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E o livro engoliu o autor: como o Laranja Mecânica atropelou Anthony Burgess

"A intenção era que Laranja Mecânica fosse uma espécie de tratado, até um sermão, sobre a importância do poder de escolha." - Anthony Burgess

 

Anthony Burgess

Se hoje o livro Laranja Mecânica é um ícone, ainda é necessário lembrar o quanto ele deve à adaptação cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick. Anthony Burgess escreveu esse e outros títulos literalmente em um desespero de morte. Os médicos haviam lhe dado pouco tempo de vida e o medo de deixar a mulher desamparada o fez escrever em grande quantidade. Ao fim ele tinha vários livros e os médicos estavam errados. Daí surgiu o Laranja Mecânica.

No ensaio “Geléia Mecânica” publicado na revista The Listener em 1972, Anthony Burgess conta sua experiência com o filme. Demonstrando uma sobriedade rara para discernir as diferenças artísticas e saber como avaliar um filme em sua própria área sob seus próprios padrões, ele faz o maior elogio que pode:

“Fui assistir ao filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, em Nova York, brigando para entrar, assim como todo mundo. Acredito que valeu a briga – um típico filme de Kubrick, tecnicamente brilhante, profundo, relevante, poético, de abrir a mente. Para mim, foi possível enxergar a obra como uma reinterpretação radical de meu próprio livro, não uma simples adaptação, e isso – a sensação de não ser impertinência proclamá-lo como Laranja Mecânica de Stanley Kubrick – é o maior tributo que posso fazer à maestria kubrickiana.”

A intenção de fazer do Laranja Mecânica um “sermão” dá indícios de uma visão paternalista e religiosa que Burgess supõe estar relacionada à literatura. Esses indícios são confirmados mais adiante em seu ensaio.

“A intenção era que Laranja Mecânica fosse uma espécie de tratado, até um sermão, sobre a importância do poder de escolha. Meu herói ou anti-herói, Alex, é muito perverso, talvez até de um jeito impossível, mas sua perversidade não é produto de um condicionamento genético ou social: é sua própria característica, na qual ele embarca com total consciência. Alex não é simplesmente desgarrado, ele é malvado, e, em uma sociedade propriamente governada, essa maldade precisa ser controlada e punida. Mas sua maldade é uma maldade humana, e reconhecemos em seus atos de agressão algumas de nossas próprias potencialidades – traduzidas, no caso dos cidadãos não criminosos, na guerra, na injustiça segregacionista, na violência doméstica, nos sonhos estéreis. De três maneiras, Alex é um exemplo de humanidade: ele é agressivo, ele ama a beleza, ele usa a linguagem.”

Assusta a superficialidade e o determinismo com que ele descreve seu personagem apenas como alguém maldoso, em especial as respostas que ele julga adequadas à “maldade”: controle e punição. Mas não uma punição que impeça o livre arbítrio. Porém, supondo que punição e controle sejam as respostas para lidar com a criminalidade, falta entender a importância do livre arbítrio para essa pessoa “controlada” e “punida”. A importância ele explica a seguir: para que essa pessoa ainda possa encontrar Deus em sua vida.

Anthony Burgess

“Tanto no livro como no filme, a maldade que o Estado comete ao fazer uma lavagem cerebral em Alex é vista em sua própria e espetacular falta de autoconsciência em termos de valores não éticos. Alex aprecia Beethoven e usou a Nona Sinfonia como estímulo para sonhos de violência. Foi sua escolha, mas não havia nada que o impedisse de optar por aquela música como mero reconforto ou imagem da ordem divina. No momento em que começa seu condicionamento, o fato de ele não ter feito a melhor escolha não significa que ele nunca a fará. Mas uma terapia de aversão que associe Beethoven e uma punição inesperada é o equivalente a privar alguém - de maneira estúpida, inconsequente – de seu direito de apreciar a visão divina. Pois existe uma bondade além da simples bondade ética, que é sempre existencial: existe a bondade essencial, aquele aspecto de Deus que podemos intuir com maior intensidade no sabor de uma maçã ou no som de uma música do que em meros atos corretos ou até mesmo na caridade.”

Talvez o sucesso do Laranja Mecânica venha justamente de ele ter saído um pouco do controle de Burgess e ter sido interpretado de maneiras que o autor não julgava as melhores. Seus outros livros, inclusive os posteriores ao filme foram recebidos com frieza. Isso não passou despercebido por ele, porém ao falar sobre uma literatura “exclusivamente edificante” parece que ele mesmo não entendeu de onde veio o sucesso do Laranja Mecânica:

“De minha parte não gosto tanto desse livro como de outros que escrevi; mantive-o, até recentemente, dentro de um recipiente de vidro fechado – uma geleia, uma conserva na prateleira, em vez de uma laranja no prato. O que eu gostaria mesmo de ver é um filme de algum dos meus outros livros, todos exclusivamente edificantes, mas receio que seja esperar demais. Parece que hei de passar o resto de minha vida como a fonte e a origem de um filme grandioso, e como um homem que precisa insistir, contra toda oposição, que é a criatura mais mansa que existe. Assim como Stanley Kubrick.”

Quando Roland Barthes declara a morte do Autor o tema parece distante e metafórico, porém em casos como o do Laranja Mecânica é fácil ver como a literatura pode assumir vida própria a partir dos leitores e como o escritor nem sempre é capaz de se manter consciente de todas as possibilidades criativas daquilo que ele mesmo cria. Felizmente para Burgess e para todos nós, seu legado foi o Laranja Mecânica, o sermão fracassado, a geleia escondida na geladeira, o filme de Kubrick, o livro que engoliu seu autor.

Referência: BURGESS, Anthony – Laranja Mecânica. São Paulo: Aleph, 2012. ISBN 978-85-7657-136-0. Tradução: Fábio Fernandes.