Não há egoísmo, não há ignorância, não há inocência. Não há perdão.

Não há egoísmo, não há ignorância, não há inocência. Não há perdão.

Se há algo de valioso quando um país se entrega aos seus desejos mais obscuros e põe às claras seus fetiches sórdidos, esse algo é justamente ver caírem as máscaras e o proselitismo. É claro, alguns ainda tentam disfarçar, mas está aí para qualquer um que queira ver. Entre amigos, familiares e vizinhos chocam-se os ovos do réptil.

Convenhamos, a sanha que hoje transborda nas urnas e nas ruas e nas bocas é incubada há tempos, não é de hoje que se esgueira a serpente pelos cantos e houve quem soou o alarme, mas houve também quem podia agir e fez vista grossa. Quando metade de um país defende sob a luz do dia um fascista de carreira que é mais caricatura do que homem não resta outra conclusão, perdemos.

Defender a dignidade humana, ter que explicar o problema em elogiar um torturador é uma derrota, como diria Hilda Hilst, é isso o obsceno, ter de convencer milhões a não matar, não torturar, não eleger quem passa pano para ditador, não entregar seu voto (o pouco que se tem em uma democracia sequestrada) nas mãos de monstros.

Porém, chego ao ponto, esse dar o voto, entregar nas mãos deles sua anuência é uma imagem poderosa, pois veja bem, existe prazer vicário naquilo que fazem em nosso nome. Pais se orgulham de filhos que alcançam o sucesso, torcedores se felicitam pela vitória de seu time e fascistas se masturbam com a monstruosidade de seus heróis, seus mitos, seus messias. Por isso a rachadura se abre no seio das famílias, por isso as gentes se odeiam e o choque, independente do resultado da eleição, mal começou.

‘‘Não precisamos de mais um herói’’ Barbara Kruger, 1987.

A verdade é que entre defender o fascismo mais sórdido e se colocar contra isso que desponta no horizonte existe uma separação e essa diferença não é do espectro político, pois não se trata de divergência ou oposição. Aquele que é racista, homofóbico, misógino, propagandista de torturador e estupro é inimigo e é dessa conclusão que queremos fugir. Nossos queridos não são pessoas decentes que caíram em tentação, não adianta passar a mão na cabeça, a estrutura que nos trouxe até aqui é perversa, mas há agência e em sua euforia coletiva estão a agir, de cima a baixo, educados e analfabetos, homens e mulheres, jovens e velhos, sabendo o que querem e o que arriscam. Mas se assumem as consequências de seus atos como o fazem agora, são inimigos, pois colocam suas fantasias de riquezas, punições e brutalidade à frente do mínimo de humanidade.

Sejamos sinceros, o Brasil não é um país no qual faltam mortes, crimes e brutalidade. O problema é que a sede de sangue não é saciada com o estado atual das coisas.

  1. Morrem, por arma de fogo, mais de 60.000 pessoas por ano.

  2. 75% dos mortos pela polícia são negros, 81% dos mortos são jovens.

  3. Dos policiais mortos, metade é negra.

  4. Nenhum outro país mata tantas pessoas transsexuais quanto o Brasil.

  5. Mais de 150 homossexuais mortos por ano.

  6. As mulheres estudam mais, trabalham mais e recebem 25% a menos.

  7. Em 2017 o Brasil registrou uma média de 135 mulheres estupradas por dia.

Mas esse é o país que precisa de força bruta e mais gente morta, mais gente encarcerada, menos proteção social e menos "direitos humanos". Esse país encontrou seu messias e o seguirá ao inferno onde definitivamente serão felizes os invulneráveis, aqueles que não pisam no asfalto quente e vestem o véu da esperança verde e amarela enquanto se deliciam vendo o noticiário policial antes de ir à missa e engolir o tal pão como se houvesse pouca carne sacrificada em seu nome.

Não há vitória possível, resta-nos resistir encarniçadamente.


Capa: Obra sem título. Ivens Machado, 1998. Foto de Vicente de Mello.