5 trechos: Acontecimentos na irrealidade imediata, Max Blecher

Pouco antes de morrer aos 28 anos de idade, Max Blecher publicou “Acontecimentos na irrealidade imediata” um livro que a crítica já categorizou desde surrealista até hiper-realista. Se a definição nos foge é porque também o livro trata da própria obliquidade inerente ao ser e à realidade com uma maestria e um olhar aguçado que justifica as comparações que fazem hoje entre ele e grandes nomes como Kafka, Proust e Schulz.

1

Ao fitar por muito tempo um ponto fixo na parede, às vezes acabo não sabendo mais quem sou nem onde estou. Então, sinto claramente falta da minha identidade, como se eu tivesse me tornado, de repente, um estrangeiro perfeito. Esse personagem abstrato e minha pessoa real disputam em pé de igualdade minha convicção.
— Página 7

2

As palavras cotidianas não têm valor em determinadas profundezas da alma. Tento definir com exatidão as minhas crises, mas só encontro imagens. A palavra mágica que vier a exprimi-las deverá tomar algo emprestado das essências de outras sensibilidades da vida, destilando-se delas como uma nova fragrância criada a partir de uma sábia composição de perfumes.
Para existir, ela deverá incluir algo da estupefação que me toma quando observo uma pessoa na realidade e depois acompanho com atenção seus gestos no espelho; algo do desequilíbrio das quedas num sonho, com seu sibilo de pavor que percorre a espinha dorsal num momento inesquecível; ou algo da névoa e da transparência habitadas por bizarros elementos decorativos em bolas de cristal.
— Página 18

3

Que esplêndido, que sublime é ser louco!, dizia para mim mesmo, constatando, com um inimaginável desgosto, quantos costumes familiares arraigados e estúpidos e que esmagadora educação racional me separava da liberdade extrema da vida de um louco.
— Página 63

4

No lugar da minha descrença na arte do desenhista, surgiu uma infinita admiração.
Nela, senti a mágoa de não ter observado antes a qualidade essencial do quadro, fazendo crescer em mim, ao mesmo tempo, minha grande insegurança em tudo o que via: já que eu contemplava por tantos anos aqueles desenhos sem descobrir a própria matéria de que eram constituídos, não seria possível que me escapasse, devido a uma miopia semelhante, o significado de todas ao meu redor, significado esse nelas inscrito, talvez, tão claramente quanto as letras que compunham aqueles quadros?
— Página 89

5

“Sua vida foi assim e não de outra maneira”, diz a lembrança, e essa frase engloba a imensa nostalgia deste mundo fechado em suas próprias luzes e cores herméticas, das quais nem mesmo uma vida tem permissão de extrair nada senão o aspecto de uma banalidade exata.
Ela engloba a melancolia de ser único e limitado num mundo único e mesquinhamente árido.
— Página 173

Referência: Max Blecher. Acontecimentos na irrealidade imediata. 1ª edição. São Paulo: Cosac Naify, 2013. Tradução: Fernando Klabin.