para o que está sendo dito e ao agir, ao que está sendo feito. No último caso, procure logo qual o objetivo. No outro, o que se quer dizer.

5.      Meu entendimento é o bastante para essa tarefa ou não? Se for, o aplico ao trabalho como uma ferramenta que a Natureza me ofereceu. Se não, então ou busco – se meu dever permitir – alguém mais capaz de cumprir a tarefa ou então faço o melhor que posso com a ajuda de algum assistente, que vai se utilizar da minha inspiração para alcançarmos o que é oportuno e útil para a comunidade. Pois tudo que faço, seja por minha conta ou com alguém, deve ter como único objetivo o serviço e a harmonia de todos.

6.      Quantos cujos louvores eram cantados em voz alta hoje estão relegados ao olvido e quanto dos próprios cantores há muito se foram para longe de nossas vistas.

7.      Não se envergonhe em ser ajudado. Seu dever é fazer o que lhe é dado, como um soldado na trincheira. Como fará, então, se você estiver mancando e incapaz de escalar a ameia sozinho, senão com a ajuda de algum camarada?

8.      Nunca deixe o futuro te perturbar. Você o encontrará, caso deva, com as mesmas armas da razão que te armam hoje contra o presente.

9.      Todas as coisas estão entrelaçadas umas com as outras, uma ligação sagrada as un,; raramente há alguma coisa que esteja isolada de outras. Tudo é coordenado, tudo trabalha junto para dar forma ao universo único. A ordem-mundo é uma unidade feita de multiplicidade: Deus é uno, permeando todas as coisas. Todo ser é uno, toda lei é una (nesse caso, a razão comum que possuem todas as criaturas pensantes) e toda a verdade é una – se, como acreditamos, houver apenas um único caminho para a perfeição de seres que são iguais em tipo e razão.

10.  Rapidamente cada partícula de matéria desparece na Substância universal. Rapidamente cada causa é assimilada na Razão universal. Rapidamente a lembrança de todas as coisas é enterrada no abismo da eternidade.

11.  Para um ser racional, um ato que esteja de acordo com a natureza é um ato de acordo com a razão.

12.  Erguer-se ou ser erguido?

13.  Em um sistema que compreende diversos elementos, aqueles que possuem razão têm o mesmo papel que os membros em um organismo, sendo similarmente constituído para cooperação mútua. Essa reflexão vai o impressionar mais se você sempre disser para si: “Sou um membro dentro de todo o complexo de coisas racionais”. Se pensa em si apenas como uma “parte” então ainda não ama verdadeiramente a humanidade e nem se satisfaz em atos de bondade por ela. Você os faz apenas como dever e ainda não como bons serviços para si mesmo.

14.  Não importa o que aconteça sobre quaisquer partes de mim, elas podem reclamar disso se quiserem. De minha parte, se não vejo isso como ruim, não me sentirei em prejuízo. E nada me compele a ver as coisas como más.

15.  Independentemente do que o mundo possa dizer ou fazer, minha tarefa é manter-me bom, assim como a peça de ouro, a esmeralda ou o manto púrpura insistem eternamente: “Independente do que o mundo diga ou faça, meu dever é continuar sendo esmeralda e manter minha cor.”

16.  A razão-mestra nunca é vítima de qualquer perturbação vinda de si mesma. Ela nunca, por exemplo, incita paixões em si mesma. Se outro pode instigá-la com terror ou dor, deixe-o fazer. Porém, por si mesma, ela nunca permite que suas próprias suposições a desviem para tais humores. Deixe que o corpo tente, ao máximo, evitar ferimentos, se puder e caso se fira, deixe-o dizer. Entretanto, a alma, que sozinha não pode conhecer dor ou medo e da qual sua existência depende, não se ferirá, não se pode forçar um veredito dela. A razão-mestra é autossuficiente, não conhecendo necessidades além das que cria para si e da mesma forma não experimenta perturbações e obstruções a não ser que sejam feitas por si mesma.

17.  Eudaimonia, por derivação, significa “um bom espírito interior”, ou seja, uma boa razão-mestra. Então o que fazes aqui, vã Fantasia? Vá, em nome dos céus, como veio, não quero nada de ti. Sei que é um antigo hábito que a traz aqui e não carrego inimizade. Ainda assim, vá embora.

18.  Nós evitamos a mudança, no entanto há algo que possa vir a existir sem ela? O que a Natureza considera mais importante ou próprio de si mesma? Você poderia tomar um banho quente sem que a lenha tivesse sofrido uma mudança? Você poderia se sustentar se a comida não sofresse mudança? É possível que qualquer coisa útil seja alcançada sem mudança? Vê que a própria mudança é da mesma ordem que a Natureza e não menos necessária a ela?

19.  Todos os corpos passam pela substância universal, como se entrassem e saíssem de uma correnteza, aderindo e cooperando com o todo, como fazem nossos membros uns com os outros. Quantos Crísipos, Sócrates e Epictetos foram tragados pelo tempo! Lembre-se disso quando tiver que lidar com qualquer homem ou coisa.

20.  Apenas uma coisa me preocupa: o medo de que eu possa fazer algo que a constituição do homem reprove ou deseja que seja de outra forma ou proíba de todo até um dia futuro.

21.  Logo você terá esquecido o mundo e o mundo terá esquecido de você.

22.  Uma distinção peculiar entre os homens é amar até aqueles que erram e seguem o mal caminho. Tal amor nasce assim que você entende que eles são seus irmãos, que estão, involuntariamente, tropeçando na ignorância, que em breve vocês dois deixarão de existir e, acima de tudo, que você mesmo não se sente prejudicado, porque sua razão-mestra não foi piorada nem um pouco.

