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O livro que se tornou obra de arte, feito por Matisse, Joyce e Homero

“O Bloomsday é o único feriado do mundo dedicado exclusivamente a um personagem literário e obviamente um livro dessa magnitude tem edições à altura.”

Leopold Bloom é o personagem principal do polêmico livro Ulysses, escrito por James Joyce e publicado em 1922. Todos os anos em 16 de Junho comemora-se o Bloomsday, feriado oficial na Irlanda e motivo de comemoração onde quer que existam fãs de James Joyce. O feriado é uma homenagem a Bloom, ao livro e ao próprio James Joyce. O livro que chega a 1000 páginas a depender da edição é a história de um único dia da vida comum do ainda mais comum Leopold Bloom. No livro a data desse dia é um 16 de Junho de 1904 que também é a data em que James Joyce saiu a primeira vez com Nora Barnacle, a mulher que viria a se tornar sua esposa.

A escolha do herói

James Joyce

O Ulysses foi escrito utilizando a estrutura da Odisséia, o épico cujo herói é Ulisses. Odisseu é o nome grego, a versão latina é Ulisses. Ao desenvolver o personagem principal de seu livro, James Joyce procurou algumas características para Leopold Bloom em outros heróis famosos, mas tinham de ser pacíficos, sem amarras sexuais e, talvez paradoxalmente, não podiam ter desejo em se tornar heróis a ânsia de se imortalizarem pela violência.

Como diz Deklan Kiberd em sua introdução ao Ulysses, o celibato auto contido de Fausto o colocou fora da disputa, além é claro da falta de informação sobre ligações familiares dele. Havia Hamlet, uma opção obvia já que Shakespeare era seu autor favorito, porém para Joyce, Hamlet não era um homem completo, ele é filho e isso não era o bastante. Jesus também foi considerado como modelo, porém Joyce não hesitou em descartar essa opção também por causa da restrição sexual que ele não pretendia impor a seu personagem, como ele declarou a Frank Budgen:

“Jesus era solteiro e nunca conviveu com uma mulher. Por certo conviver com uma mulher é uma das coisas mais difíceis que um homem tem de fazer, e ele nunca o fez.”

Ulisses foi o único herói grego que não teve interesse em ir para a guerra, porque não acreditou que as motivações da Guerra de Tróia eram suficientes para deixar sua família para trás. Porém a política o fez ir pois era o soberano em Ítaca e devia lealdade aos outros líderes. Ainda assim vemos ao longo da Odisséia que ele volta para casa usando sempre ardis, armadilhas e métodos que usam mais a inteligência do que a força bruta. Um homem precavido e paciente. Além disso era pai de Telêmaco, marido de Penélope, filho de Laertes, companheiro de guerra de grandes heróis como Aquiles e um grande aventureiro, ou seja, o mais completo dos heróis levados em consideração pode Joyce. Esses são alguns dos motivos de Joyce ter utilizado a Odisséia como molde para sua obra e Ulisses como molde para Leopold Bloom.

Matisse e a Odisséia

Henri Matisse

O Bloomsday é o único feriado do mundo dedicado exclusivamente a um personagem literário e obviamente um livro dessa magnitude tem edições à altura. Por volta de 1930 o editor americano George Macey ofereceu 5 mil dólares a ninguém menos que o pintor Henri Matisse em troca do máximo de ilustrações que ele pudesse fazer por esse valor.

Aparentemente Matisse nunca leu o Ulysses, ao menos não antes de fazer as ilustrações. Ele ouviu o resumo do livro de seu amigo Eugene Jolas e seguiu adiante. Apesar disso ele produziu 26 ilustrações baseadas em temas da Odisséia. Já em 1935 foi publicada a edição que uniu a sensibilidade artística de Matisse com a grandeza literária do Ulysses. Nessa edição Matisse assinou as 1500 cópias e dessas 1500 apenas 250 também foram assinadas por James Joyce.

Nas ilustrações Matisse seguiu o caminho da simplificação, com os característicos traços quase infantis de algumas de suas obras mais famosas. Para quem é familiarizado com o pintor talvez falte cor, embora isso seja uma contingência não só do tempo e do orçamento, mas também do meio, afinal são criações feitas exclusivamente para um livro. Os traços simples e os temas da Odisséia combinam com a complexidade técnica do livro e fazem aflorar detalhes do esqueleto homérico que forma a base do Ulysses sem adicionar uma carga desnecessária à interpretação ou tentar competir com o livro. Na galeria abaixo você poderá conhecer 9 das 26 ilustrações presentes na edição:

Edição assinada por Matisse e Joyce

Ainda é possível comprar uma edição com a assinatura de ambos os artistas, caso você tenha 30 mil dólares para gastar em um livro. No Ebay há réplicas por preços muito mais em conta, embora ainda um pouco acima dos preços praticados no mercado de livros comuns. Felizmente, para conhecer a obra basta o texto, seja em formato digital ou em uma edição batida. No Brasil temos a sorte de ter ótimas traduções e se você pretende se aventurar nessa leitura pela primeira vez recomendo a tradução do Caetano W. Galindo, é a mais acessível e não deixa nada a desejar em relação às traduções mais tradicionais como a do Antônio Houaiss e da Bernardina da Silveira Pinheiro.

Teria sido melhor se o Matisse tivesse lido o Ulysses? As ilustrações perdem o valor por isso? Roland Barthes defende na literatura uma ideia que dissocia a obra de seu Autor e Anne-Marie Willis usa uma argumentação parecida porém na área do Design. Duas leituras que podem ser um ponto de partida para responder a esses questionamentos.