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Chimamanda Adichie e a busca por um mundo mais feliz para mulheres e homens

“O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos.” - Chimamanda Ngozi Adichie

 

O Dia da mulher passa e o assunto volta para os círculos de sempre, de novo dependendo dos escândalos que acontecem periodicamente para voltar à pauta coletiva. Porém é inegável que o feminismo tem se infiltrado mais rapidamente nos assuntos comuns ultimamente, especialmente entre as mulheres jovens. Entre as grandes escritoras dando o embasamento artístico e teórico desse processo está a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie com livros de literatura famosos como Hibisco Roxo e Americanah, porém aqui anoto sobre o ensaio “Sejamos todos feministas”, publicado pela Companhia das letras.

Entre o anedótico e o estatístico, Adichie nos guia através da formação dela como feminista e intelectual, uma jornada que reflete em muitos aspectos um processo maior. Para Chimamanda, o primeiro passo é a nossa tomada de consciência e em seguida, para realmente criarmos um mundo melhor para mulheres e homens ela supõe que talvez a medida mais eficiente seja uma nova maneira de educar nossas crianças:

“A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.”

Propondo um feminismo para todos ela não foge aos efeitos nocivos que um mundo misógino tem também para os homens. Nesse trânsito entre os problemas dos dois gêneros ela demonstra como as expectativas desse tipo moldam e complicam a forma como as pessoas se encaixam na sociedade:

Chimamanda Ngozi Adichie

“O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero.
[…]
Mas o que realmente conta é a nossa postura, a nossa mentalidade. E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?”

Se a saída para o problema é deixar para trás as expectativas relacionadas ao gênero, nem por isso ela deixa de ressaltar a importância de encararmos o problema em sua especificidade:

“Algumas pessoas me perguntam: “Por que usar a palavra 'feminista'? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?” Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral – mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.”

“Sejamos todos feministas” é um livreto que funciona muito bem como introdução para pensar um dos grandes problemas atuais. A Companhia das Letras disponibiliza a versão digital gratuitamente e isso por si só é motivo para todos lermos e, com alguma sorte e bom senso, também sermos todos feministas.

Complemente essa leitura com a entrevista de Lygia Fagundes Telles comentando o machismo do meio literário e o que Nina Simone pensava sobre ser artista e o racismo em seu tempo.