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A fonte que tenta facilitar a leitura para quem tem Dislexia

“Quando leem, as pessoas com dislexia às vezes de forma inconsciente trocam, invertem ou espelham as letras mentalmente.” – Christian Boer

Algum tempo atrás, após uma atualização do sistema do meu leitor digital percebi que uma nova fonte havia sido adicionada. A fonte se chama Dyslexie e sinceramente achei ela uma fonte feia, irregular e o nome também pareceu uma péssima escolha. Afinal, batizar uma fonte tipográfica usando um transtorno psiquiátrico é no mínimo mal gosto. Porém, bastou uma pesquisa rápida no Google para eu considerar essa a fonte mais importante do meu leitor digital.

Fonte Dyslexie.

O site Understood.org que disponibiliza conteúdo para pais com filhos disléxicos aponta que apesar de a dislexia se manifestar com intensidade variável, é comum que surjam dificuldades com leitura e escrita em crianças. Outros sintomas, que podem se manifestar mesmo em pessoas que não tiveram problemas inicialmente, incluem problemas com regras gramaticais, incompreensão durante a leitura e dificuldades na escrita de textos mais complexos e em alguns casos, problemas com a fala.

É ai que entra o designer holandês Christian Boer. Também lidando com sua dislexia, ele conhece bem as dificuldades que surgem durante a leitura e com isso em mente tentou criar uma fonte tipográfica que amenizasse o esforço necessário para ler. Como a Dislexia parece estar relacionada a problemas no processo de transformar os símbolos que lemos em sons e esses sons em palavras, o designer percebeu que ele e outras pessoas que sofrem de dislexia muitas vezes confundem as letras de maneiras mais ou menos previsíveis:

“Quando leem, as pessoas com dislexia às vezes de forma inconsciente trocam, invertem ou espelham as letras mentalmente.”

Essa confusão é facilitada por outras fontes porque as letras têm traços em comum que se repetem em todo o alfabeto. Essas similaridades fazem com que letras como o “n” e o “u” se tornem o mesmo símbolo, apenas invertido. Outros exemplos são as letras “p”, “b” e “d” que costumam ser o mesmo símbolo espelhado ou invertido.

Para amenizar esse problema, Boer usa traços irregulares e tenta sempre que possível criar letras que possuam formas únicas, mesmo que sejam muito parecidas entre si. A ideia é que o aspecto singular de cada letra impeça o cérebro de confundir umas com as outras.

“Ao trocar a forma das letras para que todas sejam claramente únicas, elas não correspondem mais umas às outras quando rodadas, invertidas ou espelhadas. Maiúsculas e sinais de pontuação mais destacados vão garantir que os usuários não leiam o início da próxima sentença por engano.”

Dyslexie: Variações e tamanho maior.

A Dyslexie tem letras com as bases mais largas para evitar que sejam viradas de cabeças para baixo. O uso do semi-itálico e de aberturas variáveis nas letras são tentativas de torná-las diferentes entre si. Ainda, os sinais de pontuação e as maiúsculas são maiores para facilitar o reconhecimento do início e fim das frases. Ou seja, aquilo que à primeira vista parece uma fonte irregular e malfeita é, na verdade, uma fonte tipográfica inventiva e com um propósito maior do que a estética.

Dyslexie: Destaques e espaçamento maior.

Obviamente a fonte não substitui o acompanhamento médico adequado, porém toda ajuda é bem-vinda. Nesse caso, o esforço de um designer criou a fonte mais importante do meu leitor digital, afinal, ela ganha ainda mais possibilidades de ser útil em meios interativos. Além de todo o cuidado em fazê-la ser funcional há ainda outras personalizações possíveis como cor, espaçamento e tamanho. Falo tanto de leitura aqui que não podia deixar de mostrar essa possibilidade de aproximar mais pessoas desse hábito essencial.

Leia também sobre a teoria de Anne-Marie Willis, o Design Ontológico. Nesse texto ela tenta apontar um caminho para o estudo do Design e mostrar a insuspeitada importância que ele tem em nossas vidas.