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Titã e monstro, senhor e canibal. O mito de Cronos visto por Goya

“O sono da razão produz monstros” - Francisco de Goya

 

 Quando James Joyce discute o efeito da Renascença sobre o homem moderno, vemos que para ele a arte possui raízes profundas em seu tempo, entretanto ainda mais importante é a relação do artista com a sociedade em que vive. O pintor Francisco de Goya presenciou mudanças sociais importantes e eventos históricos chocantes enquanto ele mesmo teve de lidar com alterações físicas e psicológicas que resultaram em uma obra em constante metamorfose mas também capaz de uma enorme sensibilidade para expor o mundo como ele enxergava em cada fase de sua vida.

"Saturno devorando seu filho". Goya, 1819.

A pintura acima é conhecida como “Saturno devorando seu filho”, feita por Goya entre 1819 e 1823 para integrar o grupo de 14 pinturas que cobriam as paredes de sua casa e hoje são agrupadas sob o título de “Pinturas Negras”. Embora as interpretações variem é seguro apontar alguns temas recorrentes nessas pinturas: mitologia, mortalidade, sofrimento e finitude.

O mito original

Saturno é a denominação latina para o titã grego conhecido como Cronos. Seu pai era Urano, personificação e senhor dos céus e sua mãe era Gaia, a personificação da Terra. A inimizade entre Gaia e Urano surgiu quando ele aprisionou dois de seus filhos no Tártaro. Para se vingar, Gaia criou uma foice de pedra e congregou seus filhos para que castrassem Urano.

Cronos que invejava o poder de seu pai foi o único que aceitou a tarefa e o castrou em uma armadilha criada por Gaia. Em seguida tomou o lugar de seu pai como rei, prendeu novamente seus irmãos e tomou sua irmã Réa como rainha. Gaia e Urano o alertaram sobre a profecia de que assim como seu pai ele também estava destinado a ser destronado por um de seus filhos. Por isso ele passou a devorar sua prole assim que nasciam.

Réa, sua mulher e irmã, buscou ajuda de Gaia para salvar seus filhos do canibalismo de seu marido. O esforço das duas conseguiu ludibriar Cronos ao dar-lhe uma pedra para comer enrolada em panos e permitir que seu filho Zeus crescesse em segredo. Zeus então adulto reaparece para se vingar do pai e lhe dá uma poção que o faz vomitar de volta seus irmãos e irmãs que haviam sido engolidos. Zeus ainda liberta os irmãos de seu pai que haviam sido aprisionados no Tártaro e segue-se dai a Titanomaquia, guerra travada por Zeus, seus irmãos e seus tios contra Cronos e os outros Titãs. Cronos e os Titãs terminam derrotados conforme a profecia previa.

A visão de Goya

Iluminação

No mito grego Saturno engole seus filhos em um processo onde o canibalismo não envolve grande violência, prova disso é o fato de Réa ter lhe dado uma pedra enrolada em um pano ao invés do bebê Zeus e ele não ter percebido o embuste. Isso também torna menos inconcebível que os filhos engolidos possam estar vivos dentro dele quando são resgatados por Zeus. Entretanto, Goya aborda o momento do canibalismo de maneira diferente, dando grande profundidade psicológica ao ato através da forma como ele representa Cronos mas também da maneira como ele imagina o processo canibal.

Nessa pintura a iluminação vem do topo esquerdo da tela criando um claro escuro que é responsável apenas por parte do clima de pesadelo. Além da iluminação é possível ver como o próprio do corpo do Titã parece torturado e disforme, transmitindo uma sensação de grotesco e sofrimento. Suas pernas descem finas e com uma aparência doentia para terminarem em uma escuridão impenetrável onde não se veem seus pés. Seu corpo mal iluminado contrasta com a palidez do cadáver em suas mãos.

Ao centro está o cadáver que atrai atenção para uma característica singular dessa pintura: embora o mito fale sobre Cronos engolindo seus filhos ainda recém-nascidos em uma só bocada, aqui o corpo é o de um adulto. Tanto o corpo é adulto quanto Saturno não é tão gigantesco, nem ao menos se parece com alguém que é senhor dos céus. No mito, Cronos engole tanto seus filhos quanto suas filhas, mas aqui não é possível identificar o sexo do corpo que está sendo devorado.

Corpo disforme

O corpo adulto ainda adiciona uma carga de angústia quase insuspeitada à primeira vista porque nos faz levar em conta não apenas o que já foi consumido do corpo mutilado, mas o rasgar e mastigar ainda porvir, angústia que é reforçada também pelas mãos do Titã. Elas apertam o cadáver com uma força descomunal a ponto de podermos vislumbrar sangue entre os dedos que se fincam nas costas do morto em um espasmo de desespero.

Vendo a obra pela primeira vez é bastante comum darmos mais atenção à figura monstruosa de Saturno e nos identificarmos com ele do que com o outro que é canibalizado. Nessa pintura o senhor dos céus não é um Titã poderoso e frio, mas um velho desesperado por poder, consciente de sua fraqueza e do quão grotesca é a maneira pela qual ele mantém seu status como soberano. Seu cabelo desgrenhado aumenta o efeito dramático dos olhos arregalados com pupilas dilatadas e as sobrancelhas que formam a face de medo e terror.

O pintor e a obra

"Auto-retrato". Goya, 1815.

Surdo devido a uma doença anterior que lhe trouxera grandes desgostos, Goya presenciou o desenrolar e os efeitos das Guerras Napoleônicas em seu país. Esse testemunho redirecionou sua obra para uma temática muito mais social e política em que tenta expor a loucura da guerra e a falta de significado do sofrimento humano. Essas numerosas gravuras são conhecidas como “Os desastres da guerra” e prefiguram o sofrimento angustiado presente na pintura em que Saturno devora seu filho.

Anos depois comprou a casa em que pintaria suas Pinturas Negras. Após ter sobrevivido a duas doenças graves e acompanhado a situação da Espanha então sob o absolutismo de Fernando VII, ele sobrepôs pinturas anteriores com as que hoje compõem as Pinturas Negras. Esse pessimismo e a presença do sofrimento em sua obra vieram através de sua vida pessoal e do cenário político de seu tempo. O contraste entre as obras do início de sua carreira e as mais antigas é enorme, a porosidade de sua obra absorveu muito de seu tempo e de sua alteração psicológica. Essa mudança é facilmente perceptível, por exemplo, comparando as obra La era (1786-87) e uma outra Pintura Negra, a O Grande Bode (1819-23).

"La era". Goya, 1786-87.

"O grande bode". Goya, 1819-23.

Goya nunca pretendeu expor as Pinturas Negras publicamente, a de Saturno fazia parte da sala de jantar de sua casa. Nenhuma delas recebeu título, suas denominações são posteriores e não vieram do pintor. Apesar das influências de Goya serem importantes para entender a motivação dele com essa criação mais tardia em sua casa isso não exclui a autonomia de sua obra. Conforme Barthes defende para a literatura, quando se trata de arte o valor está não tanto no intento do artista e sim nas possibilidades interpretativas que ela carrega em si. Buscar um significado absoluto para uma obra tendo por base os intentos manifestos ou velados do autor é impedir a possibilidade de renovação e apropriação da arte como instrumento intelectual e social.