23.  A partir da substância universal, como se fosse cera, a Natureza molda um cavalo, então quebra-o ao meio e usa o material para formar uma árvore, depois um homem e então algo além e nada disso dura mais que um instante. Já para o receptáculo, não é mais difícil ser despedaçado do que montado.

24.  Um olhar enraivecido é completamente contra a natureza. Se assumido com frequência, a beleza começa a perecer e no fim é destruída sem chance de ressuscitar. Você deve tentar ver a irracionalidade disso. Porque se perdemos a habilidade de constatar nossos erros, então para quê continuar vivendo?

25.  Basta um curto instante e a Natureza, a organizadora universal, mudará tudo que vês e a partir dessa substância fará coisas novas e ainda outras a partir dessas, para a perpétua renovação da juventude do planeta.

26.  Quando alguém te fizer mal, primeiro pondere: sob qual concepção de bem e mal isso foi cometido? Uma vez que você saiba, perplexidade e raiva darão lugar à piedade. Pois ou suas próprias ideias do que é bom não são mais avançadas que as dele ou, ao menos, possuem alguma semelhança, sendo que nesse caso é claramente seu dever perdoá-lo. Ou então, por outro lado, você amadureceu a ponto de não mais se preocupar em supor que essas ações sejam boas ou ruins e, por isso, será muito mais fácil ser tolerante com a cegueira alheia.

27.  Não ceda a sonhos de ter o que não é seu, mas reconheça as maiores bênçãos que possui e então, agradecido, lembre-se de como imploraria por elas caso não fossem suas. Ao mesmo tempo, porém, cuide para que não se apegue a elas ao ponto de as ter em tão alta conta que sua perda possa destruir sua paz de espírito.

28.  Recolha-se para dentro de si mesmo. Nossa razão-mestra não pede mais do que ações justas para assim alcançar a calma.

29.  Abandone os modismos. Deixe de ser fantoche das paixões. Limite o tempo ao presente. Aprenda a reconhecer cada experiência pelo que ela é, seja sua ou de outrem. Separe e classifique os objetos do sentido em causa e matéria. Medite sobre sua última hora. Deixe os erros de seus vizinhos descansarem com quem os iniciou.

30.  Fixe seu pensamento no que está sendo dito e então permita que sua mente mergulhe entre o que está sendo feito e sua causa.

31.  Ostente o radiante sorriso da simplicidade, amor próprio, e indiferença a tudo que seja vício ou esteja fora do reino da virtude. Ame a humanidade. Ande pelo caminho divino. “Na lei, tudo”, disse o sábio. Que importa que estivesse se referindo apenas aos átomos? Para nós, é suficiente lembrar que todas as coisas realmente estão sob a lei divina. Três palavras, mas o bastante.

32.  Sobre a Morte. Dispersão, se o mundo for uma concorrência de átomos. Extinção da transmutação, se for uma unidade.

33.  Sobre a Dor. Se for além do que podemos suportar, dá cabo de nós. Se é duradoura, pode ser suportada. A mente, se afastando do corpo, mantém sua calma, e a razão-mestra segue sem ser afetada. Quanto às partes afetadas pela dor, deixe-as, se puderem, declararem seu sofrimento.

34.  Sobre a Fama. Observe quem são seus pretendentes, suas ambições e aversões. Além disso, reflita quão rápido as coisas de hoje são enterradas sob as de amanhã e até como uma camada de areia é rapidamente coberta pela próxima.

35.  “Se uma pessoa tem grandeza de pensamento, e visão ampla para contemplar todo o tempo e toda realidade, pode ela ter a vida humana como algo de grande consequência?' - 'Não, não pode.' - 'Então ela não acha que a morte é algo que devamos temer?' - 'Não'. (De Platão)

36.  “O destino dos príncipes é serem mal falados por agirem bem. ” (De Antístenes)

37.  É uma vergonha para as feições se organizarem e disporem-se conforme ordena a mente, enquanto a mesma mente recusa a ordem e a disposição de si mesma.

38.  “Não vexes teu espírito pelo curso das coisas. Elas não atentam para tua vexação. ”

39.  “Aos deuses imortais e também a nós, dai alegria. ”

40.  “Como espigas de milho as vidas humanas são ceifadas;
esse permite-se ficar, aquele é cortado.”

41.  Se o Céu não se importa nem comigo nem com meus dois meninos,
Deve haver algum bom motivo até para isso. ”

42.  “A Razão e a boa sorte estão ambas do meu lado. ”

43.  “Não há lágrimas nos que se lamuriam, nem taquicardia. ”

44.  “Eu poderia responder-lhe: 'Você está errado, amigo, se acha que um homem que vale alguma coisa deve passar o tempo ponderando as perspectivas da vida e da morte. Ele tem apenas uma coisa a considerar em qualquer ato: se está agindo certo ou errado, como um homem bom ou um ruim. ” (Platão)

45.  “A verdade sobre o assunto é essa, senhores: Uma vez que um homem tenha tomado uma decisão, seja porque lhe pareceu melhor ou obedecendo ordens, acredito que ele está obrigado a manter-se ai e encarar o perigo, não levando em conta a morte ou qualquer outra coisa ante a possibilidade da desonra. ” (Platão)

46.  “Mas peço-te, meu amigo, que pense ser possível que a nobreza e a bondade possam ser diferentes de manter-se a si e a seus amigos longe do perigo e considere se um homem de verdade, ao invés de se apegar à vida a todo custo, não deve tirar de sua mente a questão acerca de quanto tempo ele pode ter para viver. Deixe-o dispor isso à vontade de Deus, acreditando que as mulheres têm razão quando nos dizem que nenhum homem pode escapar de seu destino e deixe-o devotar-se ao próximo problema, em como viver melhor a vida que lhe foi dada. ” (Platão)

47.  Examine as estrelas circulantes, como se você estivesse orbitando com elas. Acostume-se imaginar a dança transformadora dos elementos, mudando uma e outra vez. Visões desse tipo expurgam as impurezas de nossas vidas terrenas.

