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Nu em acrílico: o desconcerto e a angústia do Osmo de Hilda Hilst

“Por que é que eu penso e vejo coisas que ninguém mais pensa e vê?”

 

Uma mulher mais idosa à esquerda e ao fundo. À direita, um homem em posição fetal dentro de um apertado tanque de acrílico cheio de água. A imobilidade, a posição e a iluminação amarelada logo trazem à mente: um feto. Porém se o feto lembra sempre o útero, o tanque de água não nos permite parar aí, há também algo daquele incômodo característico das peças anatômicas que exibem deficiências e fetos abortados em jarros de vidro.

Hilda Hilst na Casa Sol.

É assim que começa a peça Osmo, dirigida por Susan Damasceno e apresentada durante a Ocupação Hilda Hilst, exposição dedicada à obra da escritora feita em parceria entre o Instituto Hilda Hilst e o Itaú Cultural. A peça é uma adaptação do texto Osmo que compõe o primeiro livro em prosa da autora, o Fluxo-Floema.

No palco, Donizeti Mazonas interpreta Osmo em seu monólogo que vai do eufórico ao contemplativo com uma força digna do texto original de Hilda Hilst. A imagem maternal ao fundo, interpretada por Érica Knapp, dá o tom de uma presença ausência constante beirando o fantasmagórico.

Ler Hilda Hilst é essencial para qualquer leitor brasileiro, porém a peça faz jus ao original com um arrojo que lhe permite não depender do livro. Mesmo para quem não leu Fluxo-Floema o trecho da peça abaixo vale cada segundo.

Trecho da peça "Osmo", texto de Hilda Hilst. Direção, adaptação, figurinos e trilha sonora: Suzan Damasceno; Concepção, adaptação, cenário e interpretação: Donizeti Mazonas; Participação especial: Érica Knapp.