Helen Keller: Carta aos nazistas e a vitória de uma mulher deficiente

"A História não lhes ensinou nada se vocês acham que conseguem matar ideias." - Helen Keller

 

Helen Keller

 

No dia 10 de Maio de 1933 a Alemanha nazista colocou em prática o “Ato nacional contra o espírito não-germânico”, data escolhida por Adolf Hitler e Joseph Goebbels para a queima e a censura de livros no que eles consideravam uma “sincronização cultural”. A queima de livros incluiu muitos títulos que se opunham ideologicamente ao projeto nazista, entre eles estavam os nomes de Einstein, Freud, Hemingway e também o de uma escritora americana chamada Helen Keller.

Helen Keller (1880-1968) não superou só sua condição de surdez e cegueira como também o grande estigma associado a essas características naquela época, prova disso é o fato de ter sido a primeira pessoa cega e surda a conseguir o diploma de Artes. Entre suas conquistas mais marcantes entram seu ativismo a favor de pessoas com deficiências, sua participação na luta pelo direito das mulheres e o socialismo radical com o qual viria a se identificar. Uma mulher singular e desafiadora, membro do Partido Socialista, teve inicialmente uma recepção calorosa da crítica que logo se dissipou em ataques às suas deficiências após seus textos marcadamente socialistas começarem a circular.

Seu livro “Como eu me tornei socialista” foi escolhido para ser queimado nas fogueiras nazistas, um destino inglório e que ainda deve assombrar qualquer mente lúcida, mas que justamente pela resposta violenta nos indica a importância do ativismo de Helen Keller. Quando soube que seu livro seria banido ela escreveu uma carta aos estudantes alemães que iam incinerar seus livros:

Queima de livros.

“Ao corpo discente da Alemanha:

A História não lhes ensinou nada se vocês acham que conseguem matar ideias. Tiranos já tentaram fazer isso muitas vezes e as ideias se rebelaram com todo seu poder e os destruíram.

Vocês podem queimar meus livros e os livros das melhores mentes da Europa, mas as ideias contidas neles já se infiltraram por milhões de canais e continuarão estimulando outras mentes. Eu doei para sempre todos os lucros dos meus livros aos soldados alemães que ficaram cegos na Primeira Guerra sem ter em meu coração nada além de amor e compaixão pelo povo da Alemanha.

Reconheço as graves complicações que levam à sua intolerância; mas deploro ainda mais a injustiça e a insensatez de passar às gerações seguintes o estigma dos seus feitos.

Não pensem que suas barbaridades contra os judeus são desconhecidas aqui. Deus não dormiu e Ele vai impor Seu julgamento sobre vocês. Seria melhor para vocês, terem uma pedra de moinho pendurada ao redor do pescoço para então se afundarem no mar do que serem odiados e desprezados por todos os homens. ”

A produção artística e intelectual, se verdadeiramente relevante, sempre acaba sofrendo, mas também revidando muito dos ataques que acontecem sob regimes de exceção e contextos repressivos. Noam Chomsky nos alerta do papel do intelectual na identificação e crítica dessas estruturas ideológicas que, como no caso extremo de Helen Keller, nos ameaçam com terríveis perdas.