48.  Platão disse uma coisa interessante: de que aquele que vai discursar sobre os homens deve avaliar, como do alto de uma torre de vigia, as coisas terrenas: suas assembleias de paz ou de guerra, economia, acasalamentos e separações, nascimentos e mortes, julgamentos, pessoas estranhas de todo tipo, banqueteando, lamentando, barganhando – observando todos os retalhos da manta se misturando e a ordem harmoniosa que é forjada a partir da contrariedade.

49.  Olhe para o passado, com seus impérios alternantes, erguendo-se e decaindo e poderá vislumbrar também o futuro. Seu padrão será o mesmo, até o último detalhe, já que não pode fugir ao ritmo da firme marcha da criação. Ver as vidas dos homens por 40 anos ou 40 mil anos é a mesma coisa, pois o que mais haverá lá para que vejas?

50.  Tudo nascido da terra a ela deve retornar. “Todo fruto da semente celeste ao céu volta” - pela desintegração de sua estrutura atômica e pela dispersão de seus elementos.

51.  “O quê, deixar de lado comida e bebida
e as belas Marés do Destino, para assim escapar da Morte?”

“Os ventos soprados de Deus devem ser encarados
Com remos diligentes e corações contentes”

52.  “Melhor derrubador”, sem dúvida – porém não mais espirituoso publicamente, mais discreto, mais disciplinado e indulgente aos descuidos do próximo.

53.  Se um feito pode ser alcançado de acordo com aquela razão que os homens compartilham com os deuses, então não há nada a temer. Onde a oportunidade de um favor nos aparece, por alguma ação que obedece sem dificuldades as leis de nosso ser, não precisamos nos preocupar.

54.  Ao alcance de seu poder, a qualquer momento e lugar, jaz uma aceitação serena acerca dos acontecimentos diários, um tratamento justo para com o próximo e uma atenção escrupulosa às impressões do dia para que nenhuma delas entre sem ser verificada.

55.  Não dê atenção aos instintos que governam outros homens, mantenha seus olhos fixos no objetivo ao qual a natureza o induz – o Mundo-Natureza falando através das circunstâncias e sua própria natureza falando através dos chamados do dever. Os atos do homem devem estar de acordo com sua constituição natural e enquanto todas as outras coisas criadas são constituídas para servirem aos seres racionais (de acordo com a lei geral de que o inferior existe para o bem do superior), os últimos são constituídos para servirem uns aos outros. A maior das características da constituição de um homem, então, é o dever para com os de seu tipo. Depois dessa vem sua obrigação de resistir aos desejos da carne, porque o dever particular de sua razão e intelecto é manter uma cerca ao redor de seus trabalhos para que não sejam suplantados pelos dos sentidos ou impulsos, ambos animalescos. A mente demanda o primeiro lugar e não vai se rebaixar sob seu jugo. Muito corretamente, já que a natureza a criou para que fizesse uso de todo o resto. E terceiro, a constituição de um ser racional deve fazê-lo incapaz de indiscrição e invulnerável a malogros. Deixe a Razão, o timoneiro, seguir um curso reto, se apegando a esses três princípios e tenha certeza de que ela chegará por conta própria.

56.  Finja que você morreu hoje e sua história de vida acabou. De agora em diante veja o tempo que lhe for dado como um acréscimo imprevisto e viva em harmonia com a natureza.

57.  Não ame nada além daquilo que vem a você costurado na manta de seu destino. Pois o que se encaixaria melhor às suas necessidades?

58.  Em qualquer dificuldade, coloque diante de si o caso de outros homens que receberam uma crise parecida com surpresa, indignação e gritaria. Onde estão eles agora? Lugar nenhum. Então por quê seguir o exemplo deles? Deixe o humor dos outros para seus mestres ou servos e dê tudo de si para transformar o próprio evento em algo de bom. Dessa maneira você estará sendo o mais útil possível e isso lhe servirá como uma ferramenta. Em cada ato deixe que sua própria aprovação seja o único objetivo de seus esforços e de sua intenção, tendo em mente que o evento que propiciou sua ação não trará consequências a nenhum dos dois.

59.  Aprofunde-se interiormente. Lá reside a fonte do bem: sempre se aprofunde e o bem sempre vai fluir.

60.  Também faça com que sua postura seja firme e sem contorções, estando em movimento ou descansando. Assim como a mente se revela na face, mantendo suas feições compostas e decentes, o mesmo deve ser exigido de todo o corpo. Tudo isso, óbvio, deve ser mantido sem nenhuma forma de afetação.

61.  A arte de viver se parece mais com a luta do que com a dança, pois ela, também, demanda um estado de firmeza e vigilância contra qualquer acontecimento inesperado.

62.  Sempre busque conhecer o caráter daqueles cuja aprovação você quer conquistar e a natureza de seus princípios. Busque as fontes de suas opiniões e seus motivos e então você não os culpará por qualquer ofensa involuntária, nem sentirá necessidade de sua aprovação.

