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5 trechos para te fazer ler: Memórias do subsolo de Fiódor Dostoiévski

Através de um narrador sem nome, solitário e ranzinza, Dostoiévski vai do monólogo à narrativa num livro curto e cheio de força no qual, ao fim, quase nada passa incólume durante a vida do homem do subsolo.

1

Em suma, pode-se dizer tudo da história universal, tudo que puder vir à cabeça da imaginação mais perturbada. Só não dá pra dizer uma coisa: que é sensata. Os senhores vão se engasgar na primeira palavra.
— Página 31

2

Outra circunstância ainda me atormentava: justamente que ninguém parecia comigo, e eu não me parecia com ninguém. “Sou sozinho e eles são todos”, pensava, e caía em melancolia.
Só isso deixa evidente que eu ainda era bem criança.
— Página 44

3

“E como são poucas, poucas”, pensava, de passagem, “as palavras necessárias, o idílio necessário (e um idílio ainda por cima afetado, livresco, montado) para imediatamente revirar toda uma alma humana a meu bel-prazer. Isso é que é solo fresco!
— Página 105

4

Eu estava tão habituado a pensar e imaginar tudo como nos livros, e ver tudo no mundo como tinha fabricado nos sonhos, que não entendi imediatamente aquela estranha circunstância. Aconteceu o seguinte: Liza, ofendida e esmagada por mim, entendeu muito mais do que eu imaginava.
— Página 117

5

Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente vamos nos confundir e nos perder; não saberemos a quem nos unir, a quem seguir; o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Incomodamo-nos até em ser gente, gente com corpo e sangue real, próprio; temos vergonha disso, consideramos uma ignomínia e fazemos de tudo para ser uma espécie inexistente de homens gerais.
— Página 123

Referência: Fiódor Dostoiévski. Memórias do subsolo. 1ª edição. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016. Tradução: Irineu Perpétuo.