Mas então, o que éramos?

É um ninho e as cascas estão agora vazias.

Os chocalhos vibram e gente que já foi querida agora sibila.

Sei que há outros como eu, se descobrindo presas, alvos. Erramos demais, talvez tenhamos merecido, mas nosso erro foi a leniência, a tolerância. Nosso erro foi fingir que era apenas diferença aquele piche que nos sujava todas as vezes que abraçamos os nossos.

Alguns amores talvez nunca o tenham sido. Amor é para seres humanos, incompreensível para o réptil cujo cérebro é todo reação.

Também vim de um ovo, mas de minhas escamas fiz penas. Fiz de meu veneno um voo e acreditei que era um homem. Descubro agora que vindo de onde vim não o posso ser. Aprendi a amar, mas também corre em minhas veias a peçonha do meu povo.

É um acordo em comum, salgamos a terra e aqui não nascerá nada humano, aqui se repetirá a nossa história e nossos filhos viverão como nós, nossos netos serão como nós. Mas veja, há algo que voar ensina, lá de cima o amor não é tão estrangeiro ao ódio.

O ódio banal rasteja, amar é rapina.


A biblioteca do Pantagruelista

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