63.  “Nenhuma alma”, foi dito, “esquece a verdade de bom grado. ”  E o mesmo serve bem para a justiça, autocontrole, bondade ou qualquer outra virtude. Nada deve ser mantido em mente mais constantemente do que isso. Te ajudará a ser mais gentil no trato com as pessoas.

64.  Quando estiver com dores, sempre se lembre de que não há nada vergonhoso nisso e nada prejudicial à mente ao timão, que não sofre injúrias em seus aspectos racional ou social. Quase sempre a citação de Epicuro deve se provar útil, que “a Dor nunca é insuportável ou inesgotável, desde que você tenha em mente as limitações dela e não alimente exageros fantasiosos”. Observe também que, embora não percebamos, muitas outras coisas que consideramos desconfortáveis são, de fato, da mesma natureza da dor: sentimentos de letargia, por exemplo, febre ardente ou perda de apetite. Quando estiver tentado a queixar-se de alguma dessas coisas, diga para si mesmo que você está se entregando à dor.

65.  Quando homens são desumanos tome cuidado para não sentir por eles o que eles sentem pelos outros humanos.

66.  Como sabemos que Telauge pode não ter sido um homem melhor que Sócrates? É normal argumentar que Sócrates morreu mais nobremente ou disputou mais incisivamente com os sofistas ou se manteve mais firme contra os rigores de uma noite gelada; que ele, genioso, resistiu à ordem de prender Leão de Salamina, ou “andou pelas ruas com majestade” (embora essa última possa muito bem ser questionada) – porém a verdadeira questão a ser considerada é: Que tipo de alma ele teve? Ele não pediu nada mais do que ser justo com os homens e puro ante os deuses? Ele evitou tanto ressentimento aos vícios de outros ou submissão à ignorância deles? Ele aceitou o que o destino lhe deu, sem olhar para isso como algo artificial, nem sofrendo como se fosse uma aflição insuportável, nem permitindo sua mente ser influenciada pelas experiências carnais?

67.  A Natureza não fundiu a mente tão inextrincavelmente ao corpo ao ponto de evitar que estabelecesse suas próprias fronteiras e controlasse seu próprio domínio. É perfeitamente possível ser divino, mesmo não tendo reconhecimento como tal. Sempre tenha isso em mente e também de que muito pouco é necessário para uma vida feliz. O domínio da dialética ou da física pode ter te iludido, no entanto não há motivo para desistir de alcançar liberdade, autoestima, altruísmo e obediência à vontade de Deus.

68.  Viva seus dias em plena serenidade, recusando ser coagido mesmo que todo o mundo o ensurdeça com suas demandas, mesmo que bestas selvagens despedacem esse pobre receptáculo de argila. Em tudo isso, nada pode evitar que a mente se possua em paz, de ponderar corretamente os eventos ao seu redor e de usar prontamente o material assim oferecido. Para que então o julgamento possa dizer ao evento: “Isso é o que você é essencialmente, não importando como os rumores te pintem”. E o serviço possa dizer à oportunidade: “Você é o que eu estava procurando”. A ocorrência do momento é sempre boa para usar a razão e a fraternidade – em uma palavra, para as práticas próprias aos homens ou deuses. Pois nada acontece sem que tenha uma pertinência especial a deuses ou homens. Não vem como um problema novo sem resolução, mas como um velho e útil amigo.

69.  Viver cada dia como se fosse o último, nunca afobado, nunca apático, nunca precipitado – aqui está a perfeição de caráter.

70.  Os deuses, embora vivam para sempre, não se ressentem de ter que lidar eternamente com as gerações humanas e seus pecados. Mostram todo cuidado e preocupação possíveis por elas. Você, então, cuja duração não passa de um instante, perderá a paciência – você que é um dos próprios culpados?

71.  Como é ridículo não fugir das próprias maldades, que é possível, e, no entanto, lutar para fugir das maldades dos outros, que é impossível.

72.  Tudo que a razão e a faculdade social achem impensado e egoísta, pode ser, sensatamente, pronunciado só para si mesmas.

73.  Quando você fizer o bem, e alguém se beneficiar disso, para quê pedir mais – aplausos por sua bondade ou algum favor em troca – como fazem os tolos?

74.  Ninguém se cansa de ser beneficiado. Entretanto os benefícios vêm de atos que estão de acordo com nossa natureza. Nunca canse, então, de receber tais benefícios através do próprio ato de conferi-los.

75.  O impulso da Natureza Universal foi de criar um mundo ordenado. Daí se segue, então, que tudo que está acontecendo deve seguir uma sequência lógica. Se não fosse assim, o motivo primário para o qual os impulsos do Mundo-Razão estão direcionados seria irracional. Lembrar-se disso ajudará a lidar com muitas coisas mais serenamente.


 Meditações de Marco Aurélio, Livro VI

Meditações de Marco Aurélio, Livro VI


Meditações, livro VI. Como lidar com a passagem do tempo e os deveres individuais.

LIVRO VI

 

1.      A matéria no universo é maleável e complacente e a Razão que a controla não tem motivos para fazer o mal, pois não tem malícia, nem age com a intenção de prejudicar. Assim, nada é prejudicado por ela. Sob suas ordens tudo tem seu nascimento e sua plenitude.

