A rejeição de Amos Oz à imagem santificada dos escritores

A transcrição a seguir é a tradução da fala de Amos Oz ao painel “Como imagina o Estado” no 48º Congresso Internacional da fundação PEN em 13 de Janeiro, 1986.

AMOS OZ

"Senhoras e senhores, amigos.

Eu quero reiterar a declaração da Nadine Goldman dita com palavras tão diretas: “O Estado não tem imaginação”, a imaginação do Estado existe apenas na imaginação de alguns escritores como aqueles que inventaram esse nosso título aqui.

São Jorge e o dragão, isso é o que devia estar na mente deles quando inventaram esse título. Todo escritor e todo soldado desarmado precisam dele, todo dragão e todo perverso Brejnev ou um Richard Nixon imoral. Eu não gosto disso. Acho que alguns Estados são quase decentes, assim como alguns escritores. Alguns Estados e alguns escritores são corruptos de muitas formas diferentes. Nosso título tem ares de um anarquismo romântico e simplista, até um toque de maniqueísmo kitsch. Eu rejeito a imagem de um grupo santificado de escritores marchando bravamente para combater impiedosas burocracias em defesa de outros seres humanos mais amáveis e simples que estão por aí. Eu não faço parte desse negócio de Belas contra Feras.

Primeiro: Estados e governos e burocracias, os justos e os horríveis, sempre foram inspirados por toda sorte de visões geradas por todos os tipos de escritores, algumas justas, algumas ruins, outras horríveis, visões que muitos poderosos distorceram ou não de diferentes maneiras que diferentes escritores condenaram ou elogiaram. Segundo: alguns escritores realmente morreram em prisões e gulags enquanto outros prosperaram em cortes. Porém, a maioria não morreu como mártir nem teve sucesso lambendo botas, ninguém matou o dragão. Além disso, o povo amável e simples lá fora não é nem amável nem simples, a maioria de nós sabe muito bem disso, basta ler nossos próprios livros para ver.

Agora vem o meu argumento principal. Me surpreendo constantemente com o abismo entre o que vemos quando escrevemos nossos poemas, contos, peças e o que fazemos quando formulamos ou assinamos petições, manifestos, títulos para discussões penais em nossas conferências como se estivéssemos usando dois pares de olhos contraditórios e os aqui presentes não são exceção, eu não sou exceção. A maioria tem uma boa noção sobre os dragões que habitam o coração humano, entretanto, fora das nossas obras literárias tendemos a soar como se acreditássemos numa suposição simplista, perigosa, Jean-Jaques Rousseauniana de que governos e establishment são perversos, todo eles, enquanto as pessoas comuns nascem puras e amáveis, todas elas. Eu discordo, o “Estado”, como nos dizem, é um mal necessário simplesmente porque vários indivíduos têm grande capacidade de serem muito letais. Além disso, alguns Estados, como eu disse, são quase justos, alguns são ruins, uns são letais e já que os escritores estão, ou deveriam estar, no departamento de sutilezas e no departamento da precisão, é nosso trabalho diferenciar.

Quem ignora a existência de níveis variáveis de maldade está fadado a se tornar um servo do mal. Acabei de falar em precisão e sutileza, nós não somos repórteres, mas somos. Nós não necessariamente colecionamos ou refletimos fatos, nós inventamos, torcemos, exageramos, distorcemos, viramos as coisas de cabeça para baixo. Porém perceba, no momento em que transformamos as coisas em palavras as palavras são promovidas a evidência, daí surge a responsabilidade por precisão, por nuances, por sutilezas. Vem daí nosso dever de mapear o mal, avaliá-lo e medi-lo em níveis. A tragédia da história não é o incorrigível choque entre indivíduos santificados contra establishments diabólicos, mas o choque perpétuo entre sociedades relativamente decentes contra as sociedades sanguinárias. Ou, para ser mais preciso, a covardia perpétua das sociedades relativamente decentes sempre que se confrontam com a crueldade das sociedades opressivas.

Como ser humano? O que equivale a ser cético e capaz de ambivalência moral e ao mesmo tempo tentar combater o mal.

Como permanecer dedicado contra o fanatismo?

Como lutar sem se tornar um guerreiro?

Como lutar contra o mal sem se contaminar? Lidar com a história sem se expor ao efeito venenoso da história?

Três meses atrás em Viena eu vi uma manifestação na rua de ambientalistas protestando contra experimentos científicos em porquinhos da Índia. Eles carregavam placas com as imagens de Jesus Cristo cercado de porquinhos da Índia sofrendo. “Ele os amou também”, dizia. Talvez ele tenha amado mesmo, mas alguns dos manifestantes me olhavam como se, eventualmente, estivessem dispostos a atirar em reféns na hora se fosse para acabar com o sofrimento dos porquinhos da Índia. É o resumo do que estou falando, que também é em certa medida a história do meu próprio país, Israel e a história dos bons samaritanos, aqui, lá e em qualquer lugar.

Amigos, não imputemos uma imaginação demoníaca ao Estado e uma imaginação redentora a nós mesmos. Está tudo em nossas cabeças. Não nos rendamos à tentação da simplificação. Nós devemos separar o ruim do pior e do horrível.

Obrigado."