O prefácio do qual Bioy Casares se redimiu 25 anos depois

“...se um escritor viver bastante vai descobrir em sua obra uma variada gama de erros, e não se conformar com tal destino indicaria presunção intelectual.” - Adolfo Bioy Casares

Silvina Ocampo e Bioy Casares.

Qualquer leitor que tenha se deparado com as obras de Adolfo Bioy Casares, Jorge Luís Borges ou Silvina Ocampo sabe a força que têm os textos desses ícones da literatura sul americana. Porém o que eles mesmos liam e consideravam importante? Segundo Bioy, em uma de suas reuniões eles decidiram reunir os melhores contos fantásticos que conheciam e editá-los em conjunto. Desse encontro saiu em 1940 o livro “Antologia da Literatura Fantástica” que ficou famoso tanto por seus antologistas quanto pelos contos admiráveis que o compõem.

Todavia, em 1965 um post-scriptum foi adicionado ao livro com o intuito de corrigir algumas afirmações feitas no prefácio de 1940, ambos escritos por Bioy Casares:

“Para consolar-me, argumentei, certa vez, que se um escritor viver bastante vai descobrir em sua obra uma variada gama de erros, e que não se conformar com tal destino indicaria presunção intelectual. No entanto, tentarei não desperdiçar a possibilidade de emenda.”

Borges e Bioy Casares (esq.)

Mesmo reconhecendo que a vida de escritor é inevitavelmente permeada de erros, Casares talvez não precisasse se incomodar com exageros cometidos em um antigo prefácio, porém a crítica superficial e injusta não é aceita por ele. Nesse prefácio ele critica um dos contos de Rudyard Kipling e ainda alfineta Marcel Proust no mesmo trecho. Brincando sobre uma maldição no texto e tentando relembrar o estado psicológico que lhe fez escrever essas palavras ele não só renega seus ataques como rende homenagem a esses autores.

“Tal reparo e nem uma palavra sobre méritos configuram uma opinião que não é a minha. Provavelmente o parágrafo em questão estava amaldiçoado. Não só ataco, nele, um conto predileto, como também encontro um modo, a despeito do ritmo natural da linguagem, que não tolera parênteses tão longos, de acrescentar uma referência a Proust, tão arbitrária quanto depreciativa. Aceito que muito fique por dizer, mas não que diga o que não penso. Irreverências ocasionais podem ser saudáveis, mas por que dirigi-las aos que mais admiramos? (Agora penso recordar que houve um momento na juventude em que o sacrifício incompreensível me enchia de orgulho.)”

Ele ainda segue explicando que seus ataques eram também reflexo de um entendimento àquela época de que o romance havia se esquecido de algo que ele julgava essencial: contar histórias. Se opuseram ao romance psicológico com veemência criticando o que ele considerava “uma falta de rigor construtivo”. Entretanto, ele mesmo assume que o romance psicológico não correu riscos por causa dos “embustes” dessa época. E ele defendia que as críticas à literatura fantástica também cairiam por terra:

“O conto fantástico também não corre riscos por conta do desdém daqueles que pedem uma literatura mais séria, que traga algumas respostas às perplexidades do homem – não se detenha aqui minha pena, estampe a prestigiosa palavra- moderno. Dificilmente a resposta significará uma solução, que está fora do alcance de romancistas e contistas; provavelmente insistirá em comentários, considerações, divagações, talvez comparáveis ao ato de ruminar, sobre um tema da atualidade: política e economia hoje, ontem ou amanhã, a obsessão correspondente. A um anseio do homem, menos obsessivo, mais permanente ao longo da vida e da história, corresponde o conto fantástico: ao desejo inesgotável de ouvir histórias; esse o satisfaz mais que qualquer outro, porque é a história das histórias, a das coleções orientais e antigas e, como dizia Palmerim da Inglaterra, o pomo de ouro da imaginação.”

O prefácio e o post-scriptum da “Antologia da literatura fantástica” são, por si só, uma aula de crítica e respeito, uma forma de se redimir que nos faz falta. Os textos ali compilados são uma riqueza à parte que merecem ser lidos na íntegra. Leia também trechos de uma entrevista com Borges em que ele fala de seu amor pela literatura e sobre o que é ser um grande escritor.