2.      Se você estiver fazendo o que é certo nunca se preocupe se está passando frio ou ao pé de uma reconfortante fogueira; sonolento ou revigorado por um sono profundo; ultrajado ou aplaudido; à beira da morte ou fazendo qualquer outra coisa. (Pois morrer também é parte da vida; e nesse caso também não lhe é requerido nada além de “garantir que o trabalho atual esteja bem feito. ”)

3.      Enxergue sob a superfície: nunca deixe que a qualidade intrínseca ou o valor de uma coisa escape a você.

4.      Todos os objetos materiais mudam rapidamente: seja por sublimação (se a substância do universo é mesmo uma unidade) ou por dispersão.

5.      Razão, a controladora, entende perfeitamente as condições, o motivo, e os materiais de sua obra.

6.      Evitar a imitação é a melhor vingança.

7.      Faça com que seu prazer e repouso seja passar de um serviço à comunidade para outro, sempre com Deus em sua mente.

8.      Nossa razão-mestra é consciente de si e tem controle sobre si mesma. Ela não só escolhe o que quer ser, mas também impõe a forma de sua escolha em qualquer coisa que ela experiencie.

9.      Tudo atinge sua plenitude segundo o direcionamento da Natureza universal, dado que não existe natureza rival, seja contendo-a exteriormente, contida dentro dela ou mesmo existindo separada e isolada dela.

10.  Ou o mundo é uma mixórdia de coesões e dispersões aleatórias ou então é uma unidade de ordem e providência. Sendo o primeiro, porque querer viver em tal confusão caótica sem sentido? Para quê se preocupar com qualquer coisa além da forma como retornaremos ao pó? Para quê me preocupar se, não importando o que eu fizer, a dispersão irá se sobrepor a mim cedo ou tarde? Porém, se o contrário for verdadeiro, então faço uma reverência, me mantenho firme e coloco toda minha confiança no Poder direcionador.

11.  Quando a força das circunstâncias minar sua tranquilidade, não perca tempo em recuperar o autocontrole e não fique desequilibrado por mais tempo do que for necessário. O hábito de recorrer à harmonia irá aumentar seu controle sobre ela.

12.  Se você tivesse uma madrasta e ao mesmo tempo uma mãe, você cumpriria seus deveres para com a primeira, entretanto ainda voltaria continuamente à sua mãe. Aqui, você tem ambos: a Corte e a filosofia. Uma e outra vez retorne à filosofia para renovar-se. Dessa maneira até a vida na Corte, com você incluso nela, se tornará suportável.

13.  Quando a carne e outras iguarias estiverem ante você, reflita: Isso é peixe morto, frango e porco; esse Falerniano é um pouco do sumo de algumas uvas; minha túnica vermelha é a lã de uma ovelha tingida com o sangue de um crustáceo; a cópula é a fricção dos membros e uma descarga ejaculatória. Reflexões desse tipo vão ao âmago das coisas, penetrando-as e expondo sua verdadeira natureza. O mesmo processo deve ser aplicado ao conjunto da vida. Quando forem muito plausíveis as credenciais de alguma coisa, desnude-a, observe sua banalidade e tire o manto verborrágico que a dignifica. A presunção é a maior enganadora e tanto mais ilusória quanto mais você imagina meritório seu trabalho. Veja o que Crates tem a dizer do próprio Xenócrates.

14.  O vulgo costuma admirar apenas as coisas mais elementares, que existem por conta de uma coesão meramente inorgânica ou por um processo natural; coisas de madeira e pedra, por exemplo, ou plantações de figueiras, vinhas e oliveiras. Mentes com algum grau de iluminação são atraídas por coisas animadas, como manadas e rebanhos. Um passo adiante no refinamento leva à admiração da alma racional: racional, todavia, não ainda no sentido de ser parte da Razão universal, mas apenas como possessão de certas habilidades artesanais ou outros talentos do tipo – ou meramente a posse de um grande número de escravos. Todavia, o homem que valoriza uma alma que seja racional, universal e social não se interessa por mais nada. Objetiva apenas a harmonia de sua alma, as atividades racionais e sociais e trabalhar com seus companheiros para esse fim.

15.  Uma coisa entra em existência, outra sai dela. Mesmo enquanto algo está no ato de começar a existir, uma parte dela já deixou de ser. Fluxo e mudança estão sempre renovando a estrutura do universo, assim como o interminável circular do tempo está sempre a renovar o aspecto da eternidade. Em tal corredeira, onde não há nenhuma base firme, o que deve um homem valorizar entre as coisas que rapidamente passam por ele? Seria como se apegar a um pássaro que passa voando, o qual logo perde-se de vista.  A vida do homem não passa de uma inalação do ar e uma exalação pelo sangue; e não há diferença entre aspirar um sopro de ar, somente para exalá-lo em seguida, como fazemos a todo instante, e receber o próprio poder de respirar, como você fez ontem ao nascer, somente para devolvê-lo um dia à fonte de onde você o retirou.

