Mesa farta não basta

Clamam os abastados mal contendo nos orifícios a saliva e a gargalhada: a carne é fraca, quero o quero e me desculpo com o capeta quando vier a conta.

Mas a carne e o couro, de tanto bicho e tanta gente, preenchem suas mesas abarrotadas onde não se veem as caras, as dores, os horrores que fertilizam a contento o forro de suas entranhas. Esse manancial de vida feita morte irriga o arremedo definhado de cérebro que ignora junto aos ossos já drenados do tutano, a máquina vil rangendo para lá da tua cozinha moendo homem e bicho, indistinção retrógrada desfazendo a dignidade em uma massa mole ensebada, consumida na boa prataria da família.

O que não se diz em voz alta, pois à mesa é necessário rezar antes, é que a fome dos outros é o melhor tempero.


Pantabiblio - A biblioteca do Pantagruelista

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