Como o xamanismo pode nos enriquecer e a proximidade entre o artista e o xamã, uma leitura de Terence Mckenna.

Como o xamanismo pode nos enriquecer e a proximidade entre o artista e o xamã, uma leitura de Terence Mckenna.
Uma reverência por e uma imersão nos poderes da linguagem e da comunicação são o alicerce do caminho xamânico.
— Terence Mckenna
 

Terence Mckenna é à primeira vista uma figura exótica, pisando ora em ciência sólida ora em argumentos difíceis de defender, entretanto, o que sobrevive de sua obra e de si é cada vez mais aquele veio central onde confluem tanto suas experiências pessoais e antropológicas com drogas psicodélicas, povos remotos e um olhar afiado aliado à sua característica humildade intelectual e uma tremenda vontade de saber que deram origem a um pensamento importante, perigoso e por vezes irregular, mas extremamente instigante.

 Terence Mckenna

Terence Mckenna

Sua viagem pela bacia amazônica, bem como seu contato com rituais e drogas locais renderam muitos textos e uma mudança completa na sua forma de ver o mundo. Segundo o próprio Mckenna, uma dessas mudanças está no cerne do seus textos, onde ele vê no xamanismo primitivo uma aproximação tanto da medicina quanto da arte, ainda que detendo características marcadamente suas e, a princípio, abandonadas por nossas sociedades contemporâneas.

“Nós temos a imagem do curandeiro como sendo o profissional de saúde que, através da detenção de conhecimento especial, pode curar. Mas o conhecimento especializado do médico moderno é conhecimento clínico, desconectado do drama de cada pessoa em particular.
O xamanismo é diferente. Normalmente, se drogas forem usadas, o xamã, não o paciente, é que tomará a droga. A motivação também é totalmente diferente. As plantas usadas pelo xamã não pretendem estimular o sistema imunes do corpo ou outras defesas naturais com a doença. Na verdade as plantas xamânicas permitem ao curandeiro viajar a um domínio onde a causalidade do mundo comum é substituída pela lógica da magia natural. Nesse domínio a linguagem, as ideias e o significados têm mais poder que a causa e o efeito.”

O xamanismo com sua lógica própria de uma linguagem geradora de realidades e ideias desconectadas ou reelaboradas daquilo que chamamos realidade aponta um caminho de conexão e entendimento que justamente por se desprender do tecido do dia a dia tem o ar de abertura e extensão da mente, um objetivo de compreensão que lembra muito os ensinamentos do imperador Marco Aurélio em suas Meditações.

“Liberdade, responsabilidade pessoal e uma humildade consciência dos verdadeiros tamanho e inteligência do mundo combinam nesse ponto de vista para torná-lo uma base própria à autêntica vida neo-Arcaica. Uma reverência por e uma imersão nos poderes da linguagem e da comunicação são o alicerce do caminho xamânico.”
 Mural de Jackson Pollock

Mural de Jackson Pollock

A vida neo-arcaica que Mckenna aponta parece avançar as fronteiras do que se tem por arte hoje, uma tentativa de abstração que cria uma forma de aproximação bem como de comunicação, uma ponte entre o xamanismo arcaico e práticas contemporâneas ou, como já dizia Hilda Hilst: Faço perguntas possíveis a mim mesma: se eu falasse com a voz do mundo, como falaria?”

“Por isso o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista. Nossa necessidade de nos sentirmos parte do mundo parece demandar que nos expressemos através da atividade criativa. A essência dessa criatividade está escondida no mistério da linguagem. O êxtase xamânico é um ato de rendição que autentica tanto o ser individual quanto aquilo a que se rende, o mistério do ser.”

“O alimento dos Deuses” segue a linha de outros escritos de Terence Mckenna: provocador, autêntico e livre. O livro exige também um jogo de cintura de seu leitor e um olhar aguçado para ver sob as melhores perspectivas o que há de valioso em seus textos, porém basta saber que há ali mais do que apologia e pseudociência, pois mesmo quando o tempo cai pesado sobre o texto resta a mentalidade, o raciocínio que põe a funcionar toda aquela linha de pensamento.


 O barro só sabe de si quando homem - Felipe V. Almeida

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