16.  A transpiração não deve ser valorizada; a compartilhamos com as plantas. Nem a respiração; a compartilhamos com as bestas dos campos e das florestas. Nem a percepção dos sentidos ou os arroubos impulsivos, nem os instintos gregários ou o processo de nutrição – o qual, na verdade, não possui nada de mais digno do que o de excreção. E então, o que devemos valorizar? Os aplausos? Não; nem o rumor de línguas, que é ao que se limita os louvores do vulgo. Excluindo então as ilusões da fama, o que resta para ser desejado? Em meu julgamento, isso: coordenar, tanto ativa quanto passivamente, o objetivo de nossas constituições naturais. Isso, no fim, é o objetivo de todo treinamento e trabalho, pois todo trabalho busca adaptar um produto ao fim para o qual foi produzido. O lavrador cuidando de sua vinha, o cavalariço domando seu cavalo, o adestrador treinando seu cachorro, todos têm esse objetivo em vista. Os esforços de tutores e professores também são dirigidos para esse fim. Aqui está o que procuramos valorizar. Faça disso seu objetivo e não será tentado por nenhum outro. Abandone todas as outras ambições que cultivas, ou então nunca será mestre de si mesmo, nunca será independente dos outros ou imune às paixões. Estará fadado a olhar com inveja, ciúmes e suspeita qualquer um que possa te roubar essas coisas e criar intriga contra qualquer um que possua o tesouro que cobiças para si. A crença de que coisas desse tipo são indispensáveis é certeira em causar tumulto interior e muitas vezes leva a murmúrios contra os deuses também. Ao passo que respeitar e estimar seu próprio entendimento o manterá em paz consigo mesmo, unido com a humanidade e em harmonia com os deuses, aquiescendo de bom grado com o que quer que eles te dispensem ou ordenem.

17.  Acima, abaixo e ao nosso redor redemoinham os elementos em seus percursos. Porém, a virtude não reconhece tais movimentos: ela é uma coisa mais divina, movendo-se serenamente adiante em caminhos além do entendimento.

18.  Como são estranhos os costumes dos homens! Não dispensam uma palavra de elogio a seus contemporâneos, que vivem em seu próprio meio, e ainda alimentam, para si, grande cobiça pelo louvor das futuras gerações, a quem nunca viram nem nunca verão. E quase resmungam por não terem recebido elogios de seus ancestrais!

19.  Somente porque algo lhe é difícil não suponha que esteja além da capacidade mortal. Ao contrário, se algo é possível e próprio de ser feito pelo homem, presuma que esteja ao alcance de sua capacidade.

20.  Quando um oponente, no ginásio, nos arranha ou machuca nossa cabeça em uma colisão, não protestamos nem nos sentimos ofendidos e depois não ficamos suspeitando que o tenha feito por mal. Ainda assim o observamos cautelosamente; não com inimizade ou suspeita, mas mantendo moderadamente nossa distância. Seja assim nos outros momentos da vida também. Concordemos em não fazer caso de muitas coisas naqueles que são, por assim dizer, nossos concorrentes. Uma simples evasiva, como eu disse, está sempre disponível para nós, sem qualquer suspeita ou má vontade.

21.  Se alguém mostra e prova-me que estou errado em pensamento ou atitude, mudarei de bom grado. Busco a verdade, que ainda não prejudicou ninguém. Somente a persistência em ilusões e na ignorância é que causa danos.

22.  Faço o que é meu dever. Nada me distrai, pois ou será algo inanimado e irracional ou alguém que está equivocado e ignora o caminho adequado.

23.  Seja generoso e liberal em sua atitude para com criaturas irracionais e com as coisas materiais em geral, pois você possui razão e elas não. Seres humanos, por outro lado, possuem razão, então trate-os com um sentimento de fraternidade. Em tudo conte com os deuses para pedir ajuda – porém sem exagerar a duração de suas preces. Três horas bastam.

24.  Na morte, Alexandre da Macedônia acabou do mesmo modo que seus cavalariços. Ou foram todos recebidos no mesmo princípio gerador do universo ou foram dispersados em átomos.

25.  Pense no número de coisas, físicas e mentais, que ocorrem ao mesmo tempo em cada um de nós. Não te surpreenderá que um número infinito de coisas – de fato, tudo que nasce nesse Todo-Único que chamamos de universo – podem existir simultaneamente.

26.  Se te pedissem para soletrar o nome Antonino, você gritaria cada letra o mais alto possível, e então, se seus ouvintes se enfurecessem, se enraiveceria também? Antes, não preferiria enumerar as letras em voz baixa, uma por uma? Bem, lembre-se que, em vida, cada parte do dever é igualmente composta de itens separados. Preste muita atenção a cada um deles, sem espalhafato ou choque de temperamentos, e assegure uma execução metódica da tarefa que lhe foi apontada.

27.  Que bárbaro, negar aos homens o privilégio de buscar o que imaginam ser preocupações e interesses próprios a eles! Ainda assim, de certa forma, é exatamente o que você faz quando permite que sua indignação surja quando erram. Afinal de contas, eles estão apenas seguindo seus aparentes interesses e preocupações. Você diz que eles estão equivocados? Oras, diga isso a eles e explique, ao invés de ficar indignado.

28.  Morte: uma libertação das impressões dos sentidos, dos impulsos dos apetites, das excursões do pensamento e da servidão à carne.

29.  Vergonha para a alma: vacilar na estrada da vida enquanto o corpo ainda subsiste.

30.  Cuide para não bancar o monarca demais ou ser muito tingido pelo rubro, pois isso pode muito bem acontecer. Mantenha-se simples, bom, puro, sério e modesto; amigo da justiça e da piedade; gentil, afetuoso e resoluto em sua devoção ao dever. Esforce-se ao máximo para ser o homem que a Filosofia desejaria que fosse. Reverencie os deuses, auxilie seus semelhantes. A vida é curta e essa existência terrena tem somente um fruto a dar: santidade interna e ação altruísta por fora. Seja discípulo de Antonino em tudo: lembre-se de sua insistência no controle da conduta pela razão, sua calma compostura em todas as ocasiões e sua própria santidade; a serenidade de seu olhar e a doçura de seus modos; seu desdém pela fama e seu zelo em conhecer os fatos; como ele nunca despachava qualquer assunto até que o houvesse examinado e entendido claramente; como sofria críticas injustas sem responder no mesmo tom; como era apressado e distante para com falastrões; sagaz ao julgar homens e modos, embora nunca severo; livre de nervosismos, suspeitas e afetações; como se satisfazia facilmente quanto ao alojamento, cama, vestimentas, refeições e serviços; quão engenhoso e paciente; como, graças a sua dieta frugal, ele podia se manter trabalhando de manhã até a noite sem nem mesmo atender aos chamados da natureza até que desse o horário de costume; como era firme e constante em suas amizades, tolerando até mesmo as mais claras oposições às suas opiniões e recebendo qualquer sugestão de aperfeiçoamento com boa vontade; quanta reverência, livre do menor traço de superstição, ele mostrava aos deuses. Lembre-se de tudo isso para que quando chegar a sua última hora sua consciência esteja limpa como a dele.

