A poesia num mundo utilitarista, Mary Ruefle disseca o medo na natureza humana

“O que a vida me ensinou? Sinto muito menos medo do que na minha juventude – de tudo. Isso é um fato. Ao mesmo tempo, sinto mais medo do que nunca.” – Mary Ruefle

 

Redundância é apontar o conceito duro e superficial de utilidade que temos, onde por utilidade se tem a capacidade de algo (ou alguém) produzir e gerar lucro. Embora seja difícil escapar a essa lógica imersos na estrutura em que vivemos, não é tão complicado ganharmos consciência disso. Entretanto, se mantém essencial pensar o papel do “inútil” e do não produtivo dentro da lógica capitalista e esse é apenas um dos feitos do ensaio “Sobre o medo” em que Mary Ruefle tenta deslindar o papel do poeta e da poesia.

“Suponho que, como poeta, encontra-se entre meus medos uma profunda inquietação de que um dia descobrirei ter consagrado minha vida a uma imbecilidade. Parte do que quero dizer – do que acho que quero dizer – quando falo “imbecilidade” é que se trata de algo intrinsecamente desnecessário e supérfluo e, portanto, involuntariamente cruel. ”

O grito, Edvard Munch.

Mary Ruefle compara o poeta com o médico e piloto de caça a partir do medo e da preocupação envolvidas em seus procedimentos profissionais, medos palpáveis e cuja superação garante resultados claros. Porém, se a princípio ela se sente fraquejar quanto à emergência da poesia, posteriormente ela percebe o medo profundo que leva alguém a escrever:

“Eu estava numa jornada tola. [...]. Até onde eu podia lembrar, cada minuto de minha vida tinha sido uma emergência na qual eu estava paralisada de medo. Sentimentos de medo, sendo em parte cognitivos e, portanto, pensamentos, costumam constituir conhecimento. Por exemplo, o saber que se vai morrer. Esse é um sentimento que pode surgir enquanto se relaxa em uma rede num dia bonito. E pode levar à emergência de sentimento que resulta num poema. ”

O contraste entre o desejo e o medo da realização ou do fracasso é o que Ruefle enxerga como uma das forças condutoras, ou seja, base da atividade humana que pode fugir às condições estruturais de cada período histórico.

“O medo é o maior motivador de todos os tempos. O conflito a partir do medo está por trás de cada atitude, nos levando adiante como as engrenagens de um relógio. Medo é a veste negra do desejo, seu duplo. [...]. Como desejar é querer e o medo é não querer, ambos se conectam intrinsecamente; assim como o desejo pode ser destrutivo (o desejo de poder), o medo pode ser construtivo (medo de ferir o outro); medo da miséria se torna desejo de riqueza. ”

Ainda assim, o medo nos faz tomar caminhos impossível, de quedas e fracassos, entretanto, há criação a partir do erro:

“Fracassamos. E por isso desejamos progredir, sermos poetas melhores, erradicar doenças, nos tornamos pessoas melhores, aperfeiçoar o que é perpetuamente imperfeito. A “queda” bíblica é uma anti-restrição. A maçã era o medo. (E lembre-se, medo é conhecimento, de acordo com Nietzsche.) A maçã pôs o mundo em movimento ao forçar Adão e Eva a abandonarem o Perfeito. “Medo é nos reconher-mos”, disse o filósofo. Um dos medos que o jovem escritor tem é o não conseguir escrever tão vem quanto ele ou ela deseja, o medo não soar como X ou Y, um autor favorito. Mas é do medo, espera-se, que nasce a voz do jovem escritor. ”

A natureza do medo é ser inescapável, como Mary Ruefle aponta, não é o mundo que se permeia de medo, somos nós que o encontramos em nós mesmos:

“O medo pertence ao homem e não ao mundo. O mundo nunca sente medo, em nenhum lugar e nenhuma hora. Somo “pessoas infelizes num mundo feliz” – as últimas palavras de Wallace Stevens. Sentimentos de medo – pessoal, cognitivo – permitem-nos sentir angústia deitados na rede em um dia bonito e sentir como se nossa vida corresse perigo quando o céu está azul e o prado está tranquilo.”

Assim, o medo se torna um companheiro ambíguo e aprender a conviver com e a partir dele é essencial:

“O que a vida me ensinou? Sinto muito menos medo que na minha juventude – de tudo. Isso é um fato. Ao mesmo tempo, sinto mais medo que nunca. E ambas as coisas, garanto, não são opostas, mas conectadas profundamente. Tenho mais ou menos a mesma idade que a Emily Dickinson tinha quando morreu. Foi isso que ela pensou: “Tivéssemos o mínimo de intimidade com a Definição da Vida e os mais calmos entre nós seriam Lunáticos!” A lunática calma – isso sim é algo a que eu posso aspirar.”

Outros abordaram a motivação e a ação humana, entre esses, Albert Camus apontava saídas para uma vida sufocante e outros escritores como Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e Jorge Luís Borges nos mostraram também o caminho e importância da escrita, leituras que enriquecem ainda mais o incrível ensaio de Mary Ruefle.