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Muda e cega: a armadilha da crítica exposta por Roland Barthes

“Se se representa a imbecilidade, é para espantar o público e levá-lo, assim, de uma cumplicidade de impotência a uma cumplicidade de inteligência.” - Roland Barthes

 

Roland Barthes

A profusão de publicações e lançamentos é um desafio ao leitor quando o volume impede que se tenha uma compreensão geral daquilo que é pensado e escrito hoje. Mesmo entre o pouco que cada um de nós realmente consegue ler é preciso filtrar inumeráveis títulos. Nessa tarefa o crítico especializado se torna um aliado importante, não por nos servir como guia, mas como uma opinião digna de nota.

Todavia, é preciso filtrar até mesmo os críticos que nos dispomos a dar atenção e esse é um problema que Roland Barthes já alertava quando publicou seu famoso livro “Mitologias” na década de 1950. Voltado para estudos semiológicos e análise do imaginário cotidiano, em seu livro o ensaio “Crítica muda e cega” aponta uma armadilha da suposta crítica literária.

“Os críticos (literários ou dramáticos) utilizam frequentemente dois argumentos bastante singulares. O primeiro consiste em decretar bruscamente o objeto da crítica inefável e, consequentemente, a crítica inútil. O outro argumento, que também aparece periodicamente, consiste em se confessar demasiado estúpido e rude para compreender uma obra considerada filosófica.”

De acordo com Barthes, o não entendimento do especialista destrói a obra incompreendida se dá pelo obscurantismo e pela passividade do público diante do que o crítico intocável tem a professar.

“Tudo isso significa, de fato, que o crítico pensa ser detentor de uma inteligência suficientemente firme para que a confidência de uma incompreensão ponha em causa a clareza do autor, e não a do seu próprio cérebro: se se representa a imbecilidade, é para espantar o público e levá-lo, assim, de uma cumplicidade de impotência a uma cumplicidade de inteligência.”

A crítica fácil onde o sublime pressupõe a inutilidade da crítica é a mais óbvia e também a mais fácil de nos precavermos. Entretanto, há de se questionar: o crítico tem direito à ignorância ou ao não entendimento?

“Exercer a profissão de crítico e proclamar que não se entende nada de existencialismo ou de marxismo (pois são deliberadamente sobretudo essas filosofias que não são compreendidas) é erigir a própria cegueira ou o próprio mutismo em regra universal de percepção; é alhear do mundo o marxismo e o existencialismo: "Eu não entendo nada disso; portanto, vocês são idiotas."

Henri Lefebvre

Enquanto o ensaio segue argumentativo e mordaz, ao fim é Roland Barthes quem se coloca na posição de crítico da crítica. Mostra a importância de compreender a alegada incompreensão para não sermos vítimas da autoridade irresponsável.

“A compreensão e o esclarecimento são, no entanto, a profissão de vocês. É claro que vocês podem julgar a filosofia em nome do "bom senso". O problema é que, se o "bom senso" e o "sentimento" não entendem nada de filosofia, esta os compreende perfeitamente. Vocês não explicam os filósofos, mas eles explicam vocês. Vocês não querem entender a obra do marxista Lefebvre, mas podem estar certos de que o marxista Lefebvre compreende muito bem a incompreensão de vocês e, sobretudo (pois creio que vocês são mais mal-intencionados do que incultos), o ar deliciosamente inofensivo com que a confessam.”

Sempre questionando a legitimidade e a importância do crítico, Roland Barthes demonstra as limitações da crítica literária e da figura do Autor como soberano de sua própria criação. Para ver um exemplo de como o livro pode se livrar de seu autor leia como o Laranja Mecânica se separou de Anthony Burgess.