31.  Volte agora a seus sóbrios sentidos. Lembre-se de seu verdadeiro eu, acorde do torpor e reconheça que eram apenas pesadelos. E da mesma forma que os olhou, olhe agora para o que chega a seus olhos despertos.

32.  Um corpo e uma alma me abrangem. Para o corpo tudo é indiferente, pois é incapaz de fazer distinções. À mente, as únicas coisas que não são indiferentes são suas próprias atividades e essas estão sob seu controle. Além disso, mesmo quanto a elas sua única preocupação é com as do presente momento. Assim que se tornam passado, ou quando ainda estão no futuro, também se tornam indiferentes.

33.  Dores nos pés e nas mãos não são antinaturais, desde que mãos e pés estejam fazendo seu trabalho. Assim, nenhuma dor é contrária à natureza do homem, enquanto homem, desde que esteja a fazer o trabalho digno de um homem. E se estiver de acordo com a natureza, não poderá ser um mal.

34.  Em que prazeres extraordinários os ladrões, pervertidos, parricidas e tiranos encontram seu divertimento.

35.  Perceba como artesãos comuns vão ao encontro dos desejos de um empregador leigo sem, no entanto, se desviarem das regras de seu ofício e recusando abrir mão delas. Não é deplorável que um construtor ou um médico respeitem mais os critérios de seu ofício do que o homem respeita os seus próprios critérios, os quais ele compartilha com os deuses?

36.  No universo, a Ásia e a Europa não passam de dois pequenos Cantos. Todo o oceano, uma gota d'água. Athos, uma pequena protuberância na terra. A vastidão do tempo, um ponto na eternidade. Tudo é pequeno, inconstante e perecível. Tudo procede de uma única fonte, descendendo, indireta ou diretamente, da Razão soberana e universal. Até a mandíbula aberta do leão, o veneno mortal e todas as outras coisas que causam mal, a roseira selvagem e o lamaçal, são subprodutos de algo que é, por si mesmo, nobre e belo. Então não pense neles como estranhos Àquilo que você reverencia, lembre-se da origem única que é comum a todos.

37.  Ver as coisas do presente é ver tudo que é agora, tudo que tem sido desde o início e tudo que deverá ser até o fim do mundo, dado que todas as coisas são de um único tipo e uma única forma.

38.  Pense no elo que une todas as coisas no universo e sua interdependência. Tudo está, de certo modo, entrelaçado e, consequentemente, conectado em mútua afeição porque sua sucessão em ordem é proveniente da operação de correntes de tensão e da unidade de toda a substância.

39.  Adapte-se ao ambiente a que sua sorte o levou e demonstre verdadeira fraternidade pelos semelhantes com os quais o destino o cercou.

40.  Está tudo bem com um utensílio, instrumento ou ferramenta quando ele serve ao uso para qual foi feito, embora neste caso o fabricante não esteja presente. Porém nas coisas formadas pela Natureza o poder que as produziu ainda está, e permanece, em seu interior. Deves reverenciar ainda mais a natureza e saber que apenas vivendo de acordo com a vontade dela pode-se ter tudo ao seu desejo. Essa é a maneira pela qual o universo, também, tem tudo de acordo com seus desejos.

41.  Se você supõe que algo fora de seu controle é bom ou mal para você, então o acaso de perder um ou encontrar o outro certamente fará com que se sinta ofendido pelos deuses e cruel com os homens que sabe ou suspeita serem responsáveis por sua falha ou má sorte. Realmente cometemos muitas injustiças por darmos importância a coisas desse tipo. Porém quando limitamos nossas noções de bem ou mal estritamente ao que está sob nosso poder, não sobra razão nem para levantarmos acusações contra Deus nem para nos colocar em atrito com os homens.

42.  Todos trabalhamos juntos para o mesmo fim. Uns, consciente e voluntariamente, outros inconscientemente (como Heráclito, acredito, assinalou que “até mesmo em seu sono os homens estão a trabalhar” e contribuir com sua parte ao processo cósmico). A um homem recai essa fração do dever, a outro, aquela e não é pequena a contribuição daquele infeliz que faz tudo para impedir e desfazer o curso dos eventos. O universo tem necessidade até desses. Resta a você, então, decidir com quem vai se aliar, porque invariavelmente aquele que tudo dirige vai encontrar algum bom uso para você e dar-lhe um lugar entre seus ajudantes e trabalhadores. Somente cuide para que o seu não seja naquela triste função que, de acordo com Crísipo, é exercida pelos palhaços no palco.

43.  O Sol pensa fazer o trabalho da chuva? Ou Asclépio o de Demétrio? E como é com as estrelas? Não são todas diferentes, porém trabalhando em conjunto para um único fim?

