Sobre ser um grande escritor e como quase morrer fez Borges escrever contos

“Não que eu ache muito bom o que escrevo, mas porque eu sei que não consigo ficar sem escrever. Se eu não escrevo, eu sinto um tipo de remorso, sabe?” - Jorge Luís Borges

Jorge Luís Borges

Jorge Luís Borges é um desses nomes da literatura que deveria dispensar apresentações. Profundo conhecedor de literatura inglesa antiga e filosofia, muitos de seus livros colocam em dúvida o limiar entre ficção e não ficção, entre o realismo e o fantástico. O gosto por leitura que transparece até em seus escritos encontrou limitações na progressiva cegueira que o acometeu. A cegueira não foi o bastante para impedir seu hábito de ler e escrever mesmo quando já estava muito debilitado em Julho de 1966, cinco anos depois de receber o Prêmio Formentor. Nessa data ele concedeu entrevista em inglês ao tradutor e escritor Ronald Christ que foi publicada pela The Paris Review.

Suas histórias curtas, complexas e profundamente filosóficas fizeram com que o chamassem de o “escritor que escreve para escritores”. Porém, como ele conta na entrevista, foi somente depois de uma experiência de quase morte, devido a um acidente no natal de 1938, que ele tentou escrever contos pela primeira vez:

“Sim, eu era muito tímido porque eu me imaginava um poeta. Então pensei, “Se eu escrever um conto, todo mundo vai saber que eu sou um estranho, que estou me intrometendo em terreno proibido.” Então eu sofri um acidente. Dá pra sentir a cicatriz. Se você encostar na minha cabeça aqui, veja. Sente esses morros, ondulações? Ai eu passei uma quinzena no hospital. Tive pesadelos e dormia pouco – insônia. Depois disso eles me disseram que eu corria o risco de morrer, que tinha sido realmente extraordinário a operação ter funcionado. Eu comecei a me preocupar com minha integridade mental – pensei, “Talvez eu não consiga mais escrever.” Logo, minha vida estaria praticamente acabada porque a literatura é muito importante para mim. Não que eu ache muito bom o que escrevo, mas porque eu sei que não consigo ficar sem escrever. Se não escrevo, eu sinto um tipo de remorso, sabe? Então eu pensei em testar minha mão escrevendo um artigo ou um poema. Mas pensei, “Eu já escrevi centenas de artigos e poemas. Se eu não conseguir, vou saber de vez que eu já era, que tudo acabou para mim.” Então pensei em tentar algo que eu nunca tinha feito: se eu não conseguisse, não haveria nada de estranho nisso, por quê eu deveria escrever contos?”

Borges, 21 anos de idade.

Mesmo depois desse começo extremo ele relembra a aceitação de seus livros em um relato que me fez lembrar da maneira como ele desenvolve a numerologia e a matemática em seus livros. À época do lançamento de “História da eternidade” ainda não imaginava que viria a ser traduzido para dezenas de línguas, porém mesmo as vendas de 37 exemplares o deixaram surpreso e emocionado:

“No começo eu queria encontrar cada um dos compradores para me desculpar pelo livro e também para agradecê-los pelo que eles tinham feito. Há uma explicação para isso. Se você pensar em 37 pessoas – essas pessoas são reais, quero dizer que cada uma delas tem uma face própria, uma família, vive em uma rua em particular. Oras, se você vende, digamos, duas mil cópias, é a mesma coisa que não ter vendido nada porque dois mil é muito vasto – quero dizer, para a imaginação lidar. Ao passo que trinta e sete pessoas – talvez trinta e sete sejam muitos, talvez dezessete tivesse sido melhor, ou até mesmo sete - mas ainda assim, trinta e sete ainda estão dentro do escopo da imaginação.”

Durante toda a entrevista Borges fala muito através de citações, sempre se referindo a posições que se assemelham às dele, citando o autor e às vezes até mesmo o livro onde leu aquilo. É assim que ele mescla suas ideias com as palavras de outros escritores para contar o que ele considera necessário para se escrever um grande livro:

“Penso que o Mark Twain era um grande escritor de verdade, mas acho que ele não tinha noção disso. Porém talvez para se escrever um livro realmente bom você não possa ter noção disso. Você pode se esforçar muito e trocar cada adjetivo por algum outro adjetivo, mas talvez seja possível escrever melhor se deixar os erros. Lembro que Bernard Shaw disse quanto ao estilo, que um escritor tem tanto estilo quanto sua convicção lhe der e nada mais. Shaw pensava que a ideia de um jogo de estilos era sem noção, bastante insignificante. Por exemplo, ele considerava Bunyan como um grande escritor porque ele estava convencido do que dizia. Se um escritor não acredita no que está escrevendo, então não deve esperar que os leitores acreditem.”

Jorge Luís Borges fala ainda de seus estudos  da literatura nórdica, além de comentar o que ele considera essencial para a poesia e para a literatura fantástica. O escritor para escritores consegue ser uma presença marcante mesmo fora de sua obra. Depois de ter lido livros como “O Aleph e “Ficções” só posso recomendá-lo sempre que possível.

Também já comentei aqui a entrevista da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles que conheceu pessoalmente Borges. Nessa entrevista ela conta também como foi seu último contato com o escritor argentino antes dele vir a falecer.