44.  Se os deuses se reuniram em conselho para decidir sobre mim e o que acontecerá comigo, então seu conselho foi bom. Pois é difícil conceber que um conselho divino erre. Além do mais, que incentivo teriam eles em agir para me causar danos? Onde estaria o ganho, tanto para eles, quanto para o universo que é sua preocupação principal? Mesmo que eles não tenham um interesse em especial por mim, pelo menos o tiveram pelo universo e eu devo ser aberto e bem-disposto para com qualquer coisa que aconteça como resultado. Se, claro, eles não pensaram em nada – uma coisa ímpia de se acreditar – oras, vamos pôr fim aos sacrifícios, rezas, votos e todas as coisas e ações pelas quais reconhecemos a presença de deuses vivendo em nosso meio. Entretanto, mesmo que seja verdade que eles não se importam com nossas preocupações mortais, ainda sou capaz de cuidar de mim mesmo e de meus interesses. E o interesse de toda criatura está na conformidade com sua própria constituição e natureza. Minha própria natureza é racional e cívica, tenho uma cidade e uma nação. Como Marco tenho Roma e como ser humano tenho o universo. Consequentemente, o que é benéfico a essas comunidades é o único bem para mim.

45.  Tudo que acontece ao indivíduo é para o bem do todo. Isso, por si mesmo, é justificativa o bastante para nós, porém se você olhar de perto também perceberá que, em geral, o que é bom para um homem o é também para seus semelhantes. (“Bom”, aqui, deve ser tomado no sentido mais popular, incluindo coisas que são moralmente indiferentes).

46.  Assim como as performances no circo ou em outros lugares de entretenimento cansam com sua perpétua repetição das mesmas coisas, monotonia que faz o espetáculo ser cansativo, também é assim com o conjunto da experiências da vida: em nosso caminho, cheio de altos e baixos, tudo se prova sempre o mesmo – tanto causas quanto efeitos. Por quanto tempo então...?

47.  Pondere em sua mente a multitude de mortos de todas as classes e nações, indo até Philistion, Fébo e Origanion. A partir dos últimos deixe seus pensamentos passarem para os outros, pense em como devemos seguir para onde tantos grandes oradores já se foram, tantos filósofos reverenciados – Heráclito, Pitágoras, Sócrates – os heróis da antiguidade, os capitães e os reis de tempos posteriores e com eles Eudoxo, Hiparco, Arquimedes e muitos outros. Inteligências afiadas, espíritos sublimes, homens infatigáveis, engenhosos e resolutos. Aqueles que fizeram divertidos gracejos sobre a transigência e brevidade dessa vida mortal, como Menipo e sua escola. Medite sempre sobre esses homens há muito mortos. Como eles podem estar piores agora – especialmente aqueles cujos nomes foram esquecidos? Nessa vida apenas uma coisa é preciosa: viver seus dias em verdade, justiça e caridade até mesmo com o falso e o injusto.

48.  Quando quiser revigorar seus espíritos, pense nas qualidades boas de seus amigos: a capacidade desse, a modéstia daquele, a generosidade de outro e assim por diante. Não há remédio mais certo para a depressão do que ver exemplos de diferentes virtudes no caráter daqueles ao nosso redor, exibindo-os o mais abundantemente possível. Portanto tenha-os sempre diante de você.

49.  Você se sente mal de pesar apenas tantos quilos ao invés de 300? Então por quê reclamar de viver apenas tantos anos ao invés de mais? Assim como você está contentado com a quantidade de substância que lhe foi permitida, seja também com a medida do tempo.

50.  Tente mover os homens pela persuasão, todavia haja contra a vontade deles se os princípios da justiça o exigirem. Porém, se alguém usar força para te obstruir use outro meio. Resigne-se sem alarde e transforme o obstáculo em uma oportunidade para exercitar alguma outra virtude. Sua tentativa sempre foi objeto de reservas. Lembre-se, você não estava buscando o impossível. O que então? Simplesmente buscou tentar. Nisso você teve sucesso e com isso o objetivo de sua existência foi alcançado.

51.  O homem ambicioso pensa encontrar seu bem nos negócios dos outros. O homem hedonista em suas próprias sensações. Já o homem entendido o encontra em seus atos.

52.  Você não é obrigado a formar qualquer opinião sobre o tema diante de você, nem a perturbar sua paz de espírito. Coisas em si mesmas não têm o poder de te extorquir um veredito.

53.  Acostume-se a prestar atenção no que dizem os outros e tente, ao máximo, entrar na mente de quem fala.

54.  O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha.

55.  Se a tripulação passa a difamar o timoneiro ou os pacientes seu médico, há alguém mais que eles possam ouvir? E como poderia esse alguém garantir a segurança dos marinheiros ou a saúde dos pacientes?

56.  Quantos dos que vieram a esse mundo comigo já o deixaram!

57.  A um homem com icterícia o mel parece amargo, a alguém mordido por um cachorro louco a água é horrorosa, às crianças uma bola é um tesouro valioso. Então por quê me entrego à raiva? Por quê pode-se supor que um erro de pensamento é menos pior do que a bile na icterícia ou o vírus da hidrofobia?

58.  Ninguém pode te impedir de viver de acordo com as leis da sua natureza pessoal e nada pode lhe acontecer que seja contra as leis do Mundo-Natureza.

59.  Que tristes essas criaturas que o povo procura agradar! Que tristes os fins que almejam e através de que tristes meios! Quão rapidamente o tempo deve cobrir todas as coisas! Quanto já cobriu!


 Meditações - Livro V

Meditações - Livro V